Periódico Técnico-Científico do Programa de Pós- Graduação em Tecnologia da UTFPR.

n. 1 (out. 2005).
Curitiba: Editora UTFPR (denominação anterior: Editora CEFET-PR).
No.3 – 2 º semestre 2006 – Semestral.

ISSN (versão online): 1984-3526

Revista Tecnologia e Sociedade - n. 03 - 2 º Semestre de 2006
INVESTIGANDO O CARÁTER SITUADO DO CONHECIMENTO: REFLEXÕES SOBRE EPISTEMOLOGIAS FEMININAS E EDUCAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA
The situated knowledge aspects: reflections about feminist epistemologies and scientific and technological education
Carla Giovana Cabral*

Resumo
O afastamento histórico entre razão e emoção apartou os sujeitos feminino e masculino, construindo uma noção de objetividade que também isola em campos opostos a racionalidade científica e o compromisso social e emocional. Essa dicotomia tem alheado o gênero da construção do conhecimento científico, no que também colabora para um entendimento pouco crítico da relação entre a ciência, a tecnologia e a sociedade, tendendo a uma compreensão ingênua de que essas atividades são realizadas por um sujeito pretensamente neutro. Epistemologias feministas lançam olhares distintos sobre esses e outros aspectos, nem sempre se conciliam, há conflitos, semelhanças. Tentamos, a partir de alguns desses olhares, empreender uma análise a caminho de um conhecimento que é produto da interação entre sujeito e objeto do conhecimento - e ponto de partida para a possibilidade de uma dialogicidade. Em nossa leitura também verificamos algumas implicações da visão tradicional de ciência e tecnologia sobre a noção de objetividade e refletimos a respeito da mulher como um sujeito histórico e socialmente situado e a contribuição desse olhar para uma educação transformadora. Afinal, por que as decisões que levam em conta o caráter social e categorias como o gênero devem ser tomadas necessariamente como irracionais e não objetivas?

Palavras-chave: epistemologia feminista; gênero, ciência e tecnologia; educação tecnológica.

Abstract
The historical removal between reason and emotion separated the feminine subjects and masculine, building an objectivity notion that also isolates in opposed fields the scientific rationality and the social and emotional commitment. That dichotomy has been alienating the gender of the construction of the scientific knowledge, in what it also collaborates for an understanding little critic of the relationship among the science, the technology and the society, tending to a naive understanding that those activities are accomplished supposedly by a subject neutral. Feminists epistemologies launch different glances on those and other aspects, not always they reconcile, there are conflicts, likeness. We try, starting from some of those glances, to undertake an analysis on the way to a knowledge that is product of the interaction between subject and object of the knowledge - and starting point for the possibility of a dialogue. In our reading we also verify some implications of the traditional vision of science and technology about the objectivity notion and we contemplate regarding the woman as a subject historical and socially located and the contribution of that glance for an transform education. After all, why the decisions that take into account the social character and categories as the gender should necessarily be taken how irrational and don't you aim at?

Keywords: feminist epistemology, gender, science and technology, technology education.

Quando o demiurgo do Timeo, de Platão, cria as almas, concedelhes uma estrela, que se encarnará em homem. O caminho para tal "privilégio" é a dominação de paixões e emoções e uma vida racional e justa. Desviar-se desse caminho resulta numa espécie de "castigo". Em vez de se reencarnar em homens, as almas que se rendem às paixões voltam à terra como mulheres.

Tão antiga história, tão presente filosofia a suscitar questões sobre o afastamento entre razão e emoção, entre pensar e sentir, alimentando o apartamento dos sujeitos masculino e feminino, construindo uma noção de objetividade que isola em campos opostos a racionalidade científica e o compromisso social e emocional.

Tão comum a dicotomia homem/mulher ainda é, entretanto, dualidade proveitosa para investir em reflexões que relevem o gênero num território de certa forma hostil e pouco acostumado à sua presença, como o é o da ciência e da tecnologia.

Discutir gênero na ciência e na tecnologia é defrontar-se com modos diferentes, às vezes até mesmo pouco compatíveis, de lançar o olhar da epistemologia feminista para uma análise crítica que procure encontrar o conhecimento científico como produto da inter-relação entre sujeito e objeto. Trata-se de uma opção epistemológica e creio ser importante perguntar: por que as decisões que levam em conta o caráter social devem ser tomadas necessariamente como irracionais e não objetivas?

Neste ensaio nós refletimos de forma introdutória sobre o lugar do sujeito feminino na ciência e na tecnologia por meio de uma breve análise crítica das epistemologias feministas e algumas de suas implicações sobre a noção de objetividade.

CENÁRIOS

São vários os espaços nos quais os estudos sobre ciência, tecnologia e gênero desempenham hoje seu papel. Em uma certa medida, encontraram berço na consciência das mulheres de sua diferença e em posicionamentos políticos inerentes ao próprio movimento feminista, como analisam Pérez Sedeño e Gonzáles García1.

Por que tão poucas mulheres na ciência e na tecnologia? Essa foi uma questão inaugural de pesquisas que buscam revelar a diferença, no sentido de inferioridade em relação aos homens no mesmo espaço de atuação. Erguem-se, aqui, relações e conflitos entre ciência, tecnologia, gênero e poder. Discutem-se, também, as barreiras que acabam concedendo ao sujeito feminino um estatuto epistêmico inferior. Recuperar historicamente as mulheres na ciência e na tecnologia, refletir sobre a exclusão a que são submetidas e realizar estudos empíricos são alguns exemplos de pesquisas histórico-sociológicas2. Há também esforços para trabalhar questões no campo pedagógico, renovando currículos e motivando meninas e mulheres a aprenderem ciências.

Num outro sentido, mas ainda com o objetivo de oposição ao sexismo e ao androcentrismo, releva-se a componente política do feminismo, procurando incorporar o gênero como variável relevante em suas análises críticas da cultura técnico-científica. De um lado, a discussão sobre o efeito da essência feminina sobre guerras e a favor de movimentos antiarmamentistas e ecológicos; de outro, a verificação de que o empreendimento científico era muito sexista, pois erigido sobre valores de dominação e controle tipicamente masculinos.

Outra pergunta foi fundamental para que se passasse das questões da mulher na ciência para as da ciência no feminismo3, em outras palavras, os estudos sociais das ciências e os estudos feministas sobre a ciência4 . Quais as conseqüências da exclusão da mulher para os conteúdos e as práticas científico-tecnológicas?

Outras questões se seguem e vale a pena conhecê-las como forma de mapear o percurso desses estudos e seus cenários contemporâneos, e cabe repetir uma vez mais heterogêneos. São elas: (1) poderiam os estudos sobre a vida das mulheres revelar aspectos de gênero presentes no conteúdo e nos métodos das ciências? Diferenças localizadas no cérebro ou provocadas por hormônios limitariam a aptidão das mulheres para atividades científicas? Características culturais especificamente femininas favoreceriam as mulheres no exercício da atividade científica? Seria necessário preparar e educar as meninas para facilitar seu acesso a essas atividades? A entrada massiva de mulheres na ciência contribuiria para a superação de "vieses androcêntricos contidos na prática científica? Existiria um estilo feminino (ou feminista) de fazer ciência? Até que ponto as mulheres desenvolvem e seguem abordagens não padronizadas ou são inovadoras na metodologia que utilizam? Seria possível falar em "ciência feminista"?5

Preste-se atenção ao significado que evoca cada pergunta linhas atrás, suas palavras, o que perguntam e o que já estão afirmando ao perguntar.

E quais foram as respostas? Citeli, numa clara apreciação dos estudos da área em língua inglesa, afirma que representativas pesquisadoras, já na década de 80, responderam que não à maioria delas. Nesse mesmo período, os estudos sobre a exclusão e a invisibilidade das mulheres nas ciências começam a ser vistos como "um assunto de relevância limitada". Uma década depois, fala-se numa certa "baixa prioridade" das feministas ao tema. Segundo a análise de Citeli, as oportunidades para as mulheres na ciência, notadamente para as americanas, aumentaram e outras barreiras, como a da raça, são atualmente mais evidentes.

Estudos recentes procuram diagnosticar a situação das mulheres na ciência e na tecnologia. Lona Schiebinger6 aponta um aumento no número de mulheres a dirigir agências governamentais, chefiar departamentos e manter cadeiras acadêmicas de prestígio. Foi uma situação que, segundo ela, levou o governo dos Estados Unidos a publicar um relatório sobre a posição das mulheres na ciência. Em O Feminismo Mudou a Ciência?, Schiebinger mostra estatísticas sobre a territorialidade em relação a disciplinas científicas e por etnia naquele país.

Estudos realizados na América Latina7 alertam para a ausência de estatísticas diferenciadas por sexo, ao contrário de países desenvolvidos. Uma das ações nesse sentido é o diagnóstico da situação, buscando indicadores, desde a análise etária e com relação ao sexo, até níveis hierárquicos e acesso a bolsas, entre outros.

Esse estudo revelou que, no Brasil, a posição das mulheres líderes, por idade e número total de investigadores, resulta, em todas as faixas etárias, em menos da metade, exceto as mais jovens. Outro dado é que a única área em que as mulheres são maioria é a das Ciências Humanas. Em Ciências Agrárias, Engenharias e Exatas o predomínio é masculino. Os autores concluíram que, no Brasil e na Argentina, há um ingresso massivo de mulheres e que as barreiras se manifestam para que alcancem níveis intermediários altos na carreira científica e tecnológica.

Em virtude da discriminação territorial, se relega às mulheres certas áreas da atividade científica, áreas marcadas pelo sexo, tais como computar dados astronômicos, ou classificar e catalogar em história natural. Isso traduz-se, entre outras coisas, em dizer que determinadas carreiras são mais "femininas" que outras e que certos trabalhos, "feminilizados", adquirem menos valor que outros. Também existe a discriminação hierárquica, onde mulheres cientistas capazes e brilhantes são mantidas nos níveis inferiores da escala da comunidade ou topam com um teto de cristal, que não podem ultrapassar em sua profissão.8

O olhar com que se lê e a partir do qual se trava discussões acerca de temas como esse ou de resultados de pesquisa assim exige o depreender de posturas epistemológicas, que têm provocado interessantes debates no interior do pensamento feminista e nos estudos da ciência de uma maneira geral9. O debate entre realistas sociais e pós-modernas, por exemplo, produz tensões. Algumas dessas tensões e a tentativa de buscar uma opção teórica na epistemologia feminista, que se aproxime ou se encontre com um conceito de conhecimento científico e tecnológico baseado na interrelação crítica entre sujeito e objeto, é o que vamos procurar fazer a partir de agora. Estamos cientes da amplitude da discussão e certamente não esgotaremos o assunto, mas pontuaremos o que julgo importante para uma introdução ao tema.

EPISTEMOLOGIAS FEMINISTAS

É possível falar em epistemologia feminista? As questões que suscitam já não se situariam no campo mesmo da epistemologia?

É pertinente flexionar em número, mas muito provavelmente não em gênero, a epistemologia feminista. Seu corpus é heterogêneo em posturas, mas de uma forma geral defende uma teoria do conhecimento que não despreze o contexto social do sujeito cognoscente. Nesse sentido, o sujeito feminino é um sujeito situado no conhecimento. Quais as implicações disso para o conceito de objetividade na ciência? Quais as conexões entre conhecimento e poder?

As epistemologias feministas abarcam análises que compreendem tanto problemas epistemológicos da perspectiva feminista quanto as que defendem a existência de formas de conhecimento femininas ou ainda uma teoria do conhecimento ou ciência feminista. Suas abordagens passam pelo: (1) empirismo ingênuo, (2) o enfoque psicodinâmico, (3) a teoria feminista do ponto de vista, (4) o empirismo feminista contextual e (5) as epistemologias pós-modernas.

Sandra Harding10 descreve o empirismo ingênuo como uma espistemologia feminista que vê as tendências sexistas e androcêntricas na ciência como fruto do mau emprego do método científico clássico, cuja aplicação correta levaria à 'boa ciência'.

Uma das críticas feitas por Harding11 a essa visão é que suas praticantes estão por demais preocupadas com as regras e os princípios da ciência e que o discurso de 'má ciência' e um maior cuidado com a coleta de dados não resultaria propriamente numa epistemologia. Penso, além disso, que ao adotar o método cientifico para eliminar tendências sexistas e androcêntricas surge um problema espistemológico e uma contradição em relação ao próprio feminismo.

A base do método científico é a lógica e a experiência. É um método indutivo para descobrir leis ou fenômenos12, que considera a ciência como um empreendimento autônomo, objetivo, neutro e baseado em explicações de um código de racionalidade alheio a qualquer tipo de interferência externa. É uma prática que subleva o sujeito e o menospreza em relação ao objeto: a experiência ergue-se como senhora das respostas. Pouco importa quem é o sujeito, ele muito provavelmente apenas emprestará seu nome, que ficará talvez como um gênio na historia, pois conseguiu "descobrir" ciência. Nesse caso importaria distinguir sujeitos masculino e feminino?

Ao provocar um retorno ao empirismo, as empiristas ingênuas parecem desprezar a tradição de um feminismo que busca recuperar o papel da mulher na sociedade, em busca de igualdade entre os sujeitos, preservando suas diferenças, e considerando história, cultura e aspectos sociais e políticos, o que o método científico simplesmente não vai levar em conta. Ao contrário, repele esses aspectos e abraça a ciência para que avance linear e cumulativamente.

As empiristas ingênuas e sua prática de querer a 'boa ciência' situamse no campo de fazer e justificar os resultados. Seus trabalhos têm origem nas pesquisas sobre a possibilidade de uma ciência feminista em biologia. Trata-se, na opinião de Harding, de relevar muito mais as "virtudes científicas convencionais" - adotando um discurso de objetividade e verdade "antigas e fortes" - do que propriamente levar em conta o movimento feminista de uma maneira geral.

Outra epistemologia cotejada como feminista é a denominada enfoque psicodinâmico. Seu objetivo é explorar as conseqüências de a ciência ter sido construída - majoritariamente por homens a partir de estudos sobre as diferenças entre raciocínio ou moralidade entre homens e mulheres e a teoria psicoanalítica13. Nessa linha, autoras como Evelyn Fox Keller defendem que homens e mulheres são diferentes porque foram submetidos a diferentes processos de aprendizagem emocional desde o nascimento. Assim, meninos dominam e meninas aprendem a integrar. Aplicando essa lógica na ciência, se constataria que ela foi produzida por homens e, conseqüentemente, resultou numa objetividade estática, cuja meta é o controle da natureza14. Fosse feita por mulheres, essa mesma ciência adotaria uma noção dinâmica de objetividade, uma imagem mais complexa e interativa do mundo.

Fox Keller, por exemplo, defende em Reflections on Gender and Science a idéia de objetividade dinâmica, a partir da junção de amor, força e conhecimento15. A pesquisadora também escreveu uma biografia da bióloga Bárbara McClintock16, que ganhou o Prêmio Nobel, em 1983, por seu trabalho sobre a genética do milho. Ao escrever a biografia de McClintock, Fox Keller, também bióloga, parece querer comprovar a existência de uma objetividade dinâmica e um fazer feminino de ciência.

Ao fazer tal distinção entre sujeitos masculino e feminino, o enfoque psicodinâmico corre o risco de cair no essencialismo. Não é à toa que logo ao início de Reflections on Science Gender, Fox Keller dedica boas páginas para discutir "Amor e Sexo na Epistemologia Platônica" na perspectiva das ligações históricas entre mente e natureza. De certa forma, ao questionar o amor e o sexo na filosofia platônica, Fox Keller já nos introduz num mundo de opostos. É como se dissesse que na essência mulheres e homens são diferentes e o produto dos seus fazeres científicos e tecnológicos também o serão.

O essencialismo não resolve o problema pensar/ sentir, razão/ emoção, pelo contrário, assevera-o. O essencialismo, na opinião de Peres Sedeño e Gonzáles García, também é o perigo da teoria feminista do ponto de vista, cuja autora mais conhecida é Sandra Harding. A teoria feminista do ponto de vista é de origem marxista e adota o reconhecimento do caráter socialmente situado das crenças. Às mulheres é dado um privilégio epistemológico de ver coisas que aos homens não seria possível, pois o seu território é o do poder.

Harding17 justifica sua argumentação de uma ciência feminista, perpassando questões como: (1) a vida das mulheres, como diferente da dos homens, tendo sido erroneamente desvalorizada e negligenciada como ponto de partida para a pesquisa científica como geradora de evidência para ou contra o direito do conhecimento; (2) as mulheres são preciosas "estrangeiras" na ordem social, o que as leva a serem discriminadas e excluídas nos projetos e na direção da ordem social e da produção do conhecimento; (3) tornar-ganhar uma consciência feminista é um processo doloroso para muitas mulheres; (4) as mulheres estão do outro lado da batalha diária, construindo suas histórias resistindo à opressão; (5) a perspectiva das mulheres é a do dia-a-dia, entre outras.

Harding opõe a noção tradicional de objetividade, que julga parcial, ao que denomina objetividade forte, a qual é proporcionada pelo ponto de vista feminista18.

Levando-se em conta, como analisam Pérez Sedeño e Gonzáles García, que há várias experiências femininas e pontos de vista, seria difícil definir qual dos pontos de vista seria o mais privilegiado. Ao perigo do essencialismo, acrescento o do relativismo.

A dificuldade de se discernir o conhecimento científico como privilegiado em relação a outros ou a consideração apenas dos aspectos sociais, desenlaçados do conteúdo empírico, pode levar a ciência a assumir mesmo patamar de práticas pseudocientíficas e mesmo status de outros tipos de conhecimento.

Menciono ainda outras duas epistemologias, os empirimos feministas contextuais e as pós-modernas. No primeiro caso, assume-se que o sujeito do conhecimento é o indivíduo, seguindo uma estratégias de lhes multiplicar. Ou seja, considerar como sujeito a própria comunidade científica. Talvez o problema, aqui, seja como definir essas comunidades e como elas entram em consenso sobre a validade de teorias.

As epistemologias pós-modernas, por sua vez, concebem ciência como "narrar histórias", uma negociação de interesses, não de busca da verdade. Há um problema de possibilidade do conhecimento que talvez não se resolva. Literatura, etnografia, jornalismo também narram histórias e se situariam, segundo a perspectiva pós-moderna, no mesmo plano da ciência. É a epistemologia feminista relativista por excelência. Ergue-se aqui uma série de aspectos a serem rebatidos, os quais certamente abordarei em outro trabalho.

As epistemologias acima apresentadas também se aplicam ao conhecimento tecnológico, embora este, com suas especificidades, tenha criado espaços que pesquisam questões como a influência do desenvolvimento tecnológico na liberação e na opressão da mulher (tecnootimismo), o caráter patricarcal da tecnologia (tecno-pessimismo), a aproximação das mulheres à natureza, construção cultural da tecnologia como masculina (enfoques sociohistóricos), até mesmo a neutralidade da tecnologia (feminismo liberal).

(RE) DEFININDO A OBJETIVIDADE CIENTÍFICA: TENTATIVAS

Quais as implicações de se considerar o gênero na ciência e na tecnologia? Qual a objetividade possível considerando-se o gênero?

Inicialmente, é importante que se tenha em conta a dificuldade de se definir ciência e tecnologia. Na definição tradicional, em que a ciência é vista como um empreendimento autônomo, neutro e objetivo não se discutem as relações entre ciência e poder. Isso implicaria em considerar o sujeito em seus contextos histórico, social, cultural, ideológico. Mas ser autônoma, neutra e objetiva significa o ser em relação ao sujeito, arrancado de qualquer compromisso moral, social cultural, histórico e político. O que desejo desenvolver a seguir é que a introdução da categoria gênero para se discutir a origem e o desenvolvimento da ciência pode contribuir para que não se alheie da construção do conhecimento o sujeito feminino historicamente inferiorizado e dicotomizado em relação ao masculino - rumo a uma ciência e tecnologia humanistas. Cabe lembrar o "privilégio" e o "castigo" do demiurgo platônico mencionado ao princípio deste trabalho.

A noção tradicional de objetividade a distingue como propriedade independente dos seres humanos e seus contextos. Nesse caso, ela é uma espécie de produto final de um processo onde o conhecimento produzido opõe-se às responsabilidades, moral e social do cientista19. A objetividade aqui é confundida com passividade política e ética, argüindo-se uma pretensa neutralidade, que colabora com o desenvolvimento de um conhecimento linear, longe das crises, das remodelações profundas20.

Tomas Kuhn, em Estrutura das Revoluções Científicas, discute um desenvolvimento da ciência que passa por estágios de revoluções que a transformam.

(...) consideramos revoluções científicas aqueles episódios de desenvolvimento não-cumulativo, os quais um paradigma mais antigo é total ou parcialmente substituído por um novo, incompatível com o anterior.21

O paradigma "revela um conjunto de ilustrações recorrentes e quase padronizadas de diferentes teorias nas suas aplicações conceituais, instrumentais e na observação"22. Quando um determinado paradigma não é mais bem sucedido na busca pela verdade e na resolução de problemas, surgem anomalias, que por sua vez geram crises. Um novo paradigma poderá resolver a crise. Kuhn compara o processo de aceitação de um novo paradigma ao da revolução política.

As revoluções políticas visam realizar mudanças nas instituições políticas, mudanças essas proibidas por essas mesmas instituições que se quer mudar. Conseqüentemente, seu êxito requer o abandono parcial de um conjunto de instituições em favor de outro.23

Essa mudança leva os cientistas a verem o mundo de uma maneira diferente. É algo que envolve as comunidades das quais eles fazem parte, sem desprezar seus compromissos de pesquisa, seu tempo, sua situação de sujeito historicamente construído. Investigando a história, Tomas Kuhn teorizou sobre o desenvolvimento da ciência.

Assim, o sujeito neutro que protagonizou a ciência do empirismo lógico despe-se e se revela indivíduo histórico. Assim também ocorre nas comunidades tecnológicas, resguardadas as peculiaridades entre o conhecimento científico e o tecnológico, suas práticas e filosofias, e a ação deste último na direção do estado da arte, da necessidade, concepção, viabilidade e produção24.

(...) é bem possível que significativos contingentes humanos estejam sob os efeitos de um autêntico "sonambulismo tecnológico", que os faz seguir nadando ao sabor das correntezas, quando não simplesmente observando passivamente barcos singrando as águas, sem ao menos discernir os destinos a que estes movimentos poderão levá-los".25

O sonambulismo tecnológico, entre outros pontos, precisa ser refletido na educação tecnológica: "Viver só de projetar e construir, ou só de pensar e criticar, é viver pela metade"26.

O que penso aqui é experimentar uma análise que aproxime a ciência e a tecnologia de uma prática que pode ser feminista. As mulheres fizeram e fazem ciência e tecnologia, mas suas histórias foram relegadas a um plano secundário. Recuperar a história e o fazer científico e tecnológico dessas mulheres esquecidas, (re) contando a história, é um dos resultados dos trabalhos que incluem a categoria gênero em análises da história da ciência e da tecnologia.

O caráter histórico nos faz mudar o foco para discutir a noção de objetividade, deslocando-o irremediavelmente para fora da dicotomia pensar/ sentir, razão/ emoção. A objetividade seria alcançada também pelo consenso de uma comunidade científica.

O sujeito feminino também é histórico, com a diferença de que foi construído a partir de condicionantes diferentes da do sujeito masculino. Não podemos dizer que à mulher cabe mais subjetividade que ao homem; e a este último caberia a objetividade. Seríamos no mínimo essencialistas. Mas o problema é que historicamente os sujeitos masculino e feminino foram construídos em oposição. E as relações de poder estão aí imbricadas.

Abandonar a oposição pensar/ sentir, razão/ emoção é crer que o "modelo de ciência que manejam muitos cientistas e a filosofia da ciência da concepção herdada não é neutra"27.

(...) como todo modelo surge de uma tradição e está impregnada de seus valores. É um modelo que se denomina masculino porque se associa a características masculinas e as potencializa, pois suprime aquelas associadas ao feminino.28

Concordamos com Pérez Sedeño quando questiona se foram excluídos os fatores subjetivos do processo de laboração/ construção/ obtenção do conhecimento científico e tecnológico. E cabe perguntar: quem é o sujeito cognoscente e o objeto conhecido, então?

Se não temos mais um sujeito cognoscente neutro, pois abandonamos a noção tradicional de objetividade científica, estamos em busca de um novo sujeito, que mantém seus laços históricos, culturais, sociais e políticos. Nesse caso, ciência não se opõe a poder, mas com ele interage - e vice-versa.

As epistemologias feministas, como vimos parágrafos atrás, com os devidos reparos e alguma exceção, enxergam esse novo sujeito cognoscente como "participativo, envolvido emocionalmente e comprometido com o que faz"29.

O conhecimento exige aprendizagem constante, interpretação em vários níveis, em diversos graus, em suma, algo muito mais completo do que o esquema S sabe que P".30

Podemos falar agora então no sujeito feminino como um sujeito situado no conhecimento. Isso significa que o conhecimento está condicionado pelo sujeito e sua situação particular. Assim, como discute Gonzáles García31, os padrões de justifcativa dependerão das condições nas quais aparece e se desenvolve.

O contexto de descobrimento se torna relevante para o contexto de justificação, e noções como conhecimento, justificativa, objetividade... se revolucionam e se transformam.32

Cabem, então, não mais um ponto de vista apenas na elaboração de sistemas de conhecimento, o que se pode aproveitar para dizer que não há um método científico apenas, mas vários métodos, abertos também à criatividade dos cientistas, reunidos em comunidade, com regras, valores e objetivos nem sempre comuns.

Desejo refletir a construção do conhecimento como uma prática social também. Para Helen Longino33, é possível adotar um raciocínio construtivo de duas formas, através dos valores individuais ou dos valores da comunidade científica. Quer dizer que os argumentos que são usados a favor de determinadas evidências dependem do seu contexto; certos dados constituem evidência, ao contrário de outros, favoráveis a determinadas hipóteses no embate com outras hipóteses ou pressupostos básicos. Nota-se, então, que a objetividade da qual estamos falando enlaça a crítica social com a evidência empírica.

Eu quero crer também, como Donna Haraway34, que as feministas não necessitam de reeditar a objetividade em termos de transcendência, perdendo "o rastro de suas mediações justamente quando alguém deva ser responsabilizado por algo, e poder instrumental ilimitado".

Gostaria de uma doutrina de objetividade corporificada que acomodasse os projetos científicos feministas críticos e paradoxais: objetividade feminista significa, simplesmente, saberes localizados. [...] apenas a perspectiva parcial promete uma visão objetiva35 .

Isso quer dizer que um valor como o da responsabilidade não pode ser relegado a uma esfera extracientífica. Dinâmica, a perspectiva parcial abarca as responsabilidades pelas "promessas" e "monstros destrutivos. É uma leitura da objetividade que a limita a um determinado espaço (mas, na verdade, a amplia) e localiza historicamente o conhecimento construído pelas mulheres, sem divisar relações entre sujeito e objeto do conhecimento, destruindo potencialmente dicotomias que alimentam relações desiguais de poder.

A perspectiva parcial concebe e concede olhares privilegiados, porém a mirada não é "inocente".

Elas são preferidas porque, em princípio, são as que têm menor probabilidade de permitir a negação do núcleo crítico e interpretativo de todo o conhecimento. Elas têm ampla experiência com os modos de negação através da repressão, do esquecimento e dos atos de desaparição - com maneiras de não estar em nenhum lugar ao mesmo tempo em que se alega tudo ver. [...] As perspectivas dos subjugados são preferidas porque parecem prometer explicações mais adequadas, firmes, objetivas, transformadoras do mundo.36

Um outro ponto nessa discussão (que gostaríamos de aprofundar n'outro momento) é de que conferimos aos sujeitos uma dinâmica, geralmente negada aos objetos do conhecimento. Um olhar mais atento, um saber localizado, vai tratar de enxergar um objeto mutante, que age, no tempo e no espaço, que também é passível de transformação. É preciso que se abandone a noção de uma lógica da descoberta37 e se construa mais firmemente a idéia de que o conhecimento se produz nas inter-relações de poder entre sujeito e objeto.

RECONTRAR TIMEO VAMOS FALAR DE EDUCAÇÃO?

Se consideramos o conhecimento como uma soma de prática social e conteúdo empírico tenho que (re) contar o "privilégio" e o "castigo" das almas do Timeo. Tanto mulheres, quanto homens poderiam deslindar seus passos nos caminhos da razão e da emoção, sem que isso se constituísse numa atitude a ser menosprezada. Se consideramos a educação como uma prática voltada à autonomia do indivíduo, temos, mais que nunca, que considerar o sujeito feminino como constituinte dessa prática e seu lugar na possibilidade, na origem e na essência do conhecimento. Autonomia, aqui, não significa neutralidade.

Em tempo algum pude ser um observador "acinzentadamente" imparcial, o que porém, jamais me afastou de uma posição rigorosamente ética. (...) Significa reconhecer que a História é tempo de possibilidade e não de determinismo, que o futuro, permita-se-me reiterar, é problemático e não inexorável"38 .

Se consideramos essa objetividade na ciência e na tecnologia, não esbarramos na discriminação. Se discriminamos, recriminamos o gênero, trocamos a autonomia do sujeito pela autonomia da ciência. Mas se adotamos a primeira, mulheres e homens serão estrelas, sem privilégios ou castigos na "reencarnação". Reveladas e resguardadas as suas diferenças históricas, talvez brilhem mais.

NOTAS

*
Mestre em Literatura e doutorado em Educação Científica e Tecnológica pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pesquisadora no Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação Tecnológica (Nepet/UFSC). (carla@ctc.ufsc.br)

1
GONZÁLES GARCÍA, M., PÉREZ SEDEÑO, E. "Ciencia, Tecnología y Género", in: Revista Iberoamericana de Ciencia, Tecnología, Sociedad y Innovación, n.2. Madrid: OEI, enero- abril de 2002. p. 1.

2
Exemplos de trabalhos nesta linha são: KELLER, E F. A Feeling for the Organism: The Life and Work of Barbara McClintock. New York: W.H. Fremann, 1983. LOPES, M. M. Gênero, Ciências, História. Revista do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu. UNICAMP, 2000. SHIEBINGER, L. O Feminismo mudou a ciência? São Paulo: Universidade do Sagrado Coração. 2001. PERES SEDEÑO, E. "¿El poder de una ilusión?: Ciencia, Género y Feminismo". In: VIEJA, M. T. L.. (Ed.) Feminismo: del pasado al presente. Salamanca: Universidad de Salamaca, 2000. "Insitucionalización de la Ciencia - valores epistémicos y contextuales: un caso ejemplar". Revista do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu. Campinas: UNICAMP, 2000.

3
GONZÁLES GARCÍA, M., PÉREZ SEDEÑO, E. Idem, p. 2.

4
CITELI, M.T. "Mulheres nas Ciências: mapeando campos de estudo", in: Revista do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu .op. cit, p. 44.

5
Idem, p. 42

6
SCHIEBNGER, L. O feminismo mudou a ciência. op. cit.

7
KOCHEN, Silvia, FRANCHI, Ana, MAFFÍA, Diana, ATRIO, Jorge. "Situación de las Mujeres en el Sector Científico-Tecnológico en América Latina". In: PÉREZ SEDEÑO, E. (Editora) Las Mujeres en el Sistema de Ciencia y Tecnología: estudios de caso. Cuadernos de Iberoamerica. Madrid: OEI, 2001, p. 19-39.

8
GONZÁLES GARCÍA, M., PÉREZ SEDEÑO, E. op. cit. p. 7-8.

9
Idem, p. 2.

10
HARDING, S. Whose Science Whose Knowledge? Thinking from Women's Lives. Ithaca: Cornell University Press, 1991.

11
Idem, p. 111-118.

12
CEREZO, J. A. L. et al. "¿Qué es la ciencia? In Ciencia, Tecnologia y Sociedad: una aproximación conceptual. Cuadernos de Iberoamerica. Madrid: OEI, 2001.

13
GONZÁLES GARCÍA, M., PERES SEDEÑO, E. op. cit., p. 13.

14
Ibidem.

15
KELLER, E F. Reflections on Gender and Science. New Haven/ London: Yale University Press, 1985.

16
KELLER, E. F. op. cit.

17
Harding. op. cit., p. 121-133.

18
Idem, p. 138-163.

19
PERES SEDEÑO, E. "La Perspectiva del género en ciencia y tecnología: innovación y nueva caracterización de las disciplinas". In: Ciencia, Tecnología, Sociedad y Cultura en el Cambio de Siglo. Madrid: Biblioteca Nueva, 2001, p. 291.

20
CEREZO. op. cit.

21
KUHN, T. op. cit., p. 145.

22
Idem, p. 67.

23
Idem, p. 67

24
BAZZO, W. A., PEREIRA, L.T.V. "Projeto", In Introdução à Engenharia.Florianópolis: EDUFSC, 1996, p.76.

25
BAZZO, W. A. Educação Tecnológica - enfoques para o ensino de engenharia. Florianópolis: EDUFSC, 2000, p. 142.

26
Idem.

27
PERES SEDEÑO. op. cit., p. 293.

28
Ibidem.

29
Ibidem.

30
CODE apud PERES SEDEÑO, op. cit., p. 293-294.

31
GONZÁLES GARCÍA, "Género y Conocimiento", in CEREZO, op. cit., p. 351.

32
Idem.

33
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34
HARAWAY, D. "Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial". In: Cadernos Pagu. n.5, 1995, p. 16.

35
Idem, p. 18; p. 21.

36
Idem, p. 23.

37
Idem, p. 37.

38
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia - saberes necessários à prática educativa, São Paulo: Paz e Terra, 2002. p. 15, 21.

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EXPRESSÕES DO CIBERFEMINISMO NA CONTEMPORANEIDADE
Cyberfeminism´s expressions in the contemporaneity
Cristina Tavares da Costa Rocha*
 

The central point remains: there is a credibility gap between the promises of Virtual Reality and cyberspace and the quality of what it delivers. It consequently seems to me that, in the short range, this new technological frontier will intensify the gender-gap and increase the polarisation between the sexes. We are back to the war metaphor, but its location is the real world, not the hyperspace of abstract masculinity. And its protagonists are no computer images, but the real social agents of post industrial urban landscapes. The most effective strategy remains for women to use technology in order to disengage our collective imagination from the phallus and its accessory values: money, exclusion and domination, nationalism, iconic femininity and systematic violence (BRAIDOTTI, Rosi, 2006).

Resumo

O objetivo deste texto é contribuir com informações e reflexões para o campo de estudos de gênero e tecnociência no que diz respeito a um dos seus mais recentes segmentos: o ciberfeminismo. Explicito algumas de suas expressões nos trabalhos desenvolvidos por mulheres na área das ciências exatas, que é um reduto hegemônica e historicamente masculino. Essa explicitação é evidenciada nas narrativas das entrevistadas enquanto recorte dos resultados de investigação realizada em laboratórios de informática/ computação de universidades públicas e de instituições de pesquisa no sul e sudeste do país.

Palavras-chave: Gênero; tecnociência; ciberfeminismo.

Abstract

This text aims to contribute with informations and reflections to gender and technoscience study field towards one of its most recent segments: cyberfeminism. I explicit some of its expressions in the works developed by women in the exact sciences area, which is hegemonic and historically male context. This explicitness is evidenced in the interviewed’s narratives taking off from the results of an investigation made in informatics and computational laboratories of public universities and research institutes in the South and Southeast of the country.

Keywords: Gender; technoscience; cyberfeminism.

Este texto apresenta reflexões preliminares sobre pesquisa1 a respeito de contextos aqui denominados laboratoriais, que são representativos das expressões do ciberfeminismo na contemporaneidade. Não obstante esses contextos sejam tidos até então como hegemonicamente masculinos, as mulheres têm aí adentrado cada vez mais, principalmente após o advento da sociedade interligada por redes computacionais de trabalho e de lazer, redes estas propiciadas pelas novas tecnologias da informação e da comunicação (Castells, 1999). O intuito principal deste texto é contribuir com informações e reflexões para a área dos estudos de gênero. Inspiro-me em teóricas do ciberfeminismo, como Donna Haraway, Sadie Plant, Rosi Braidotti, dentre outras; explicito alguns dos contextos por mim visitados, no sul e sudeste do País, a exemplo de laboratórios de informática e computação de universidades públicas e de instituições/fundações de pesquisa que têm parceria com projetos universitários. Opto por abordagem qualitativa de cunho interpretativo. Nesses locais tive oportunidade de fazer observação in loco. Informo sobre profissionais entrevistadas/os na ocasião das visitas, privilegiando o depoimento de mulheres. E, enfim, apresento algumas das considerações finais, que evidenciam certas tendências inovadoras no sentido de uma maior inclusão e penetrabilidade delas nesses contextos e reconhecimento de suas atividades2.

Ciberfeminismo

Há mulheres desempenhando funções e atuando de diversos modos nos novos espaços internéticos propiciados pela interconexão em rede de computadores, que tem facilitado a comunicação humana. Esta interconexão resulta em uma “sociedade em redes” e tem caracterizado a atual era, como a da informação e a da comunicação, a facilitar a construção do conhecimento e a colaborar na aquisição do aprendizado. Ao puxar o fio histórico sobre o uso dessas recentes tecnologias pelas mulheres encontro o ciberfeminismo.

Este, enquanto segmento dos estudos de gênero e da tecnociência3 atual, tem duas gêneses distintas (Ileana Stofenmacher, 2005). Uma delas, e é a que opto por inspirar o desenvolvimento deste estudo, surge com Sadie Plant (1999). Ela começou a usar o termo ciberfeminismo para identificar toda e qualquer problemática relacionada às mulheres e à tecnologia. Portanto, o movimento ciberfeminista tem, em sua base, a cooperação entre mulher, máquina e novas tecnologias, objetivando a liberação da mulher de tradicionais injustiças e assimetrias de valores e poderes em que vivem. Em síntese, o computador seria uma espécie de epicentro de ações visando a mudanças no mundo globalizado, a atividades alternativas através da necessária fusão entre tecnologia e cultura, na tentativa de eliminação de poderes centralizados, hierarquizados e androcêntricos, em favor de comunicações também mais horizontais, possíveis pela liberdade de informação4.

A outra gênese iniciou-se na cidade de Adelaide, na Austrália, através da ação conjunta de quatro artistas. Elas criaram um grupo experimental de trabalho – VNS Matrix – que tinha, aprioristicamente, um único objetivo: divertir-se com a arte na intersecção com a teoria feminista de cunho francês, produzindo textos enquanto obras de arte. O primeiro de uma série desses trabalhos foi produzido em homenagem a Haraway e ao seu conceito de ciborgue, exposto no texto intitulado Manifesto para o século XXI. As propostas prioritárias do grupo – e que foram seguidas por outras feministas em diversos países – eram não apenas explorar o ciberespaço como construção de espaço de sociabilidade, de identidades, subjetividades, e sexualidades, mas principalmente pesquisar as narrativas de dominação e controle na ambientação virtual.

O ciberfeminismo, dentro da conceituação proposta por Plant (1999), tem raízes nos primórdios da computação. Apesar da hegemonia masculina nestes redutos de trabalho e lazer, há dados que evidenciam que, em diversos países, mulheres têm estado presentes também nestes cenários digitais-computacionais e têm tido desempenhos considerados por seus pares como brilhantes, principalmente nos países desenvolvidos, como os EUA. Um exemplo é Ada Byron, mais conhecida como Ada Lovelace, filha única do poeta Lord Byron e da matemática Annabella. Viveram na Inglaterra, na época vitoriana, no século XIX. Ada trabalhou ativamente com o engenheiro Charles Babbage, em seu invento Engenho Analítico. Lovelace desenvolve a primeira programação de computador5 (PLANT, 1999).

Outro exemplo é a ação profissional desenvolvida por uma mulher que atuou na fase inicial dos Sistemas de Informação e de Comunicação, sistemas estes mediados pela tecnologia computacional: Grace Murray Hooper6 (1906 – 1992), PhD em Matemática e Física pela Universidade de Yale. Isto porque ela liderou equipes no campo dos conceitos de desenvolvimento de softwares e contribuiu para a transição de técnicas de programação primitivas, até utilização de sofisticados compiladores. Na década de 1940, participou da equipe que trabalhava com os computadores Mark I, II e III. Grace Murray Hooper também colaborou para a concepção e produção do UNIVAC I, o primeiro computador digital eletrônico de grande escala. Foi uma das principais responsáveis pela primeira linguagem de programação feita na década de 1950.

Num dia quente de verão de 1945, uma queda inexplicável no sistema de computação fez Grace Murray Hopper e sua equipe ficarem confusos e frustrados. Eles estavam construindo o computador Mark II, e uma das metas era calcular o ângulo de inclinação dos novos canhões anti-aéreos da marinha americana. Trabalhavam temporariamente em um prédio sem ar condicionado, estando, por causa do forte calor de verão, com todas as janelas abertas, na tentativa de arejar o quente e úmido ambiente. Não conseguiam entender uma razão aparente para a súbita parada da máquina. Finalmente, abriram-na e perceberam que havia uma mariposa dentro nela, exatamente sobre o circuito condutor. Claro que esta sofreu imediata combustão, o que interrompeu o funcionamento do circuito. Hopper removeu cuidadosamente o referido inseto (bug, em inglês) do Mark II e o colou com fita adesiva no seu livro de registros. E anotou ao lado dela: “primeiro caso real de mariposa encontrada”. Grace escreveu que a partir daquele dia ninguém mais iria consertar um computador, e sim “debugá-lo”. Portanto, foram creditados a ela os termos bug7 e debug para significar, respectivamente, quebras de sistemas de computação e como fixá-los. Desta maneira, bug passou a indicar qualquer problema de mal-funcionamento que ocorra com sistemas computacionais, tanto físicos (superaquecimento do processador, incompatibilidade de hardware, etc.) quanto lógicos (aplicativos mal-escritos)8.

Outro exemplo é Sarah Flannery. Em 1999, ela tinha 16 anos e recebeu o prêmio “Jovem Cientista do Ano” na Irlanda, pelo seu trabalho sobre criptografia na Internet. Esta é uma área considerada um reduto masculino por excelência, tanto que ela foi descrita em livro como “hacker de 16 anos” (The Hacker Ethic). Com 19 anos, era estudante na Universidade de Cambridge, EUA. Posteriormente, lançou um livro – In Code: A Mathematical Journey, escrito em conjunto com seu pai, contando sobre suas aventuras na área da matemática e da criptografia, incluindo, portanto, o ambiente digital. Ainda um outro ícone feminino neste universo tido como solidamente masculino é Jude Milhon, conceituada programadora de sistemas de informação, citada como uma das primeiras hackers9 femininas no livro de Steven Levy, Hackers: Heroes of the Computer Revolution, lançado em 1984 (NYTimes, 2001).

Como estes casos, poderiam ser aqui mencionados diversos outros acontecidos no exterior e também no Brasil10, envolvendo mulheres na área da produção dos sistemas de informação, a prestarem importantes colaborações, inclusive algumas premiadas por terem sido excelentes hackers, reduto que se tem como predominantemente masculino.

Plant (1999, pág. 135 e seguintes), em seu livro Mulher Digital, traça parte da trajetória profissional da mulher, focando o campo da tecnologia nos EUA. Informa que, à época tanto da I quanto da II Grande Guerra, as mulheres foram requisitadas para trabalharem com computação, não apenas nas tentativas de encontrar soluções para problemas balísticos, direcionados à elaboração de cálculos “das tabelas de disparo, destinadas a aperfeiçoar a sincronização e trajetória de mísseis, bombas e obuses”, mas também nas atividades de comunicações militares. Os artilheiros habituaram-se a consultar estas tabelas antes de apontarem e dispararem contra seus alvos. Muitas destas mulheres, que executaram estes trabalhos especializados foram, posteriormente, recrutadas com o objetivo de construir máquinas destinadas a executar este mesmo trabalho.

Além disso, havia mulheres trabalhando na construção do programa do Integrador e Computador Numérico Eletrônico (ENIAC), o primeiro computador eletrônico programável, usando sistemas binários de zero e um. Foi lançado em 1946. Havia, também, o “Colossus [que] surgiu do trabalho feito durante a I Grande Guerra, com o Enigma – que cifrava e decifrava mensagens – e das tarefas estreitamente correlatas de quebrar códigos cifrados em outras máquinas alemãs” (PLANT, 1999, pág. 136). Este tipo de trabalho acabou sendo revelado cerca de trinta anos após o término da guerra. A demora na revelação deveu-se ao fato de que esta tarefa era considerada de caráter ultra-secreto. Esta atividade dependeu do trabalho “de quase duas mil mulheres do Corpo Feminino Naval (...), várias estudantes de línguas das forças militares e “moças heróicas escolhidas a dedo, que ingressaram na Marinha (...)”11.

Ainda, segundo Plant (1999), os microchips e microprocessadores tornam-se cada vez mais onipresentes no dia-a-dia dos indivíduos, tornando os produtos sofisticadamente digitais, visto que são encontrados em prédios, estradas, refrigeradores, rádios, telefones, fax, teclados, seletores; e até mesmo em roupas e nas placas de identificação de animais domésticos.

Hoje em dia, a presença dos microprocessadores se amplia e é real também para a área do entretenimento, visto que, por exemplo, até os jogos computacionais tornam-se corriqueiros principalmente na faixa etária infanto-juvenil, mas também adulta. Nesse campo de atuação, há a artista digital ciberfeminista Anne-Marie Schleiner, designer e curadora da arte hacker, que tem revolucionado os jogos computacionais, com construções consideradas inusitadas, até então, ao criar seu projeto Mutation.Fem. Essa atividade, iniciada por brincadeira decorrente de seu cansaço ao verificar o sexismo machista nos jogos de computador, resulta em trabalho carregado de ideologia feminista. Isto porque, inconformada com ações dos EUA após o “11 de setembro”12, e muito mais com a ideologia xenófoba e fascista contida nos jogos de guerra (principalmente o Counter Strike) do que com a violência expressada e incentivada nesses jogos, ela cria um programa tal que permite às/aos jogadoras/es se infiltrarem nos jogos on-line e, ao invés de matar o maior número possível de inimigos, são instadas/os a inserir cartazes virtuais e/ou grafitar frases pacifistas, e a criar avatares13 femininos, incentivando a deposição de suas armas. Além disso, esta ciberfeminista cria o jogo Anime Noir, em que os personagens femininos são transgêneros, as/os quais, além de provocar mutação de sexo, ainda podem cruzar espécies. Ela tem como meta “associações estratégicas, contradições irônicas e posições livres de gênero”. E professa a democratização da cultura eletrônica, permitindo aos/às usuários/as que interfiram e modifiquem jogos e softwares. Um de seus projetos prioritários, o Opensorcery, explora e promove sistemas abertos, pois entende que a democratização na elaboração de softwares tem potencial para mudar o mundo, propiciando a diluição dos “limites rígidos de gênero, abrindo espaço para o cyberfeminismo e outras correntes tecno-culturais marginais, podendo mudar também a cyber-economia, transformando o comércio eletrônico numa economia de doações” (LEONEL, 2004).

O ciberfeminismo nos contextos laboratoriais de informática/computação no Sul e Sudeste do país

A partir da abordagem do ciberfeminismo adotada por Plant (1999), todas as entrevistadas na pesquisa ora em curso estariam a exercê-lo, mesmo que isentas de posturas de militância feminista, visto que suas atividades profissionais estão vinculadas, em graus variados de centralidade ou de periferia, com os espaços e mecanismos da cibercultura14. Elas trabalham com produção e desenvolvimento de processos, serviços, soluções e/ou artefatos envolvidos por sistemas e redes de computação, engenharias de softwares e hardwares. As entrevistadas15 apresentam o seguinte perfil: são brancas, faixa etária média de 27 anos, provêm da camada média da população; informam ter mais facilidade com a área das Ciências Exatas, motivo pelo qual graduaramse em cursos de engenharia, informática, ciências da computação e sistemas de informação; além disso, estão integradas em programas de mestrado; a renda delas provém, no geral, de bolsas de estudos e/ou verbas decorrentes de projetos de pesquisa nas próprias universidades em que estudam.

Dentre as falas das entrevistadas, opto por algumas, explicitadas a seguir, a exemplo de Cátia Luciana16. Ela trabalha em projeto que integra extensa rede interna da universidade onde desenvolve sua pesquisa de mestrado17. O objetivo é a interligação do Centro de Engenharia Biomédica com o Instituto do Coração de São Paulo, para aquisição de banco de dados e transmissão de imagens no formato apropriado, que é o padrão conhecido como Daycom. Este permite o armazenamento de informações e dados de imagens do paciente, para inclusive poder ser emitido laudo a distância. Trabalha-se numa rede também em software genérico e livre, para poder disponibilizar essa tecnologia para a população em geral, além de direcionálas a hospitais, clínicas, médicos, etc. Para controle de equipamentos e respectiva transmissão de imagens é preciso informação segura. Portanto, as redes18 estão sendo montadas em sistemas tipo redes virtuais privadas chamadas virtual private networks (VPN), que são protocolos específicos de criptografia de dados e, também, se necessário, colocação de hardware específico para embaralhamento das informações e desembaralhamento no local, exigindo rapidez.

Ela assim se posicionou:

Trabalho na Escola Paulista de Medicina. Estou trabalhando em um projeto de implementação de uma rede física, de fios e cabos e softwares, para transmissão de imagens médicas. Sou coordenadora de integração de todo o projeto [o qual] envolve uma série de processos de imagens. No caso, compactação da imagem e transmissão com formato e protocolo definidos internacionalmente. A meta final é o diagnóstico por imagem, desde ultra-som, raio X, ressonância magnética, tomografia computadorizada, até angiografia, etc. (Cátia Luciana, 40 anos).

A informante ainda entende que “a mulher tem uma perspectiva mais geral das necessidades e consegue propor soluções mais facilmente do que os homens. Na parte de funções repetitivas o homem se destaca. Esta é a minha visão” (Cátia Luciana, 40 anos).

Para se ter uma sensação de que Cátia Luciana19 é real e de “carne e osso” (MALINOWSKI, 1986), relato de modo sintético sua trajetória, na qual se mesclam os âmbitos pessoal e público – o que muitas vezes pode colocar os/as sujeitos da ação em momentos de “ambigüidade de sua posição [portanto] numa categoria anômala [às categorias] masculino/feminina” (CORRÊA, 1995, pág. 109) - no que diz respeito às suas escolhas dentro do seu “campo de possibilidades” dado (VELHO, 1999).

Isto porque Cátia Luciana cursava Medicina quando nasceram seus dois filhos: “um no segundo ano e outro no terceiro; e mesmo assim, eu terminei o quarto [ano]; no quinto e no sexto teriam plantões, que eles chamam de internato. Daí ficou inviável de eu estar freqüentando a faculdade com os dois pequenininhos ainda, um amamentando”. A dimensão pessoal de Cátia Luciana ficou em segundo plano em sua escolha por interromper o curso de Medicina, visto que opta pelo social/coletivo no que se refere à esfera doméstica; portanto, o lar e a opção de ficar com o marido e os filhos, situação só diferenciada mais tarde, quando pôde fazer outra faculdade. Portanto, ela coloca em evidência o recorrente problema das mulheres que têm filhos, casadas ou não, e não têm como atendê-los adequadamente com opções de babás devidamente preparadas para a função, ou creches, ou outras opções familiares. Com as opções alternativas, ela poderia, simultaneamente, atender não apenas o lar, mas também sua profissão. Essa defasagem na idade de mulheres nas áreas da ciência e da tecnologia é evidenciada em estudos e estatísticas de pesquisadoras que recorrem ao banco de dados do CNPq20.

Mais tarde, já com os filhos crescidos, volta a estudar, dessa vez, optando pelo curso Ciências da Computação, uma opção que, na época, considerou interessante, já que morava no interior de Minas Gerais, para onde havia se mudado. Seu mestrado21 contemplou, portanto, seus conhecimentos educacionais tanto da medicina quanto da computação. Ela diz: [Na Informática] vi coisas possíveis de serem implementadas e realizadas e de serem postas em soluções para o usuário mesmo. Então, essa parte me fascinou. E como a Informática é ligada hoje em dia a todas as áreas, e eu já tinha feito alguns anos de Medicina, eu vi a possibilidade de ligar as duas coisas.

Exponho, agora, sobre a entrevistada Anita22, que é solteira, estudou em colégio particular pertencente a uma fundação alemã e, desde criança, “gostava de ficar consertando coisinhas quebradas, liquidificador, rádios e, depois, gostei da Engenharia da Reabilitação no campo da biomedicina”. Após cursar Engenharia de Computação – quando adorou estudar “Engenharia Clínica”, ela inicialmente atuou como “trainee em duas empresas em áreas diferentes: Telecomunicações, na especificação de sistemas para controle de laboratório; e hidrelétrica”. Em seguida, através de sua pesquisa de mestrado, atua na primeira e principal rede virtual – a NOVEL – de certa universidade paulista, rede esta que gerencia sistema de ordens de serviço atendendo usuários das diversas áreas de saúde da universidade, a exemplo do Hospital das Clínicas, com cinco mil equipamentos, do Hospital do Centro de Apoio Integral à Saúde da Mulher (CAISM), com dois mil equipamentos, do gastrocentro, hemocentro, etc. No total, na área de Saúde da universidade existem aproximadamente dez mil equipamentos que são mantidos e gerenciados pela equipe técnica de engenheiros e técnicos do Centro de Engenharia Biomédica da universidade. Anita diz:

Trabalho com sistema de gerenciamento de manutenção de equipamentos médicos direcionados para setores da engenharia biomédica, que deve reunir informações dos equipamentos e das atuações de manutenção dos equipamentos não só dos hospitais dessa universidade, mas de toda a rede de hospitais do Estado Trabalho mais na especificação do sistema computacional, onde a gente “conversa e vê”, no próprio departamento, o fluxo dos encaminhamentos dados: como um equipamento chega até o hospital ou o grupo de manutenção, qual ação é tomada sobre o equipamento, quais as opções, os caminhos que uma ordem de serviço de um equipamento passa, até que o equipamento esteja pronto de volta para o usuário no hospital. Também, as partes de suprimentos, de especificação para a compra de equipamentos, aquisição de peças, são agregados do conserto do equipamento em si, que é o foco principal do sistema. Então, existe não só o controle do histórico do equipamento, mas o acompanhamento da ordem de serviço e do grupo de manutenção, que é muito raro nos sistemas que a gente compra comercialmente (Anita, 24 anos).

Outra entrevistada é Nataskyka, solteira, designer e produtora de softwares de entretenimento no segmento de jogos computacionais23. Não obstante seja uma representante feminina a adentrar um espaço que detém a hegemonia masculina, que são os games, ela tem certa limitação ao desenvolver seu trabalho, visto que, por exemplo, na concepção dos personagens femininos, sob sua responsabilidade, ela os constrói após estar concluída a série de personagens masculinos, aos quais ela deve adequar suas concepções criativas. Ela diz:

Na verdade, essa criação foi baseada em alguns critérios que a gente tinha sobre como deveriam ser, com movimentos pré-estabelecidos, baseados nos personagens masculinos previamente criados por outro integrante da equipe. Segui essas exigências e criei as personagens femininas e as animações, a exemplo de estudos de movimento, anatomia, comportamento, expressões; no caso da interface, estou estudando cores, ergonomia, interatividade. São elementos necessários para compor o site que vai pro jogo. Baseadas em coisas pré-definidas. Não fui eu quem defini. Eu apenas executei conforme me foi pedido. No momento, também estou fazendo a revisão da interface do jogo (Nataskyka, 21 anos).

Portanto, ela tem liberdade criativa parcial, visto que deveria compor personagens femininos a partir dos personagens masculinos, já criados. Não participou, portanto, da concepção total do jogo, a exemplo de personagens, situações, estratégias e ações. Também, ao produzir sua parte nos jogos, diz que “o público de jogos é, em sua predominância, masculino. Tem-se que pensar nesse aspecto. Apesar de que, quando se desenvolve personagem feminino, tenta-se adaptá-la tanto aos homens que gostam de jogar com as mulheres, quanto às mulheres que preferem personagem feminino, quanto também às várias mulheres que gostam de jogar com personagens masculinos.” A noção de diversidade está presente em seu pensar, embora ela reforce a predominância masculina enquanto público-alvo dos jogos.

Exponho a fala de Maria, noiva, que cursou o segundo grau técnico em Informática e, em seguida, Engenharia de Computação. Sempre gostou de programar e teve incentivos dos professores do curso. A maioria das disciplinas contemplava “muita matemática, muito cálculo avançado, até porque a gente lida com a parte de Telecomunicações”. Em seguida, Maria foi fazer especialização em redes porque queria se diferenciar do restante da turma. Ela diz: “Eu não queria ser programadora porque foi isso que a maioria da turma se tornou”. Ela trabalha em laboratório de computação de instituição pública de ensino universitário localizada no Sul do País:

Faço a página, cuido da rede e dou manutenção no laboratório do próprio programa de pós-graduação. Porque a gente acaba ficando também na Administração, já que ainda tem a página do programa e respectivos cursos e atividades. Tem que estar cuidando dos e-mails também, gerenciando tudo isso (Maria, 27 anos).

Em outra instituição educacional de grande porte, que além de hardwares produz também softwares educacionais dirigidos para o ensino primário, secundário e médio, localizada em Curitiba-PR, entrevisto Angélica Dutra. Ela é casada, tem um casal de filhos, formou-se em Pedagogia e Psicologia, além de Informática. Foi uma das primeiras mulheres contratadas na área da Educação para conceber e produzir softwares educacionais dirigidos da 1ª a 4ª séries. Diz ter noção de que foi aceita, na época, por ter o perfil de pedagoga (“tida como continuadora da educação maternal”), além do perfil técnico em computação. Descobriu, após algum tempo na empresa que, embora tivesse curso superior como os demais homens que integravam a equipe, na época, além de capacidade e habilidade para trabalhar igualmente comparáveis às deles e compatíveis com o perfil exigido para a função, ganhava três a quatro vezes a menos do que os programadores homens e três vezes menos do que os desenhistas da equipe, que eram todos das áreas da Informática e de Desenho.

Angélica informa, ainda, sobre outra situação relacional de gênero ocorrida nessa instituição de ensino, onde é ressaltado o “cuidado extraordinário e meticuloso da mulher” no trabalho com produtos e artefatos de produtos. Ela diz que o setor exclusivo de programação geral, onde trabalha, é formado só por homens, com exceção de apenas duas mulheres (além dela) contratadas para fazerem os testes, ou seja, apenas testam para ver se os programas não contêm erros. Isto porque as mulheres seriam consideradas “mais atentas” do que os homens; é uma função que nada exige delas em termos de criatividade ou de concepção dos programas em si. Angélica, ainda uma vez, reforça este fato:

fazerem testes. Depois que o software já está desenvolvido e pronto, é só fazer o teste; entrando no programa, teclando nos botõezinhos, clicando e vendo se tudo funciona. Quer dizer que não é uma atividade de produção. Você só vai testar. E supostamente a mulher presta mais atenção nos detalhes, etc. É bem direcionado (Angélica Dutra).

Em instituto de pesquisa na área tecnológica, localizado em universidade pública paulista, entrevistei Márcia24, formada em Física na Universidade de São Paulo (USP). Com isso, pôs por terra o “sonho da mãe” que era vê-la graduada em “Direito ou Letras”. Ela é divorciada e tem um filho na pré-adolescência. Trabalha na Divisão de Informática e Telecomunicações, após estagiar no grupo de computação da Física. Atua com produção de softwares institucionais e, mais recentemente, educacionais, com redes de ensino estadual e municipal da capital paulista. Gosta muito do que faz, é docente em universidade particular nessa área de estudo e tem diversos estagiários sob sua responsabilidade. Enfatiza que quando faz pedidos para estágio, recebe propostas e currículos apenas de rapazes e não de moças25.

Poderia continuar a expor os depoimentos dessas mulheres. Porém, por limitação de espaço, entendo que as exposições feitas são suficientes para evidenciar o adentramento e a penetrabilidade das mulheres nos contextos laboratoriais/computacionais ora em foco. Considerações Finais Nesses contextos contemporâneos de trabalho, as mulheres, embora sua parcial visibilidade, dão vazão a expressões do ciberfeminismo, a partir da conceituação de Plant; não obstante, ressalto ainda uma vez, elas não

Na área da Programação, as mulheres foram contratadas, pelo menos no Departamento que eu trabalhava, sempre para têm preocupações em mente, nem com o movimento feminista e muito menos com o ciberfeminismo e respectivas militâncias. Todas as mulheres entrevistadas por mim durante a execução dessa pesquisa têm histórias específicas para contar sobre suas trajetórias pessoais na mescla com as trajetórias profissionais. Mas, têm em comum um diversificado leque de atividades vinculadas à área das Ciências Exatas e, mais especificamente com a Informática, as Engenharias e a Computação.

Porém, deixando a ingenuidade de lado, há que se reconhecer que ainda é tímida a entrada das mulheres nesses contextos tidos até então como hegemonicamente masculinos, tanto: em termos numéricos, quanto de desigualdades funcionais e salariais; quanto, ainda, da respectiva conscientização sobre assuntos relacionais de gênero, também por não ser, segundo elas próprias dizem, assunto de suas preocupações. Então, esse adentramento ainda está permeado de limitações, como a explicitada pela profissional que produz avatares femininos para jogos computacionais, ou daquelas contratadas para atuar no departamento de produção de softwares, mas que executam apenas testes em produtos já concebidos, produzidos e finalizados por homens; ou por estarem submetidas a condições salariais de inferioridade, embora tenham qualificações similares às de seus colegas de profissão.

Mesmo admitindo esse fosso nas conquistas – que devem ser mais abrangentes – a serem obtidas pelas mulheres, ainda assim, retomando a epígrafe desse texto, penso diferentemente de Rosi Braidotti. Isso porque não creio que as novas fronteiras, propiciadas pelas recentes tecnologias da informação e da comunicação direcionadoras a uma sociedade cada vez mais interligada por redes computacionais de trabalho e de lazer, colaborariam para alargar o distanciamento entre homens e mulheres no que respeita as situações igualitárias no viver pessoal e profissional. Tenho uma visão mais promissora e mais otimista do que Braidotti, tendo em vista as evidências de que as mulheres já iniciaram a ocupação desses espaços informacionais/ computacionais. A situação de rupturas ao status quo vigente já foi iniciada, em número mais significativo do que uma ou outra que, no passado recente, era caracterizada como a exceção que confirmava a regra. Talvez estejam faltando ações que impulsionem com mais rapidez e intensidade essas situações mais igualitárias, ações essas que podem ser mais incentivadas por políticas públicas que direcionem a uma maior conscientização (visando à formação de massa crítica) sobre as relações de gênero. Ações que devem ser feitas em cadeia, ininterruptas. Ainda há muito a conquistar se as mulheres quiserem perseguir a igualdade de gênero, principalmente quando há entendimento de que mesmo que se tenha acesso a condições de igualdade, isto não é garantia de acesso a condições de identidade de gênero.

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HARAWAY. Donna Jeanne. Modest_Witness@Second_Millennium. FemaleMan_Meets_OncoMouseTM: Feminism and Technoscience. New York: Routledge, 1997. LEONEL, Vange. GameGrrrl. Anne-Marie Schleiner é a cyberfeminista que está revolucionando os jogos de computador. Mix Brasil. Disponível em: <http://www.mixbrasil.com.br>. Acesso em: 20 ago 2004.

MALINOWSKI, Bronislaw. Malinowski. São Paulo: Ática, 1986.

PLANT, Sadie. Mulher digital: O feminino e as novas tecnologias. Tradução de Ruy Jungmann. Rio de Janeiro: Record/Rosa dos Tempos, 1999.

STOFENMACHER, Ileana. Ciberfeminismo: La Feminización de la Red. Disponível em: <http://teknokultura.rrp.upr.edu/volumenes_anteriores/Backup/rev_31_01_05/volumenes%20anteriores/teknosphera/ ciberfeminismo/ciberfeminismo2.htm>. Acesso em 31 jun 2005.

VELHO, Gilberto. Projeto, emoção e orientação em sociedades complexas. In: Individualismo e cultura: Notas para uma antropologia da sociedade contemporânea. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

 

 
Notas

1
Pesquisa iniciada em 2002, ainda em execução.

2
Há outros textos em construção, evidenciando discriminações e preconceitos denunciadores de posturas androcêntricas ainda vigentes. Um deles foi apresentado no Encontro Internacional Fazendo Gênero VII, ocorrido em Florianópolis-SC, de 28 a 30 de agosto de 2006.

3
Haraway conceitua tecnociência como não distinção entre “ciência e tecnologia tanto quanto entre natureza e sociedade, sujeitos e objetos, natural e artificial que estruturaram o tempo imaginário chamado modernidade” (1997, pág. 3). Para Haraway, as relações sociais, também entendidas nos contextos da contemporaneidade, como alianças sociotécnicas, integram diversidade e multiplicidade de temas da tecnociência no final do século 20. Dentre estes temas, pode-se citar assuntos vinculados a: necessidades militares, processos democráticos, investigações acadêmicas, desenvolvimento do comércio e da economia, acesso ao conhecimento e ao aprendizado, processos de padronização e globalização, além de saúde. No geral, tais alianças sociotécnicas permanecem atravessadas por relações assimétricas e estigmatizadas de gênero, raça e etnia, nas diferentes camadas sociais e geracionais.

4
Alerta-se, porém, que há correntes de pensadoras, a exemplo de Stofenmacher, que entendem o ciberfeminismo como movimento ainda em gestação, dado seu breve tempo em curso, menos de quinze (15) anos e, portanto, não se constituiria em uma teoria já fundamentada, e muito menos em uma corrente ideológica firmada, por insuficiência de bases sólidas. Além disso, na conceituação de Plant, não obstante ela própria seja militante do feminismo, não estaria atrelada a este conceito posicionamento de militância política feminista. Ressalto que nenhuma das minhas entrevistadas tinha qualquer preocupação com este movimento.

5
Naqueles tempos vigorava o sistema analógico e não digital, como nos dias atuais. 6 Artigo: A incrível Grace: A mãe do Cobol. Disponível em < http://www.interon.com.br > Acesso em 19 ago 2003. Além deste site, há diversos outros que contam a história de Grace Murray Hopper, a exemplo, também, do site disponivel em: <http://www.pbs.org/wgbh/aso/databank/entries/btmurr.html>. Acesso em 07 set 2004.

7
Na passagem para o ano 2000 ficou famosa a frase “o bug do milênio” para se referir a um erro programação computacional que resultaria em quebra global nos sistemas de informação e comunicação que interconectam as redes entre si e elas com a Internet.

8
Disponível em: <http://planeta.terra.com.br/informatica/dicinfo/atom.htm> Acesso em 08 set 2004.

9
Os artigos, no geral, usam a palavra hacker indistintamente. Hackers não são vistos/as como criminosos/as da computação, embora este seja o termo mais conhecido e mais associado a eles/ as. Trata-se de alguém que adora escrever códigos de programação e se diverte explorando os recantos e as aberturas da rede (Internet e outras redes privadas), visando à captura de vírus, que outros especialistas lançam nessas mesmas redes. Portanto, são entendidos no sentido original da palavra, isto é, entusiastas programadores/as de computação. O/A perigoso/a e mau/má invasor/a de sistemas é conhecido/a como cracker, que lança os famigerados vírus que infectam computadores do mundo todo.

10
No Brasil, uma das mais conceituadas hackers dentre os/as que estão envolvidos/as com a área é Sulamita Garcia, com quem troquei e-mails durante a fase inicial desta pesquisa (Diário de Campo, janeiro de 2003). Em algumas empresas nascentes de base tecnológica pude constatar sua notoriedade e respeitabilidade por parte dos pares, através de falas de homens que entrevistei (Diário de Campo, fevereiro de 2004).

11
No entanto, ressalta-se que há controvérsias quanto às abordagens de Plant, no sentido de que emergiram interpretações contrárias às que ela elabora, denunciando que as mulheres foram subutilizadas de modo geral, nessa época, mal-remuneradas e inclusive ocupando lugares de homens, que ficaram desempregados em massa; e que a autora levanta tais elementos de forma imprecisa e não lhes dando a devida relevância, embora esses elementos sejam considerados por correntes feministas como importantes para a análise de toda a situação sócio-cultural da época enfocada em seu livro.

12
O “11 de setembro” (do ano 2001) refere-se aos ataques terroristas aos EUA por parte de Al- Qaeda, organização, supostamente sob comando de Osama Bin Laden, como apregoa parte da imprensa, que divulga discurso do alto comando dos EUA. Nesse dia, dois aviões pilotados por membros da organização atingiram o World Trade Center (WTC), conhecido como “as torres gêmeas”, coração financeiro e simbólico de New York/EUA. Outro avião da mesma organização, nas mesmas horas, atingiu parte do Pentágono.

13
Avatares são personagens criados por jogadores/as no ambiente virtual.

14
cibercultura é um “neologismo que abrange os sistemas de técnicas, de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores, que se desenvolvem com o crescimento do ciberespaço. Este último sendo um novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores, incluindo a infra-estrutura material da comunicação digital, as informações on-line e os seres humanos que navegam e nutrem esse universo. (Castells, 1999). O termo ciberespaço foi cunhado por Gibson: (...) a consensual hallucination experienced daily by billions (...) a graphic representation of data abstracted from the banks of every computer in the human system. Unthinkable complexity. Lines of light ranged in the non space of the mind, clusters and constellations of data (GIBSON, 1984, p. 51).

15
Foram entrevistadas, até o momento (maio de 2006), trinta e nove mulheres que atuam com sistemas e redes computacionais nos contextos especificados nesse texto.

16
Os nomes explicitados neste texto foram trocados, embora nada há que possa desabonar as informantes caso sejam identificadas.

17
Ela estava em fase final da escrita de sua dissertação na época da entrevista: julho de 2003.

18
As informações sobre as redes computacionais foram prestadas a mim não só pelas entrevistadas, mas também por professores que orientam seus projetos de pesquisa.

19
A entrevista foi feita em restaurante da capital de São Paulo, em agosto de 2003, momento em que coincidiu de ambas – pesquisada e pesquisadora – estarem em trânsito por essa cidade, visto que moram em cidades e Estados diferentes.

20
Esta situação de defasagem foi um dos temas debatidos no Encontro Nacional de Núcleos e Grupos de Pesquisa “Pensando Gênero e Ciências”, promovido pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, Ministério da Ciência e Tecnologia e Ministério da Educação, ocorrido em Brasília, de 29 a 31 de março de 2006.

21
Ela defendeu a dissertação de mestrado sobre redes computacionais no Centro de Engenharia Biomédica, em universidade pública paulista, no final de 2003.

22
À época da entrevista, ocorrida em seu campo de atuação laboratorial, em universidade pública paulista, em agosto de 2003, ela era mestranda no Centro de Engenharia Biomédica, e trabalhava com redes de computação.

23
A entrevista ocorreu em fevereiro de 2004, em seu local de trabalho, em empresa nascente de base tecnológica localizada no sul do País. Esta empresa, como todas as demais onde estive e entrevistei as mulheres especificadas, desenvolve projetos advindos e/ou nascidos no seio de universidades, sempre em parceria.

24
Márcia é mestra em Engenharia de Software pela USP. Especializou-se em Engenharia de Sistemas. Proferiu palestra (contando sua experiência profissional) no curso Ciência e Tecnologia: Têm Masculino e Feminino? ministrado na USP e montado por Regina Festa, representante da América Latina na Cátedra da Mulher na Unesco. A entrevista ocorreu em seu local de trabalho, em janeiro de 2004.

25
Este é um outro ponto que tenho explorado em minha tese de doutorado.

 

 

*Mestre em Tecnologia pelo Programa de Pós Graduação em Tecnologia (PPGTE) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e doutora em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pesquisadora Colaboradora no Instituto de Estudos de Gênero (IEG/UFSC) e Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Relações de Gênero e Tecnologia do PPGTE (GeTec/UTFPR). (cristinarocha@cfh.ufsc.br)
Engenheira & Gerente: desafios enfrentados por mulheres em posições de comando na área tecnológica
Engineer and manager: challenges to women in managerial positions in technological areas
Maria Rosa Lombardi*
 

Resumo

Baseando-se em entrevistas com engenheiras que desempenharam, em algum momento de suas trajetórias profissionais, funções de alta gerência ou diretoria, o artigo discute alguns dos obstáculos encontrados por essas profissionais no seu processo de inserção e progressão naqueles postos de comando. Identifica, ainda, alguns diferenciais de gênero a que estiveram sujeitas aquelas engenheiras nesse percurso, a começar pela maior dificuldade em assumir essas funções. Ainda, algumas delas tiveram que ser suficientemente criativas e hábeis para lidar com situações de conflito explícito com os engenheiros subordinados, a fim de permanecer no comando da equipe masculina.

Palavras-chave: Mulheres em postos de comando; engenheiras; carreiras femininas na área tecnológica.

Abstract

Based on interviews with female engineers who at some point of their careers worked in leading management positions, this article discusses some of the difficulties found by these professionals in reaching and making progress trough these managerial positions. The study identifies some gender related difficulties they faced in entering the management career and the creative and skilled ways they found to deal with conflict situations with subordinate engineers, in order to remain in control of male working teams.

Keywords: women in chief management positions; female engineers; women careers in technological area.

1. Introdução

A maior presença de mulheres engenheiras hoje, comparativamente há trinta e cinco anos atrás, tem alterado os contornos da divisão sexual do trabalho na Engenharia brasileira, na direção do aumento da participação feminina em um maior número de especialidades, áreas de trabalho e atividades profissionais. No entanto, diversos estudos indicam a persistência de várias ordens de impedimentos ao maior ingresso das mulheres na profissão, bem como à sua progressão nas carreiras. Uma das razões, sempre invocadas quando se trata de procurar entender o limitado interesse das mulheres pela Engenharia, remete às suas origens militares, ao exercício de funções de comando, às duras condições de trabalho (Wajcman, 1996; Terra da Silva, 1992; Silva Telles, 1984; Marry, 2002). Outra, lembra que o maior poder de abstração (e matemática e a física) é associado ao masculino, enquanto a química evocaria o gosto pela experimentação e pelo concreto, associado ao feminino e às qualidades da paciência, observação e intuição, remetendo a questão à esfera das representações sociais e de gênero das disciplinas e das especialidades da engenharia (Marry, 2002). Outra ainda, identificará como razões da exclusão, conflitos e dificuldades de adaptação das mulheres em culturas profissionais masculinas (Faulkner, 2005). No nosso ponto de vista, não menos desprezível para manter a sub-representação das mulheres na Engenharia é a existência de discriminação de gênero nos ambientes de trabalho, que se manifesta de variadas formas. No exercício profissional, por exemplo, na medida em que se atribuem às mulheres determinadas áreas de trabalho e certas atividades profissionais, em detrimento de outras. Mas talvez, uma das maiores barreiras encontradas pelas engenheiras em suas carreiras seja ascender a postos de comando nas organizações. Essa limitação ascensional, é verdade, se verifica para as trabalhadoras, de uma forma geral. Mesmo que as mulheres venham assumindo cargos de responsabilidade na gerência e na diretoria das empresas, é rara sua presença no topo da hierarquia empresarial, processo designado “teto de vidro” (Laufer e Fouquet, 1997; Bruschini, 2004). Parte desses obstáculos se inscreve na própria condição feminina, como é entendida e vivida na nossa sociedade, que atribui à mulher a quase integral responsabilidade pelo cuidado da família e dos filhos. Outros obstáculos provêm da própria empresa e dos comportamentos esperados por parte de quem pretende ascender na hierarquia, qual seja, seguir o modelo masculino de disponibilidade de tempo e dedicação exclusiva à carreira. Outro impedimento residiria numa certa resistência feminina para enfrentar a competição profissional e para assumir o desafio da direção de equipes.

O artigo pretende discutir essas questões, analisando-as sob o ponto de vista das relações sociais de sexo, ou relações de gênero. Para tanto, recorreu-se às vivências de engenheiras e engenheiros que desempenharam, em algum momento de suas trajetórias profissionais, funções de alta gerência ou diretoria1 e, a partir delas, pretende-se iluminar alguns diferenciais de gênero identificados no processo de inserção e progressão dos(as) profissionais, naquelas posições hierárquicas.

2. Gerência no feminino e no masculino: diferenciais de gênero e dificuldades encontradas

A grande maioria dos (as) engenheiros(as) entrevistados(as) assumiram algum cargo de comando em suas trajetórias profissionais, desde, no mínimo, “responsável” por um serviço ou área, até diretor, superintendente.

Mesmo que o número de engenheiros do sexo masculino entrevistados tenha sido pequeno (sete em trinta e três entrevistados), de uma forma geral, nos relatos dos homens praticamente não houve menções a eventuais barreiras ou dificuldades para ascender a postos de comando, passando a impressão de que esse percurso era esperado por eles e por seus empregadores, portanto, correu “normal”. Como afirma Fortino (2002), o padrão de ascensão masculino, diferentemente do feminino, tende a se dar de forma linear, com os profissionais escalando paulatinamente sucessivos postos na hierarquia. Esse processo costuma acontecer por cooptação; seus pares os convidam para assumir sucessivos postos de comando, trajetória considerada “natural” para um homem.

De fato, três dos engenheiros entrevistados , Lauro, engenheiro civil (56 anos), Francisco, engenheiro mecânico e sindicalista (45 anos) e Marcos, engenheiro de produção (46 anos), explicitaram a presença dos seus pares na sua trajetória profissional, convidando-os a se integrarem a grupos de especialistas ou a assumirem cargos de responsabilidade em empresas.

Marcos, atualmente diretor-geral de empresa multinacional da área de softwares de logística, conta com naturalidade como, no decorrer de sua carreira, foi se especializando e sendo reconhecido como um expert na sua área, foi sendo convidado para assumir posições de destaque em várias empresas.

“Aí recebi um convite e, em fins de 1993, minha vida mudou de novo; fui para a W, empresa de softwares de gestão empresarial, (produtos) parecidos com os da empresa em que trabalhei antes... me convidaram para cuidar da área comercial e me nomearam gerente da empresa no Brasil...... em 1999 fui convidado para ser gerente da empresa Z, multinacional de consultoria especializada em softwares... como o responsável geral do Brasil....em 2003 recebi um novo convite de outra multinacional de softwares de logística que até então estava atuando na América Latina só através de revendedores e queria impulsionar negócios. Me convidaram para ser o responsável dessa empresa na AL..”

Também Francisco se refere a convites de colegas que lhe permitiram dar seqüência à trajetória de especialista na área de transporte coletivo eletrificado, atuando em grandes empresas públicas e privadas, na montagem de equipes de trolebus:

“ ...fui chamado para trabalhar na empresa M, sou oriundo do grupo do trolebus, na época em que a gestão começou a trazer a engenharia de manutenção para dentro da empresa, que não existia... entrei em 1984 para formar a equipe de trolebus....a gestão seguinte caçou todo o pessoal técnico.... mas um colega me convidou para montar a rede de trolebus que hoje é a EMTU-Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos...”

Lauro, hoje consultor especializado em engenharia rodoviária, fala de sua progressão profissional em instituição rodoviária, de forma muito lacônica, mencionando de passagem que lá chegou a diretor da área de engenharia. Talvez, por lhe parecer absolutamente óbvia essa progressão.

“Na época , o Brasil precisava de estradas, era a época do milagre econômico, e quando saí da escola (1971) surgiram uma porção de oportunidades de emprego e um amigo me chamou .... fui ser engenheiro auxiliar na construção da estrada Cuiabá a Campo Grande... fiquei lá um ano e meio, depois fui para Porto Velho para trabalhar num projeto, ... depois voltei para São Paulo porque minha família é daqui. Interessante como experiência profissional , cheguei a diretor, tudo”

Como também comenta Fortino (op.cit), de uma maneira geral, as carreiras femininas tendem a não ser lineares como as masculinas, apresentando longos períodos de estagnação e algumas arrancadas abruptas em direção a posições mais elevadas, sendo menos comum a menção da presença de um grupo de referência profissional, que lhes tenha convidado para integrá-lo como especialista ou para dirigir empresas. Em geral, nos seus relatos aparece a figura de uma pessoa excepcional, um homem que confiou nelas em um determinado momento da carreira e as indicou para um posto de comando na estrutura da empresa.

São em geral, eventos únicos e sem repetição nas suas carreiras. Embora também se trate de cooptação (e talvez por não ser comum nem contínuo), as mulheres tendem a encarar o processo de forma individualizada, como uma gentileza de um homem excepcional , especialmente dirigida a elas, pela qual serão sempre reconhecidas. Em sua ascensão hierárquica , porém, o que, certamente, há de recorrente é a necessidade permanente de prova das competências profissionais. E este é um diferencial de gênero, na medida em que os homens não precisam passar por essa prova constantemente.

No caso das entrevistadas, o padrão de ascensão hierárquica apresentou vários dos elementos citados pela autora mencionada. Como demonstram as histórias de Chantal e Rose, as engenheiras mais velhas da amostra, ambas com 55 anos, foi fundamental a presença de um homem, um profissional hierarquicamente superior que confiou nelas e lhes deu chances de progredir. Além disso, outros fatores intervieram para tornar a ascensão das entrevistadas mulheres mais fácil ou mais difícil: o fator geracional, a sua área ou campo de trabalho, a recusa das empresas em aceitar suas demandas, o seu interesse por esses postos e as interfaces da carreira com a vida conjugal e familiar.

O caso de Isabelle, engenheira de produção francesa, de 45 anos, é um exemplo de estratégia empresarial que coloca obstáculos à ascensão hierárquica, não valorizando na medida devida, um trabalho de assistência técnica especializada ao cliente. A empresa em que trabalha, de porte médio, é uma multinacional francesa do ramo químico que fabrica luvas profissionais de borracha. Lá, Isabelle montou o serviço de assistência técnica ao cliente, pelo qual era responsável. Suas funções exigiam competências técnicas específicas para discutir sobre problemas de alergia com médicos, conhecimentos de química e de operações químicas, legislação de segurança, saber explicar noções técnicas do produto, formar pessoas, explicando o produto para distribuidores e vendedores, diretamente, no mundo todo, escrever artigos informativos em revistas especializadas, falar várias línguas, ser, enfim, “muito polivalente”. Ela é muito reconhecida na área técnica na Europa e no mundo como expert em EPI - Equipamentos de Proteção Individual no trabalho e na sua empresa também. Mas, apesar de toda essa performance, que desenvolve praticamente sozinha, nas suas palavras, “sofro pelo não reconhecimento oficial do meu trabalho na empresa”, não conseguindo vê-lo suficientemente valorizado, a ponto de se transformar numa diretoria.

“Numa empresa como esta, há maiores perspectivas para uma mulher da área de finanças e marketing do que para uma mulher engenheira se tornar diretora. Quero transformar meu serviço numa diretoria, desagregá-lo do marketing, mas isso tem sido difícil. Acho que é porque sou mulher, pois os colegas homens em serviços similares em outras empresas já ascenderam a postos de diretoria. É frustrante porque todo o meu trabalho é considerado um “serviço” como outros, comercial, administrativo etc. O que fazer? Tenho tentado estruturar o trabalho com um conjunto de funcionários, sobretudo técnicos, mas não tem dado certo”

Chantal, engenheira de 55 anos, diretora de alto escalão do banco F, um grande banco privado francês, no qual trabalha há trinta anos, mostrase bastante consciente dos limites que a organização impôs a sua ascensão, quando comparada a dos seus contemporâneos do sexo masculino. Da mesma forma, entende que isso se deve muito a uma questão geracional, pois como primeira mulher diretora nesse banco, enfrentou uma resistência maior do que as engenheiras enfrentam hoje em dia.

“Quando entrei na empresa já entrei numa posição de gerência e no banco F há um sistema de promoção que vai da classe 5 a 8 e , em seguida, os níveis “fora de classificação”, destinados aos gerentes e diretores de alto escalão. Eu galguei até a classe 8 onde me deixaram por 12 anos sem promoção. Recentemente obtive meu “bastão de marechal”, significando que é o máximo que vou obter na hierarquia, dali será muito difícil passar. No ano passado fui reconhecida como “fora de classificação” e comecei a entrar na carreira dos gerentes de alto nível do banco, mas na base da escala dessa categoria e ainda não tive o aumento de salário correspondente. É uma promoção honorífica, não terei mais nada até a aposentadoria.... Durante toda minha carreira solicitei várias vezes transferência para setores operacionais como, p.ex., gerência de agência e também pedi para trabalhar no exterior, mas tudo foi negado. Sobretudo quando pedi transferência para o estrangeiro, me perguntaram: “e seu marido?”, respondi “ele vem comigo, não tem problema”, mas esse era um padrão muito diferente do aceito pelo banco para uma mulher.... Acho que é uma luta de poder dos homens e, como há poucas mulheres que poderiam promover outras mulheres na empresa, é preciso que os homens aceitem promover uma mulher. Tive muita sorte de encontrar um chefe que confiou em mim e me ajudou a progredir quando eu era jovem.... Enquanto fui a única mulher na direção me consideravam como uma secretária, ajudando os homens em problemas de logística... Mas o “teto de vidro” é real: os homens têm sempre a possibilidade de progredir na carreira e as mulheres param num certo patamar”.

Note-se que esta engenheira procurou ascender de várias formas na organização, seja pedindo transferência para áreas operacionais , ou ainda se dispondo a trabalhar no exterior, já que seu marido poderia acompanhála, mas esses padrões muito avançados para a época não correspondiam à visão do banco sobre os lugares mais adequados para as mulheres, ou seja, as áreas de logística, de suporte, de pesquisas e estudos e o território nacional . Então, enquanto seus colegas homens ascenderam para posições de alta gerência, ela foi excluída desse seleto grupo ficando sem promoção durante mais de uma década. Além disso, como ela mesma conta, enquanto foi a única mulher na sua posição na empresa, atribuíam-lhe tarefas de logística, apoiando, como uma secretária de altíssimo nível, o grupo de colegas homens.

2.1. O importante papel sócio-profissional dos “clubinhos” masculinos

Antonieta, 47 anos, engenheira de produção brasileira também trabalha num grande banco privado no Brasil e lá ocupa uma posição , na suas palavras, “de poucos”, comandando uma equipe de planejamento e controle com 20 homens; ela, contudo, se reconhece “numa posição abaixo da diretoria”. Da mesma maneira que Chantal, afirma haver diferença entre as carreiras dos homens e das mulheres no banco. Mas Antonieta vem refletindo muito sobre o que faz essa diferença e nos coloca seus pontos de vista: tanto do lado da organização , como do lado das mulheres há razões que conduziriam a uma diferença nas suas carreiras quando comparada às dos homens. Diferença que pode ser medida em termos de velocidade de ascensão e , também, em função de um posicionamento diferente frente ao trabalho. Antonieta constrói uma analogia com a época das cavernas, bastante criativa e interessante para resumir esse posicionamento diferente de homens e mulheres perante o trabalho: para o homem, o que importaria é delimitar seus territórios e cuidar que eles não sejam ameaçados e para a mulher, o trabalho seria como sua cria, que ela quer ver valorizada e para isso trabalha muito.

Analogias à parte, em sua experiência como gerente na área bancária, na qual construiu sua carreira profissional, esta engenheira reconhece a existência dos “clubinhos” masculinos que defendem as melhores posições hierárquicas para seus membros e não têm muita “predisposição para ouvir as mulheres, falam mais alto nas reuniões, então v. tem que brigar para falar”. A não ser que elas se façam ouvir, como uma colega sua que “entrou com os dois pés na porta de quem tinha que tomar a decisão de promovêla, hoje ela é diretora”. Antonieta pretende um posto na diretoria do banco e para isso está disposta a brigar por ele de forma mais explícita, mais masculina.

Como ela diz, “acho que daqui para a frente a coisa tem que ser mais na linguagem masculina... senão, se v. continuar trabalhando e não disser nada, prá que ( eles vão) arcar com esse ônus ?”

Amália, engenheira de minas, 53 anos, também se refere à sua maneira ao mesmo “clubinho” de homens, a partir de sua convivência com eles na sua área de trabalho, “um mundo masculino”. O “clubinho” enquanto espaço informal de trocas entre os engenheiros cobre também a importante função de fórum de discussão técnica, como detectou Mellström (1995) na pesquisa realizada em uma indústria automobilística sueca. Nos espaços de informalidade como os almoços, as pausas para café nos corredores do departamento de projetos, desenho e desenvolvimento daquela indústria muitas questões e problemas de trabalho que envolviam soluções técnicas e tecnológicas eram discutidas ao lado de assuntos não técnicos, esportes etc. Se uma engenheira é normalmente alijada da convivência nesses espaços masculinos, ela corre o risco de ser excluída da discussão técnica que acontece entre os seus pares. Amália explica porque é diferente ser mulher num grupo de homens, sobretudo se ela está em altos postos:

“Acho que em todos os lugares é sempre diferente ser mulher... o mundo masculino tem um conjunto de regras. Eu sinto mais nos primeiros contatos, depois, com o tempo, como sou muito brincalhona, falo bobagem, acabo deixando as pessoas mais à vontade. Mas num primeiro momento eles seguram a linguagem, não falam palavrão e como nos altos postos (a maioria) são homens, eles se permitem essas atividades... as mulheres quando estão em altos postos são seríssimas, elas não brincam, os homens brincam, falam dos hobbys, as mulheres estão sempre mais preocupadas nessa posição, que sempre é excepcional, ainda não está incorporada... então, não vou no mesmo banheiro, não torço para o mesmo time, faz diferença, não é a mesma coisa”.

Cláudia, engenheira civil e sindicalista de 48 anos, hoje no alto escalão de uma empresa da área de saneamento, revela um pouco mais sobre os mecanismos masculinos de cooptação que observou no seu percurso na empresa e avança, desvendando também o lado da mulheres. Segundo essa engenheira, em geral, a mulher prefere não se expor demais nas disputas por cargos, se preservando e, ao mesmo tempo se conformando com o fato de não ter altos cargos. Mas, na sua opinião é necessário que as mulheres lutem para chegar a esses cargos e usem todas as suas habilidades, com esse objetivo.

“Em alguns ambientes isso fica mais forte, p.ex., para pegar um cargo aqui hoje, v. tem que brigar muito.... as escolhas, é “naturalmente” uma ação entre amigos, puxam alguns colegas da turma, neguinho depois sai de noite e vai tomar seu chopinho.. constrói uma teia...é entre eles, um código meio masculino, acho que a mulher incomoda em algumas coisas. Principalmente neste meu mundo , da área da engenharia...., as mulheres são superprestativas, extremamente responsáveis, não deixam uma tarefa para trás, mas estão sempre disponíveis. Elas se conformam com algumas coisas, como não ter cargos, .....se tiverem que disputar abertamente, elas se recolhem um pouco... sem ter que se expor muito. Mas tem hora que a gente tem que se impor .......eu procuro sempre puxar as engenheiras ( para cargos de chefia), mas acho que elas são mais frágeis mesmo.....Agora, ...v. pode ser mulher e ajuntar um jeito mais combativo, senão ela fica sempre riscada de algumas posições. Informalmente, na maior parte das famílias, a mulher é quem manda, quem pilota. A questão é quando esse mundo formal vai se aproximar do informal... Acho que devíamos usar todas as nossas habilidades para pilotar processos e menos para servir processos”

2.2. A engenheira gerente e sua posição no grupo majoritariamente masculino.

Cláudia relembra comportamentos masculinos que a incomodaram na sua trajetória na empresa, como por exemplo, quando seu diretor lhe pediu _ e ela já era chefe de divisão_ “para recolher as xícaras de café” ou seus colegas pediam para “secretariar” a reunião, na qual ela era a única mulher. São indícios das concepções de gênero no mundo profissional, preconceitos profundamente arraigados, gerando comportamentos automáticos, ou como ela diz, que estão “no winchester” do homem. Nas suas palavras:

“... A gente tem os preconceitos de sempre, as mulheres loiras burras, as gostosas, as inteligentes feias, a gente tem que lutar. Mesmo aqui, no começo....hoje todo mundo já me conhece, é em mais fácil...O dia em que tomei posse na Associação dos Engenheiros da empresa (como presidente), estava todo mundo conversando, não tinha café, me pediram para passar um... era a única mulher. É ato falho mesmo. Como marido com computador, quando v. faz uma pergunta, ele começa com aquelas perguntas básicas: pôs na tomada? Apertou o on ? ... como se v. tivesse um chip faltando porque é mulher.”

Para Aurélia (engenheira civil e docente , 53 anos), contudo, esses atos falhos não seriam assim tão inocentes, mas uma forma de reafirmar a posição subordinada das mulheres no grupo , particularmente daquelas consideradas sérias concorrentes.

“Se tiver uma reunião de professores e tiver uma mulher, aquela vai ser escolhida para secretariar a reunião; agora, se for um cargo de comando, a mulher ‘e esquecida, ela tem que falar “eu quero” e assim mesmo , às vezes, eles dizem “não dá”. Então eu percebi essas coisas, mas eles sempre arranjam um jeito de falar que a pessoa é incompetente, por trás... eles falam muito por trás”

Outra questão lembrada por Cláudia é a maior disponibilidade que os cargos de alto escalão exigem tanto dos homens como das mulheres. E no caso delas, a família e os filhos continuam sendo um obstáculo à ascensão. Cláudia acredita que é necessário fazer escolhas e estar consciente delas; no “mundo executivo”, masculino por essência, estender o expediente até mais tarde ou viajar com certa freqüência são comportamentos esperados. “

Porque no fundo v. tem que fazer escolhas... o chefe fica até 9 horas, se eu tivesse que ir para casa, preparar jantar, cuidar de filho... é lógico que eu tenho minhas obrigações e eu procuro manter, não ser como eles, porque eu não quero ser um “ homem inteligente”. Hoje me permito pôr um vaso, algumas coisas de que eu gosto na minha mesa... v. está mais madura, né? Poder ser sutil, ter algumas habilidades femininas, acho que v. promove mais conversa, acho que isso foi um dos atributos pelos quais o atual chefe me pegou, ser mais criativa, saber lidar com pessoas...Mas vejo o perfil das mulheres que estão em altos cargos atualmente; não têm filhos... as mais novas acho que conseguirão fazer as mesmas coisas sem ter que abdicar de tudo isso”

Cláudia e outras engenheiras entrevistadas tocam num ponto importante, qual seja, sua capacidade “relacional” ou a sensibilidade e a habilidade para lidar com as pessoas , estabelecer relacionamentos com os subordinados e também sua criatividade, como pontos que foram relevantes, na sua promoção aos postos de gerência e diretoria. Habilidades femininas desejáveis para gerir os conflitos humanos nas equipes, indicadas atualmente por alguns consultores empresariais como uma das vantagens da gerência feminina, face à masculina.

Marina, 44 anos, engenheira eletrônica, consultora autônoma, compartilha dessa opinião quando afirma que numa determinada época de sua trajetória profissional, decidiu que se chegasse a postos de comando, chegaria “sendo mulher”, “expressando o que pensava, enquanto os homens calavam”, em suma, diferenciando-se do padrão, “agindo como uma mulher numa profissão que é a engenharia”. Também Beatriz (engenheira química de 45 anos), gerente do departamento de pesquisas de produtos em multinacional do ramo químico, considera que além das capacidades técnicas e da competência recorrentemente comprovada, sua habilidade nos relacionamentos e sua capacidade de conciliação contaram pontos para que ela assumisse postos de gerência na empresa, nos últimos doze anos. Mas esses atributos “relacionais”, que até então eram uma vantagem, transformaram-se em obstáculo à continuação da sua progressão hierárquica, à sua promoção a um posto na diretoria da empresa. Em outras, palavras, Beatriz passa a ser culpabilizada por conciliar “em excesso”. Segundo seu relato:

“Senti (dificuldades na ascensão na empresa) sim. Eu acho que as mulheres de forma geral têm que provar muito mais, todo dia, que elas conseguem matar dez leões. Eu senti isso algumas vezes, não só comigo, mas algumas vezes as mulheres eram preteridas na oportunidade de ascender e colocavam um homem. ... não sei, a gente tem que provar mais, mostrar mais, ser mais completa para merecer aquela posição. ... Agora, o fato de ser mulher e ter facilidades (por isso) aqui dentro, não são muitas. Acho que a mulher constrói mais relacionamentos, não é muito focada em hierarquia, é... mais da concordância. Isso é uma coisa que tem me prejudicado às vezes. Os homens acham que a gente deveria ser mais combativa, então às vezes eu ouço, “v. é muito da conciliação” e algumas vezes v. tem que ser mais brigona, assertiva. Talvez esse meu estilo, porque isso pode ser uma particularidade minha agregada ao fato de eu ser mulher, tenha me prejudicado. Talvez se fosse um homem mais conciliador não fôsse visto dessa maneira. Acho que isso tem me prejudicado, é uma coisa que me tem sido apontada como defeito, v. tem que ser mais assim ou assado... a gente é avaliada por homens, à luz do que é valor para os homens e não para as mulheres. ... acho que tem que ser criada uma nova mentalidade hoje nas empresas, tem muitas mulheres em cargos de chefia, executivas... essas mulheres têm outros valores. Então, acho que as organizações vão ter que se moldar, essas réguas foram aplicadas no passado, hoje em dia a régua é outra. A régua é outra e a gente continua medindo as pessoas com aquela mesma régua.”

Beatriz toca num outro ponto crucial: a empresa é um espaço público e masculino, em contraposição ao espaço privado e feminino, e será sob essa ótica de valores que se darão as avaliações de desempenho, dos homens e das mulheres que lá trabalham. Reproduzem-se assim, as imagens e as concepções sociais de gênero em todos os níveis da hierarquia, atribuindo atividades profissionais diferenciadas a cada um deles segundo aquelas concepções. Se a mulheres estão em cada vez maior número nas empresas de um modo geral e nos cargos de comando, em especial, o que suporia algumas mudanças naqueles padrões de valores, essas mudanças, até o momento, parecem não ter ocorrido . Como bem diz Beatriz, “a régua é outra, e a gente continua medindo as pessoas com aquela (antiga régua)”.

2.3. (Re)Definindo a gerência no feminino

Mas haveria um modo feminino de gerenciar, dirigir pessoas, diferente daquele masculino? As entrevistadas revelam a ambigüidade da situação em suas avaliações. Beatriz acredita que é possível chegar a uma fórmula mais feminina, baseada num relacionamento mais próximo com os subordinados, conhecendo-os melhor, mais suave enfim. Ela acredita nessa fórmula e a contrapõe ao estilo “duro e masculino” de chefiar:

“Eu acho que facilidade por ser mulher é justamente por esse relacionamento mais fácil. As mulheres falam de outros assuntos que não do trabalho; comparo o ambiente aqui com o do meu marido, que é engenheiro metalurgista, eminentemente masculino. ... ele não sabe da família dos outros, mal e mal sabem quantos filhos têm e aqui a gente é uma família. Acho que as mulheres promovem mais essa abertura.... existe uma diretora, a mais nova delas , é extremamente agressiva... já causou alguns problemas, a área dela é a que tem maior rotatividade porque as pessoas não agüentam.... na verdade eu acho que ela tem um estilo masculino, assumiu demais, talvez pelo fato de ser nova. Quando veio para o cargo de diretor, ela tinha 30 anos... acho que ela pensou que a maneira de se impor, porque todos os subordinados eram mais velhos que ela.. foi essa postura dura, muito masculina, aquele chefe que é um feitor, um capataz... se assustou com o poder, disse tenho que me impor, mas o respeito não se impõe, se conquista”.

Antonieta (47 anos, engenheira de produção, alta gerência de um banco comercial) também acredita que é possível tornar mais ameno o ambiente de trabalho, diminuindo a tensão e o estresse dos funcionários por meio de um bom relacionamento, mas concorda que as mulheres não “dulcificaram’ a gestão das empresas pela impossibilidade de “quebrar alguns paradigmas no trabalho”, ou em outras palavras, em função da própria organização do trabalho.

“No geral é muito tranqüilo (o relacionamento com os subordinados homens) ; acho que as mulheres não dulcificaram a gestão das empresas, realmente, é uma coisa difícil quebrar alguns paradigmas , o trabalho tem que ser feito, tem hora, v. tem prazos, não dá para amolecer, mas dá para conduzir isso de uma forma mais amena para as pessoas ...Consigo ser bem sucedida, as pessoas trabalham com um razoável conforto, (mesmo) com todo o estresse que tem a atividade. Mais humanamente”

Mirtes, engenheira química de 56 anos, hoje empresária do ramo têxtil, reafirma a importância de estabelecer um relacionamento mais humano do que os homens conseguiriam estabelecer com os subordinados, embora com limites e reafirma o desafio que significa assumir um posto de comando para uma mulher.

“Veja bem, ela (a engenheira) não tem que ser fria... A gente tem que ser mais humana do que os homens o são, mas v. tem que tomar cuidado para o outro lado não ultrapassar a área profissional porque às vezes tomam liberdades que não são necessárias. ...Hoje em dia, quando tem uma mulher num cargo importante, ela fala, não tem medo, é mais transparente, o homem é mais político. Esses (são) desafios para a gente...”

Os desafios que os postos de comando implicam são grandes e, para as mulheres ainda maiores, pois somente com a repetição da experiência elas podem encontrar um jeito próprio de comandar e sentir-se um pouco mais confortáveis nessas funções. Nesse sentido, a fala de Márcia, 50 anos, engenheira civil, atualmente chefe de um departamento em empresa de saneamento, é bastante esclarecedora.

“..(ser gerente)... v. lidar com pessoas com diferentes idades, culturas....... uma gerência depois da outra, venho tentando mudar...a forma de tratar as pessoas, a forma de conduzir a equipe, tentar administrar minha ansiedade sem descarregar na equipe.... eu tenho uma coisa....não sei conviver com as pessoas sem mostrar que tenho uma relação de carinho, não consigo manter a distância por ser gerente, ou estou lidando com a pessoa (inteira) ou não estou..... isso nem sempre é bem visto. Tem pessoas que acham que v. tem que manter uma certa disciplina, uma certa distância... uma coisa mais impessoal... para mim é impossível. ... acho que é a minha forma (de gerenciar)”

Pelos depoimentos acima, pode-se concluir que os gerentes, diretores e chefes de ambos os sexos de uma forma geral, não podem escapar dos tempos e prazos e da cobrança de resultados, enfim das pressões que a organização do trabalho lhes impõe e que eles transferem aos seus subordinados. Nesse sentido, os estilos de gerência feminina e masculina não se diferenciariam, como também detectou Wajcman (1998) em um survey realizado na Inglaterra. Essa pesquisa se desenvolveu junto a gerentes de alto escalão em empresas multinacionais que operavam em setores tecnológicos avançados como petróleo, química e serviços de computador e que haviam implementado políticas de igualdade de gênero. Na interpretação daquela autora, o fato dos estilos de gerência não diferirem segundo o sexo do gerente se deve ao fato que esses estilos são moldados mais pelas organizações do que pelas pessoas. Porque as normas de desempenho e de conduta para posições de gerência de alto nível permanecem masculinas, as mulheres que quiseram ocupá-las, tiveram que adotá-las.

O que parece possível, atualmente, para algumas mulheres em altos postos de comando, como afirmaram as entrevistadas, é um pequeno espaço de manobra para a construção de um ambiente de trabalho mais descontraído e mais humano. Saber, como diz Marlaine, engenheira topógrafa francesa de 40 anos, “integrar a cabeça e o coração”, “expondo seus sentimentos, mas levando os negócios de forma tão objetiva como os homens”. Essa questão tem sido recolocada em outros estudos, como o realizado por Bruschini (2004) com executivas brasileiras que trabalhavam em empresas de diferentes setores de atividade. Também entre uma parcela dessas mulheres emergiu uma compreensão da chefia feminina, segundo a qual não se desconsidera a racionalidade, a disciplina no trabalho e a cobrança de performance dos subordinados , mas se inclui a possibilidade de desenvolver um relacionamento mais caloroso e empático com a equipe, mais humanizado.

Então, para as mulheres gerentes e diretoras parece haver um duplo desafio: provar que são capazes de comandar equipes tão bem ou melhor que os homens e, também, dentro do estreita margem de manobra permitida pela organização do trabalho, encontrar um jeito próprio de gerenciar, que difira do proposto no modelo estabelecido. Em outras palavras, por se sentirem desconfortáveis como mulheres no desempenho daquelas funções tradicionalmente atribuídas aos homens, uma parte das gerentes e diretoras têm a oportunidade de, ao invés de negar a própria feminilidade, suprimindo-a, valorizá-la como marca da diferença. E, assim fazendo, elas estariam contribuindo para a reflexão coletiva sobre os modos de gerenciar em seus locais de trabalho (Laufer 1982).

2.4. Gerente engenheira, subordinados engenheiros: conflitos e desafios

Entre os desafios da chefia e da gerência, estão os conflitos que se estabelecem entre chefe e subordinados, potencializados no caso de uma engenheira que deve comandar um grupo de engenheiros homens. Marlaine, engenheira francesa da área de sistemas de informação, de 40 anos, relata os conflitos que se estabeleceram na sua primeira experiência de gerência. O dono da empresa convidou Marlaine, uma jovem que vinha da área de software para gerenciar uma equipe de cinco engenheiros, todos com mais de quinze anos de experiência e especializados em hardware. Resultado: um conflito que durou cinco anos e só teve um “final feliz” porque ela conseguiu encontrar um nicho de atuação que aliviava o grupo das questões “relacionais” com os clientes, dos problemas do pós-venda, não competindo com os subordinados na área técnica, conforme explica em seu relato:

“Anteriormente não havia uma instância de poder entre esses engenheiros e o dono da empresa. Foi o conflito total. Durante 5 anos eles resistiram à minha presença e aos poucos eu fui adquirindo força para reagir. O chefe me defendia , pois sabia que de alguma forma eu teria com o que contribuir para a empresa. E eu me dizia sempre que como mulher e engenheira tinha uma contribuição a dar. Os engenheiros me viam como competidora, querendo tomar o poder, e a saída que encontrei foi me aliar aos clientes. Fazia, então, um tampão entre o cliente e a equipe técnica, salvaguardando a equipe dos problemas do cliente. Quando eles perceberam que poderiam deixar comigo essa função, as coisas correram melhor. Eram serviços pós venda. Deixei a competência técnica aos homens e me desenvolvi como consultora do cliente, sua advogada perante a empresa, acompanhando-o em congressos, feiras etc. Acho que tive sucesso nessa estratégia pois assumi o serviço de atendimento aos clientes em vários países”

Situação parecida com aquela relatada por Luzimar, 52 anos, engenheira eletrônica brasileira, residente na França, onde trabalha em uma montadora de veículos francesa, ao assumir um cargo de chefe do serviço de engenharia, bastante cobiçado pelos colegas engenheiros, os quais passaram a ser seus subordinados:

“Assumi um cargo de chefe do serviço de engenharia, um cargo muito valorizado e conceituado. Eu era adjunta de uma diretora. Foi a primeira vez que tive que lidar com conflitos ligados ao cargo de gerência de grandes equipes (100 pessoas). Os conflitos vinham da parte de outros colegas que queriam o cargo e se consideravam melhor posicionados para assumi-lo. Era para ficar 6 anos no cargo, mas depois de 2 houve uma reestruturação total do serviço de engenharia, que desapareceu”.

Ciúme da boa performance, da competência técnica, competição pelo cargo ocupado, não aceitação da gerência feminina por parte dos colegas homens , todos esses ingredientes reaparecem nas experiências de Marina, engenheira eletrônica de 44 anos, hoje consultora autônoma, trabalhando para várias empresas nas quais, invariavelmente “trabalha muito”, empresas que a chamam para “resolver” um problema técnico ou gerencial. Abaixo, apresentamos trechos de seu depoimento.

“em 1996, na 1a experiência como gerente, numa empresa de multimídia, eram só homens, uns 4, depois chegou a 12....um pessoal da matemática, preguiçosos, acomodados, medrosos. ... fiquei até 1998. Saí porque estava trabalhando muito, mas teve uma época legal, eu era apresentada como diretora de engenharia...Mas depois acho que criou um ciúmes entre eu e o Ângelo, então tinha uma visão Marina e uma visão Ângelo (de trabalhar). Ângelo não era engenheiro, Marina era e eu estava organizando muita coisa... tinha um ciúmes .. o Ângelo se aliou com um menino engenheiro que queria subir muito rápido e deu corda para ele. Mas esse menino era um cara que queria muito ascender mas não tinha força suficiente....(numa outra vez) me convidaram para ser gerente como prestadora de serviços, dando notas fiscais; fiquei 3 meses porque a dona me disse que eu ia ser diretora geral e isso não aconteceu. Lá entrei num projeto para gerenciar, dar uma organizada e para isso tive que comprar umas brigas e tinha um homem lá que queria o meu cargo... armaram em grupo de homens para me derrubar e a dona me mandou embora. Achei ótimo”.

3. Considerações finais

Dentre todas as barreiras encontradas pelas engenheiras no exercício da sua profissão, talvez uma das maiores tenha sido assumir postos de comando. Essa dificuldade que atinge a maioria das mulheres, parece se potencializar no caso das engenheiras entrevistadas. Se a mulher ainda é a exceção na engenharia, daí decorre que a regra é encontrar equipes masculinas de profissionais.

Chefiar essas equipes, segundo os relatos analisados neste artigo, apresentou múltiplos desafios para algumas engenheiras, que, não raro, tiveram que ser suficientemente criativas e hábeis para lidar com situações de conflito explícito com os engenheiros subordinados.

O primeiro desafio diz respeito às possibilidades de as engenheiras chegarem aos cargos de comando, que são menores do que as dos seus colegas. Duas ordens de fatores parecem contribuir para a persistência dessa barreira ascensional. De um lado, parece se colocar o importante papel do grupo masculino de profissionais (o “clubinho”), mais numeroso e mais antigo na engenharia, o qual funcionaria como repositório de futuros gerentes e diretores das empresas , baseando-se em relações de confiança e solidariedade construídas no interior do grupo de homens, muitas vezes desde a escola, mas também no trabalho e, principalmente, fora dele, em encontros informais. Perante a inexistência de clubinhos no feminino, a ascensão das engenheiras tenderia a ser um processo de cooptação que depende de um chefe- geralmente um homem- que acredite e confie nelas, a ponto de lhes dar essa chance. Por outro lado, as mulheres apresentariam algumas resistências para assumir tais postos, seja porque não têm a disponibilidade de tempo e dedicação exigidas pelos cargos e pelas empresas, em razão da presença de família e de filhos, seja porque preferem se preservar a enfrentar a acirrada competição com os homens por esses cargos.

Um outro desafio residiria na necessidade da prova permanente da competência profissional, como maneira feminina de se auto afirmar perante o grupo de homens, sejam eles colegas, subordinados ou superiores, em ambiente profissionais majoritariamente masculinos, como a engenharia. Trata-se, portanto, de um diferencial de gênero, uma vez que a prova constante de capacidade não é exigida dos homens. Ainda, expostas a confrontos muitas vezes abertos com seus subordinados, as gerentes engenheiras ou diretoras tiveram que encontrar uma “brecha” para continuar no posto, de tal maneira que a convivência com os subordinados fosse possível. Em alguns casos, essa brecha significou abrir mão do exercício das atividades técnicas da engenharia em favor dos homens. Via de regra, essa acomodação se deu quando a gerente passou a se dedicar a atividades consideradas de cunho mais relacional, vistas como adequadas a uma engenheira. Deixando, portanto, a parte do trabalho considerada mais nobre- que envolve conhecimento e expertise técnica- para os homens.

O fato é que o comando feminino de maneira geral e, na área tecnológica em especial, é fato bastante recente nas organizações. Até o momento, ele requer, de um lado, a aceitação dos padrões masculinos de carreira esperados pelas empresas, por parte das mulheres que desejem desempenhá-lo e , de outro, a aceitação e a legitimação da autoridade feminina, por parte dos homens.. Após o primeiro impacto nesses postos, porém, as entrevistadas admitem que, se não é possível deixar de cobrar dos subordinados resultados e cumprimento de prazos, limites impostos pela própria organização do trabalho, a cujas exigências gerentes de ambos os sexos devem se submeter- é possível tornar o ambiente de trabalho mais agradável e amigável. E este tem sido apontado como um ponto a favor das mulheres, um diferencial de gênero na forma de gerenciar pessoas.

REFERÊNCIAS

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BRUSCHINI, Maria Cristina Aranha; PUPPIN, Andréa Brandão. Trabalho das mulheres executivas no Brasil no final do século XX. Cadernos de Pesquisa. Campinas, no. 121, v.34, jan/abr 2004. p. 105-138.

FAULKNER, W. Belonging and becoming: Gendered processes in engineering’, in Jacqueline Archibald, Judy Emms, Frances Brundy, Eva Turner (eds) The Gender Politics of ICT, Middlesex: Middlesex University Press, 15-26, 2005.

FORTINO, Sabine. La Mixité au travail. Paris: La Dispute, 2002 (Coll. Le genre du monde).

LAUFER, Jacqueline Huppert. La feminité neutralisée? Les femmes cadres dans l’entreprise. Paris: Flammarion, 1982.

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TERRA DA SILVA, Márcia. A engenheira, um estudo da divisão sexual do trabalho. Dissertação de Mestrado, Escola de Administração de Empresas de São Paulo-EAESP/Fundação Getúlio Vargas, São Paulo, 1992.

WAJCMAN, Judy. Feminism confronts technology. 2ª ed.. Pennsylvania: The Pennsylvania State University Press, 1996.

______. Managing like a man; women and men in corporate management. Pennsylvania: The Pennsylvania State University Press, 1998.

NOTAS

1
A pesquisa em questão, no Brasil e na França, entre 2003/2004. Foram realizadas 33 entrevistas pessoais com engenheiros (7) e engenheiras (26), alguns deles também sindicalistas e um, diretor de escola de engenharia. Na fase exploratória da pesquisa de campo, tivemos a oportunidade de realizar 8 entrevistas com engenheiras e sindicalistas francesas indicadas por diversas instituições, por ocasião de um estágio de doutorado. Essas entrevistas se deram a partir de indicações de diversas instituições, sem controle a priori de variáveis como sexo, idade, especialidade, situação profissional em que se encontrava no momento da entrevista. Objetivaram, basicamente, ouvir as engenheiras sobre suas carreiras, a profissão e suas mudanças recentes e testar roteiro de entrevista preliminar. Os resultados da fase exploratória foram bastante satisfatórios, ultrapassando esses objetivos inicialmente propostos. A partir da análise dos depoimentos recolhidos na França identificaram-se processos e padrões de relações de gênero no campo de trabalho da engenharia, os quais se repetiram e foram reafirmados pelos relatos dos entrevistados brasileiros de ambos os sexos, legitimando a inclusão das entrevistas da fase exploratória na amostra final. Como esclarecem Beaud e Weber (2003), se ao realizar entrevistas em profundidade não se pretende generalizar os achados para outras populações, a generalização é desejável e possível quando se abordam processos e relações, exatamente a intenção central deste estudo, qual seja, as relações de gênero na engenharia e sua evolução nas últimas três décadas. A pesquisa de campo no Brasil tomou como âmbito geográfico principal a Região Metropolitana de São Paulo; a amostra da pesquisa foi composta por indicações que partiram dos próprios entrevistados, iniciando-se o processo de “amostra intencional” a partir da primeira entrevista com uma engenheira. Na seleção da amostra procurou-se , dentro das possibilidades de uma amostra intencional, considerar os seguintes parâmetros: _a diversidade das especialidades da engenharia combinada à presença das mulheres nas especialidades, _ o fator geracional ( entrevistando engenheiros (as) formados(as) na graduação, nos anos 1970, 1980, 1990 e 2000) e, _diferentes vínculos de trabalho. Quatro questões principais orientaram de forma geral a pesquisa qualitativa : 1)Ser uma mulher e ser um homem numa escola de engenharia é a mesma coisa? E na empresa? ; 2) Quais são os espaços de estudo e de trabalho atribuídos às mulheres na engenharia? E aos homens?; 3)É possível identificar mudanças no trabalho das engenheiras e dos engenheiros nas últimas décadas? Em caso positivo, quais as principais? 4) Como as engenheiras vivem subjetivamente a sua condição de mulheres numa profissão tradicionalmente masculina? Elas identificam situações ou processos de discriminação de gênero em suas trajetórias profissionais?

 
*Mestre e doutora em Educação, área Ciências Sociais Aplicadas à Educação, pela Faculdade de Educação da UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas. Pesquisadora na Fundação Carlos Chagas, São Paulo. (mlombard@fcc.org.br)
RELAÇÕES DE GÊNERO ENTRE ALUNOS E ALUNAS EM UMA INSTITUIÇÃO DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA BRASILEIRA
Gender Relations among Female and Male Studentes at a Brazilian Institution of Technological Education
Marília Gomes de Carvalho*
Samara Feitosa**
Valter Cardoso da Silva***

Resumo

Este artigo apresenta os resultados de pesquisa desenvolvida pelo Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Relações de Gênero e Tecnologia (GeTec), do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia (PPGTE) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), com o objetivo de investigar as relações de gênero entre os estudantes de cursos da área tecnológica. Estes cursos possuem em sua maioria estudantes do sexo masculino e embora haja uma tendência a um aumento no número de estudantes mulheres, sua participação nesta área da formação universitária ainda é insignificante. A partir de estudos etnometodológicos buscou-se apreender como estes estudantes percebem as relações de gênero no curso e na profissão que escolheram. A análise destas representações revela que a igualdade de competência não implica em igualdade de oportunidades no mercado de trabalho. Os rapazes se consideram mais competentes para o trabalho técnico, devido a suas características de personalidade como a objetividade e assertividade, vistas por eles como essenciais para o sucesso profissional na área. As alunas acreditam que o maior prestígio e sucesso masculino no mercado está relacionado a condições históricas que marcaram os papéis de gênero na sociedade e que, apesar de estar em transformação, ainda não se refletiram neste campo. Portanto as representações sobre o tema oscilam entre manifestações tradicionais – marcadas por relações de poder desiguais - e as transformações que estão ocorrendo em direção à igualdade entre homens e mulheres. Este processo de mudança é acompanhado por ambigüidades que permeiam o discurso dos informantes, pois suas opiniões dificilmente são unânimes e raramente sem contradições.

Palavras-chave: tecnologia, educação, gênero.

Abstract

This article presents the results of the research developed by Gender and Technology Relations Research and Study Group (GeTec) from the Parana Technological Federal University (UTFPR), Post Graduate Program in Technology (PPGTE), aiming to investigate the gender relation amongst students of the technological area. These courses in its majority consist of male students, though there are an increasing number of women, still their numbers are yet considered insignificant. Basing concepts on ethnic-methodological studies, students show the gender relation within the course and occupation chosen. The analysis of these representations reveals that equity of competency is not related to the market acceptance and opportunities for them. Men tend to consider themselves more qualified for a technical work, due to personal characteristics, such as objectivity and assertiveness, seen by them as essential for success in this specific professional area. Women believe more regard and success given to men in the field are from historical conditions that kept gender roles in society and that though in transformation still do not reflect in this field. Representatives have different opinions about the subject between the traditional manifestations – demonstrated by unequal relations in power – those transformations occur towards equity for men and women. The process is accompanied by the ambiguity of each representatives speech, for their opinions are rarely unanimous and without contradiction.

Keywords: technology, education, gender.

Parte 1

Este artigo apresenta os resultados de uma experiência de pesquisa que foi desenvolvida pelo Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Relações de Gênero e Tecnologia (GeTec) do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia (PPGTE), da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), com o objetivo de investigar as relações de gênero entre os estudantes de cursos da área tecnológica.

Sabe-se que estes cursos possuem em sua maioria estudantes do sexo masculino. Apesar de haver uma tendência a um aumento no número de estudantes mulheres, sua participação nesta área da formação universitária ainda é insignificante. Este dado não é característica apenas do Brasil, mas se repete em vários outros países, inclusive na Alemanha1.

A fim de conhecer como os estudantes e as estudantes dos cursos tecnológicos percebem as relações de gênero no curso que estão matriculados e também na profissão que escolheram, a partir de uma perspectiva intercultural, desenvolveu-se esta pesquisa preliminar no CEFET-PR, Brasil, e outra na Fachhochschule Furtwangen, Alemanha.

Antes de trazermos os resultados da investigação realizada no Brasil apresentamos uma síntese histórica da UTFPR , do PPGTE e, a seguir, do GeTec2.

A UTFPR foi fundada em 1909 com o nome de: “Escola de Aprendizes e Artífices do Paraná”3. A área de abrangência do ensino transformou-se gradativamente. No início, tratava-se de uma escola voltada ao atendimento de menores carentes, posteriormente adquiriu o perfil técnico profissionalizante (integrado ao hoje chamado ensino médio). Mais tarde surgiram os cursos de ensino superior, pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado), cursos de extensão, aperfeiçoamento, todos da área tecnológica; além de realizar pesquisas aplicadas na área industrial.

Atualmente, a UTFPR conta com aproximadamente 15.500 alunos em todos os seus níveis de ensino, 1.330 professores e um corpo de técnicos-administrativos composto de 539 pessoas.

A UTFPR é uma autarquia vinculada ao Ministério da Educação. Tem por finalidade formar e qualificar profissionais nos vários níveis e modalidades de ensino para os diversos setores da economia, bem como realizar pesquisa e desenvolvimento tecnológico de novos processos, produtos e serviços, em estreita articulação com os setores produtivos e a sociedade, fornecendo mecanismos para a educação continuada.

A UTFPR é considerada, hoje, um centro de referência do ensino tecnológico no Sul do País, objetivando “educar com padrão de excelência”, evoluindo permanentemente e adaptando-se às mudanças, às exigências e aos constantes avanços tecnológicos da atualidade.

O Programa de Pós-Graduação em Tecnologia4, PPGTE, nível de mestrado, teve seu primeiro processo de seleção em agosto de 1995 e constitui um dos três Programas de Pós-Graduação existentes hoje na UTFPR - Campus Curitiba.

Uma das dimensões que o PPGTE se preocupa em suas pesquisas é a que trata das Dimensões Socioculturais da Tecnologia. Busca entender como a tecnologia interfere na vida em sociedade provocando mudanças nas relações sociais e culturais, e também como estas relações criam a necessidade de desenvolvimento tecnológico.

O Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Relações de Gênero e Tecnologia (GeTec) está vinculado ao PPGTE. Graças ao caráter interdisciplinar deste Programa, os alunos ligados às suas linhas de pesquisa (a saber, Tecnologia e Trabalho, Tecnologia e Interação e Tecnologia e Desenvolvimento) podem encontrar no GeTec um espaço para o enriquecimento de seus estudos através da perspectiva de gênero.

Oficializado desde dezembro de 2000, este Grupo foi criado com os seguintes objetivos: viabilizar a discussão sobre as relações de gênero e tecnologia, através da promoção de encontros, palestras, reuniões, seminários, conferências e workshops; divulgar resultados das pesquisas e dos estudos desenvolvidos no âmbito do Grupo; estabelecer intercâmbio com outras instituições (públicas, privadas, nacionais, internacionais) interessadas na temática gênero e tecnologia; desenvolver um banco de dados constituído de estudos e pesquisas sobre gênero e tecnologia.

O GeTec vem se fortalecendo a cada ano, participando de eventos regionais, nacionais e internacionais; promovendo encontros e seminários; congressos, palestras; elaborando projetos de pesquisa e realizando sessão de projeção de filmes, com especialistas na área de Gênero e, inclusive, publicando livros e artigos dos/as seus/as pesquisadores/as5.

O início de uma parceria6

O Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Relações de Gênero e Tecnologia (GeTec) do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia (PPGTE) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) está realizando uma parceria com o TanGens-Technology and gender in applied sciences, com o intuito de realizar uma pesquisa que consiste na investigação sobre as relações e representações de gênero entre os alunos e alunas da UTFPR – Brasil e da Fachhochschule Furtwangen - Alemanha7.

O objetivo desta pesquisa seria o de conhecer as representações de gênero entre estudantes universitários da área tecnológica em seus respectivos países. Especificamente, pretende-se compreender como as representações sobre o que é ser homem ou ser mulher no curso e na profissão se manifestam entre os estudantes pesquisados.

A investigação foi realizada com grupos de homens e mulheres separadamente, no Brasil e na Alemanha, para que fosse possível mapear as representações de gênero que são construídas e que atravessam cada grupo e, assim, investigar como eles e elas se percebem em seu ambiente de estudo e de trabalho. Foram escolhidos cursos na UTFPR que fossem semelhantes aos cursos de FURTWANGEN para que a comparação fosse possível.

A pesquisa teria duas dimensões fundamentais: uma da cultura e outra das relações de gênero como mostra o modelo a seguir:

A dimensão cultural da pesquisa pode ser observada pelas setas verticais, o campo superior representa o Brasil e o inferior a Alemanha. Já as relações de gênero aparecem representadas pelas setas horizontais, sendo o campo da esquerda o lado feminino e o campo da direita o lado masculino. A comparação seria realizada em quatro níveis:

- entre mulheres brasileiras e mulheres alemãs;
- entre homens brasileiros e homens alemães;
- entre mulheres brasileiras e homens brasileiros, e
- entre mulheres alemãs e homens alemães.

O projeto teria como finalidade chegar a estas comparações através da análise das informações obtidas nas entrevistas com os alunos e alunas, das quais deveriam ser consideradas as diferenças de atitudes, as diferenças culturais, bem como os diversos valores e normas que permeiam a sociedade em que estão inseridos.

A fim de dar início aos trabalhos de investigação entre os estudantes brasileiros para uma posterior comparação com os resultados de pesquisas realizadas pelo TanGens na Alemanha, o GeTec realizou a pesquisa que será relatada a seguir.

A experiência brasileira

Discussões teóricas foram necessárias para fundamentar a realização desta pesquisa. Conceitos como cultura, habitus, e gênero são aqui apresentados para orientar o leitor sobre a base que norteou a investigação.

A cultura é um fenômeno social construído através de relações vividas em práticas cotidianas e experiências compartilhadas. As práticas culturais são fenômenos simbólicos, cujos significados são dados pelas pessoas que os vivem e compartilham. A partir da prática social as pessoas desenvolvem representações mentais que lhes dão as referências necessárias para suas ações e atitudes (GEERTZ, 1978).

Em outras palavras, os seres humanos, a fim de atenderem as suas mais variadas necessidades sejam de ordem material, espiritual ou valorativa, criam a cultura. Esta é fruto de uma série de vivências que se constroem coletivamente através de processos que são constituídos “(...) sob a direção de padrões culturais, sistemas de significados criados historicamente em termos dos quais damos forma, ordem, objetivo e direção às nossas vidas” (GEERTZ, 1978, 64).

Pierre Bourdieu salienta que a intersubjetividade é um dos elementos constitutivos da vida social, sob a qual a sociedade é construída, reproduzida e/ou modificada. Portanto, manifestações intersubjetivas devem ser também consideradas como elementos úteis de análise sociológica. É nesta dialética constante entre a objetividade e a subjetividade que as relações sociais se constroem e se modificam, sempre a partir de representações e referências mentais, que dão significado para as ações individuais. Isto porque

(...) dirige (no duplo sentido do termo) seus pensamentos e suas práticas, tal como uma força (...) mas sem o obrigar automaticamente (...); ela guia sua ação tal qual uma necessidade lógica (...), mas sem se impor [ao agente] como uma regra ou como o implacável veredicto lógico de uma espécie de cálculo racional. Essa força superior que pode fazê-lo aceitar como inevitáveis, ou óbvios, isto é, sem deliberação nem exame, atos que seriam vistos pelos outros como impossíveis ou impensáveis, é a transcendência social que nele tomou corpo e funciona como amor fati, amor do destino, inclinação corporal a realizar uma identidade constituída em essência social e assim transformada em destino (BOURDIEU,1999, p. 63).

A noção de habitus de Bourdieu reflete a interação que existe entre as manifestações da sociedade e as individuais. O habitus, portanto, é produto da sociedade e, como tal, organiza e estabelece parâmetros para a ação concreta que se realiza na medida em que é posto em prática pelos indivíduos (BOURDIEU, 1983).

Como parte da cultura, as relações e padrões de gênero estão diretamente imbricados nas práticas sociais, ao mesmo tempo em que são também referências para estas práticas. Portanto, para se compreender como são construídas as relações de gênero, as suas representações e os seus significados, é necessário considerar que elas são manifestações individuais que se pautam, no entanto na cultura, que é, por sua vez, produto da sociedade.

O gênero, então, fornece um meio de decodificar o significado e de compreender as complexas conexões entre várias formas de interação humana. Quando os/as historiadores/as buscam encontrar as maneiras pelas quais o conceito de gênero legitima e constrói as relações sociais, eles/as começam a compreender a natureza recíproca do gênero e da sociedade e as formas particulares e contextualmente específicas pelas quais a política constrói o gênero e o gênero constrói a política (SCOTT, 1995, p. 89).

Para Joan Scott, as análises sobre relações de gênero permitem interpretar também outras relações sociais que evidenciam especialmente relações de poder. Gênero passa a ser uma categoria histórica que pode ser utilizada para compreender como se estabelecem as relações sociais de dominação em uma dada sociedade (SCOTT, 1995).

A dicotomia que determina características opostas para homens e mulheres traz uma série de implicações para as relações de gênero que se manifestam de maneira desigual e possibilitam a dominação masculina. Uma das áreas em que se observa claramente esta desigualdade é a tecnológica. Esta é uma área vista como um universo masculino, em que as mulheres têm t ido pouca ou nenhuma participação. É uma representação que se formou ao longo da história da sociedade ocidental capitalista e que marcou as relações de gênero de forma a excluir as mulheres da produção e da apropriação do conhecimento tecnológico.

Sabe-se que a sociedade atual além de desigual é também culturalmente heterogênea, o que permite dizer que há vários modelos de masculinidade e feminilidade e também vários modelos de divisão sexual do trabalho. Por isso, se por um lado, a tecnologia tem sido interpretada como um universo masculino, por outro, este padrão está passando por um processo de transformação.

Este fato pode ser observado pela procura por cursos técnicos por um número cada vez maior de mulheres. Apesar de ainda serem minoria, elas estão presentes em número crescente nos cursos de tecnologia e engenharias da UTFPR, como mostra o quadro seguinte.


QUADRO I – Alunos matriculados nos Cursos das Engenharias e Tecnologias da UTFPR, por sexo8
Fonte: Divisão de Orçamento e Estatística da UTFPR.

Tendo em vista que as representações sobre relações de gênero são culturalmente construídas e que a sociedade em que se vive hoje é heterogênea do ponto de vista cultural, surge a indagação sobre quais seriam os modelos de relações de gênero que os jovens e as jovens que estão estudando hoje nos Cursos de Tecnologia do CEFET/PR possuem. Como eles e elas se percebem enquanto homens e/ou mulheres nos cursos que escolheram e em sua futura vida profissional?

Certamente suas representações sobre essa questão estão contidas num universo mais amplo do que as individuais, e seu desvendamento revelará como os grupos aos quais esses jovens pertencem e com os quais se identificam estão vivenciando e percebendo as relações de gênero.

Sobre o método9

Aproximar-se de uma realidade como a apresentada até aqui exige uma abordagem metodológica que dê conta da complexidade das situações vividas pelos sujeitos em seu cotidiano. Neste sentido consideram-se as contribuições de Karl Mannheim10 e dos teóricos da etnometodologia11 como valioso instrumento de coleta e interpretação de dados.

Com base nestes pressupostos teóricos e metodológicos e, tendo em vista os objetivos desta pesquisa, ou seja, investigar as relações de gênero entre os estudantes de cursos da área tecnológica, procurou-se então delimitar o universo a ser investigado.

Procedimentos metodológicos12

Procurando atender as premissas teóricas e metodológicas da proposta da pesquisa intercultural Brasil-Alemanha sob a perspectiva de gênero, realizaram-se, como primeiro passo metodológico, reuniões e encontros com o intuito de discutir a produção teórica e metodológica que fundamentaria a pesquisa13.

Para que esta pesquisa pudesse ser realizada, era necessário que o grupo pesquisado fosse homogêneo no maior número possível de variáveis, isto é, formado por estudantes (moças e rapazes) que vivenciassem disciplinas em conjunto, que fossem do mesmo curso, pertencentes à mesma faixa etária, enfim que tivessem compartilhado várias experiências e desenvolvido uma convivência mútua. A estes pequenos grupos denominouse peer groups.

O segundo passo foi selecionar, dentre os cursos ofertados pela UTFPR e outras instituições de ensino superior, aqueles que melhor se adequassem às características necessárias para a pesquisa. De início pensou-se na área de Engenharia, especificamente o curso de Engenharia da Computação, que mais se aproximava do curso em que foi realizada parte da pesquisa na Alemanha. Entretanto, a UTFPR não ofertava tal graduação, o que levou à sua procura em outros estabelecimentos de ensino superior.

Surgiu aí nova dificuldade, pois nas duas universidades onde há este Curso (Universidade Federal do Paraná e Pontifícia Universidade Católica do Paraná), os alunos são predominantemente rapazes. Este fato impossibilitou a realização do trabalho, uma vez que não havia número suficiente de mulheres para compor um peer-group.

Voltou-se então para a busca de outros cursos da UTFPR . O curso de Tecnologia em Informática também se enquadrava no perfil procurado, porém repetia-se a mesma situação anterior: não apresentava número suficiente de alunas. Diante destes obstáculos, a opção pelos cursos do Departamento Acadêmico de Desenho Industrial (Tecnologia em Desenho de Móveis e Tecnologia em Artes Gráficas) surgiu como a mais viável, uma vez que os mesmos envolviam conhecimentos e habilidades na área da estética, da criatividade, da utilização de multimeios, dentre outros. Embora o curso de Tecnologia em Desenho de Móveis tivesse maioria feminina e o de Artes Gráficas uma maioria masculina, grande parte da grade de disciplinas é feita em conjunto, criando a interação necessária para a composição dos peer-groups. Foram escolhidas duas turmas, compostas por 27 moças e 12 rapazes no período da noite e, outra, no período da manhã, composta por 8 rapazes e 14 moças. Foram esses os cursos selecionados para a realização das entrevistas, pois são os que mais de aproximam das características do curso de Mídia Digital onde foi realizada a pesquisa em Furtwangen.

Antes de iniciar a pesquisa de campo, decidiu-se testar a metodologia. O quarto passo metodológico foi a realização de uma pesquisa-piloto num colégio estadual da cidade de Curitiba. Escolheu-se uma turma que possuía um número equilibrado de moças e rapazes, que já estavam estudando juntos há tempo suficiente para a constituição de um peer-group.

Concluída a experiência-piloto, realizou-se uma reunião de avaliação com os pesquisadores. Considerou-se que a compreensão das características pessoais de cada participante tornaria mais fácil a interpretação dos resultados das entrevistas. Desenvolveu-se então uma ficha de caracterização a ser preenchida pelos entrevistados na qual constariam dados pessoais como idade, sexo, raça e etnia, origem rural ou urbana, nacionalidade, além de dados familiares (pai, mãe, filhos, profissão dos mesmos, renda) e dados profissionais.

O quinto passo da pesquisa constou dos encontros para a realização das entrevistas propriamente ditas que aconteceram no mês de dezembro de 2004. Participaram da mesma 48 alunos. Iniciou-se com a apresentação dos objetivos da pesquisa.

Separou-se em seguida os alunos de acordo com suas afinidades, formando quatro grupos, dois de moças e dois de rapazes. Os grupos foram encaminhados para salas separadas, nas quais seriam gravados os debates suscitados pela pergunta norteadora da pesquisa: o que é ser mulher no seu curso e em sua profissão? (pergunta direcionada para as mulheres) e o que é ser homem no seu curso e em sua profissão? (para os homens) Os grupos masculinos, compostos por 4 a 5 rapazes cada um, foram acompanhados por pesquisadores, enquanto os femininos, com 5 a 8 moças, por pesquisadoras. Tendo sido feita a pergunta da pesquisa, os pesquisadores/as não fizeram mais nenhuma interferência, limitando-se a gravar as discussões e a anotar os pontos considerados relevantes que poderiam ajudar na posterior transcrição e análise das entrevistas.

Para a interpretação dos resultados da pesquisa de campo foram feitas cerca de dez reuniões com todos os pesquisadores que dela participaram, a fim de se discutir a respeito das categorias que seriam destacadas no artigo, assim como seus conteúdos, tema a ser desenvolvido a seguir.

Parte 2

Caracterização dos informantes14

A caracterização dos informantes é importante para a pesquisa porque permite traçar um perfil a partir de seus dados pessoais e assim conhecer a que universo cultural e socioeconômico os entrevistados pertencem, tendo em vista que estamos trabalhando com o conceito de habitus em que informações dessa natureza são fundamentais.

A partir dos resultados dos questionários, pode-se dizer que o grupo de moças e rapazes entrevistados é constituído por jovens de origem urbana, com uma média de idade compreendida entre 20 e 23 anos, faixa etária prevista para alunos universitários no Brasil. A quase totalidade dos jovens é solteira, pois, dentre os 48 entrevistados, apenas duas alunas e um aluno são casados, o que também é característica da maioria dos estudantes universitários brasileiros.

O fato de termos praticamente 50% de alunos e alunas provenientes da rede pública de ensino médio descaracteriza os dados mais gerais dos estudantes universitários, aonde a maioria vem de escolas particulares. No caso do universo desta pesquisa, vê-se que 50% dos alunos que são provenientes da rede pública fizeram o curso médio no próprio CEFET-PR, instituição que se destaca frente à realidade do ensino público no País, a começar pela grande concorrência para o acesso à instituição, o que é feito por meio de um exame vestibular. Isto significa que estes alunos podem ser considerados parte de camadas médias urbanas em processo de ascensão social, o que se confirma se observarmos os dados relativos à ocupação profissional e grau de instrução de seus pais.

QUADRO II – Dados dos alunos entrevistados

QUADRO III – Dados das alunas entrevistadas

Praticamente a totalidade das alunas entrevistadas do Curso de Tecnologia em Desenho de Móveis é do sexo feminino, tendo em vista que dentre o total de 17 entrevistadas/os desse curso, encontramos apenas um rapaz. A maioria dos rapazes informantes está cursando Tecnologia em Artes Gráficas, onde encontramos um número mais equilibrado por sexo, ou seja, 12 moças e 19 rapazes. Portanto, dentre os 20 rapazes entrevistados temos 19 que estão cursando Tecnologia em Artes Gráficas, o que significa que as representações de gênero a partir da ótica masculina, que serão aqui apresentadas e analisadas, referem-se basicamente ao universo deste Curso. Para o universo feminino de um total de 28 moças, 12 estão cursando Tecnologia em Artes Gráficas e 16 estão no Curso de Tecnologia em Desenho de Móveis.

A atividade profissional dos informantes ocorre, em sua maioria, em estágios ou em atividades relacionadas ao curso que fazem. Pode-se dizer que grande parte deles está em período de treinamento. Dentre as moças podemos verificar que mais de 50% trabalha e são remuneradas, porém, dentre as funções ocupadas aponta-se alguns postos que, na maioria das vezes, são caracterizados como “funções femininas”, como secretária e professora, além de não haver nenhuma indicação de algum posto de comando ocupado pelas mulheres entrevistadas. Destacase a função de projetista para as alunas do curso de Tecnologia em Desenho de Móveis, sendo que, uma delas desempenha essa função como estagiária, sem remuneração.

Quanto aos rapazes, podemos observar que, embora nem todo o grupo trabalhe, todos os que trabalham, mesmo que seja como estagiários, são remunerados, fato que não ocorre com o grupo feminino.Também é entre o grupo masculino que encontramos uma função de comando – supervisor de diagramação – posto este ocupado pelo aluno mais velho do grupo entrevistado, o único com 31 anos de idade. Se estabelecermos uma comparação entre os dois grupos, poderemos observar que entre as mulheres, a mais velha, com 34 anos de idade e que já possui uma formação superior anterior, ocupa a função de estagiária. Para uma interpretação mais aprofundada deste fato seria necessária uma melhor contextualização; no entanto, se tomarmos como base os questionários preenchidos pelos alunos e alunas, teremos alguns indícios quanto às questões pertinentes às relações de gênero e à eqüidade no mercado de trabalho, fatores que serão esclarecidos a partir dos conteúdos das entrevistas.

QUADRO IV – Dados familiares dos alunos entrevistados

QUADRO V – Dados familiares das alunas entrevistadas

Os dados familiares são importantes, porque é na família que as pessoas recebem os primeiros padrões de sociabilidade e também os valores e regras de comportamento que quase sempre constituem referência para toda a vida. Com certeza os padrões de gênero estão incluídos nestas referências.

Quanto à origem dos pais e mães dos alunos e alunas entrevistados observa-se que há um número significativo de pessoas vindas da área rural, logo, podemos avaliar que os familiares dos entrevistados passaram pelo processo de migração, característica de muitos habitantes das áreas urbanas do País. A idade dos pais e mães está compreendida entre os 44 e 60 anos, sendo que, dentre as mães, apenas duas possuem mais de 60 anos. É interessante observar que em apenas 05 casos a mãe é mais velha do que o pai, e mesmo assim, é uma pequena diferença (não mais do que dois anos). Todos os outros pais são mais velhos do que as mães, o que revela que, com relação à idade do casal, essas famílias seguem o modelo tradicional, em que o marido é mais velho do que a mulher. Este fato pode levar a uma ascendência do pai sobre a mãe, que marca as relações familiares.

O grau de instrução dos pais e mães dos/as entrevistados/as também merece destaque, tendo em vista que quase 50 % possuem formação superior, ainda que haja um maior número de pais com esse nível de escolaridade. Também aqui se revela a superioridade dos pais em relação às mães, confirmando mais uma vez o modelo tradicional de família em que geralmente o marido, por ser considerado o responsável pelo sustento da família, possui formação escolar superior à da mulher. O número de pais e mães que estudaram somente até o ensino fundamental é menor do que os que concluíram o ensino médio.

Ao observarmos os dados que indicam a profissão ocupada por pais e mães, as informações apresentadas acima sobre os filhos, que apontavam para um grupo com condições socioeconômicas correspondentes às camadas médias altas, se confirmam. Médicos, engenheiros, administradores, empresários são algumas das profissões dos pais do grupo entrevistado. Todas as mães que possuem formação superior trabalham fora, como professoras universitárias, bancárias, gerente-administrativa, funcionáriaspúblicas. Sob este aspecto pode-se dizer que elas exercem uma influência de transformação quanto às relações de gênero da família tradicional aonde geralmente a mulher não exerce atividade profissional. No entanto, é neste item que também podemos observar como os papéis de gênero ainda interferem nas funções ocupadas por homens e mulheres no mercado de trabalho, pois entre as 48 mães indicadas, 13 constam como “do lar”, ou “dona-de-casa” inclusive as que têm o ensino médio completo.

Identificar a origem étnico-racial das pessoas no Brasil é uma tarefa complexa, diante da diversidade da formação da sociedade brasileira que possui inúmeras influências desde as das populações indígenas, até as dos povos africanos que vieram durante o período da escravidão, além dos europeus e asiáticos. Todos juntos contribuem para o caleidoscópio cultural que é nossa população, que se caracteriza cada vez mais pela mestiçagem e hibridização. No entanto, considerando as declarações dos/ as entrevistados/as, podemos observar a preponderância branca, cujas nacionalidades são majoritariamente provenientes de países europeus. Foi indicada somente uma mãe de origem afro-brasileira, e um pai e mãe pardo/a (mestiço/a de índio ou negro com branco). A origem indígena surge como uma das mesclas raciais dos familiares do grupo entrevistado. A origem étnico-racial é importante, porque tem íntima relação com características culturais que, por sua vez, influenciam os padrões de gênero de um determinado grupo. Certamente as representações sobre as relações de gênero que serão tratadas mais adiante têm forte influência das origens aqui apontadas pelos entrevistados.

Embora esses dados de caracterização não sejam a principal base para análise do grupo pesquisado, as informações provenientes dos questionários auxiliam a traçar um perfil geral do grupo, o que pode contribuir para a interpretação e leitura das percepções e considerações que emergiram nas entrevistas. Dessa forma, em uma primeira análise, podemos observar que se trata de um grupo seleto, se tomarmos como referência a realidade da maioria dos/as estudantes brasileiros/as. O fato de terem chegado a um curso de nível superior em uma instituição pública de difícil acesso, além de terem vindo, em sua maioria, de uma formação escolar da rede privada de ensino, revelam sua posição social. Outro indicativo de que os entrevistados pertencem às camadas sociais elevadas, se comparados com a maioria da população brasileira, é o fato de fazerem parte de famílias cujos pais e mães possuem uma trajetória de busca e valorização da educação superior. O número significativo de pais e mães com formação universitária, sendo a maioria profissionais liberais em exercício, também permite dizer que os informantes desta pesquisa pertencem a uma camada socioeconômica privilegiada da sociedade brasileira.

Resultados das entrevistas15

Neste item serão apresentadas as representações16 dos alunos e das alunas que participaram das entrevistas, tal como foram explicitadas por eles e elas. Num primeiro subitem, evitou-se fazer comentários sobre suas opiniões, procurando trazer ao leitor a idéia mais próxima possível de como os/as informantes se manifestaram, utilizando inclusive, em vários momentos, trechos de suas falas, a fim de transmitir as expressões utilizadas por eles. Este método de redação dos resultados da pesquisa qualitativa é importante porque os informantes muitas vezes dizem mais claramente o que pensam em expressões verbais e nas entrelinhas do que propriamente em respostas a perguntas formais.

As categorias retiradas das entrevistas para a organização da descrição e interpretação de seus resultados foram as seguintes: a) representações das alunas sobre as mulheres e os homens; b) representações dos alunos sobre os homens e as mulheres; c) representações dos alunos sobre as relações de gênero no curso e na profissão e d) representações das alunas sobre as relações de gênero no curso e na profissão.

No segundo subitem, apresenta-se a interpretação dos resultados encontrados.

a) Representações das alunas sobre as mulheres e os homens

Ao analisar as entrevistas das mulheres, observa-se que elas se vêem como mais sensíveis, frágeis, pacientes, delicadas, caprichosas, criativas e flexíveis que os homens.

Consideram-nas também preconceituosas, arrogantes, faladeiras, fofoqueiras e “chatinhas”. Percebem as mulheres como mais preocupadas, cuidadosas e detalhistas, fatores que contam como pontos positivos para que elas se desenvolvam dentro da profissão. A falta de força física foi um comentário recorrente nas entrevistas, e foi visto negativamente porque limita o desempenho das mulheres em determinadas funções e coloca-as em desvantagem em relação aos homens, “na hora de montar móveis talvez ser mulher dificulte um pouquinho na força física...”. Porém, outras comentaram que a falta de força não as impediu de carregarem “pra baixo e pra cima” um protótipo de móveis que fizeram e que ficou muito pesado, “se o pessoal visse não ia dizer que é só curso pra mulherzinha, porque a gente coloca a mão na massa... a gente se vira sem os homens”.

As entrevistadas observam o avanço da participação feminina no mercado de trabalho e no mundo acadêmico em todos os setores, o que pode ser notado na fala de uma entrevistada quando diz que “as mulheres estão tomando conta do mundo”. Entretanto reconhecem que o mercado valoriza mais os designers masculinos do que as femininas. Segundo elas, os homens preferem as mulheres para vender os projetos de cozinha. No setor de decoração também elas são bem aceitas, “mulher é bem difícil de ver reconhecida no mercado, a não ser que faça decoração... e também projetista e desenhista...”. Consideram isso como um preconceito e assumem que elas (as mulheres) também têm preconceito e que devem superá-los para poder mostrar melhor seu trabalho.

Reconhecem a dificuldade de freqüentar cursos que têm predominância masculina como as engenharias, “quando você tem mais mulher por perto você se sente mais segura dentro do grupo... você tem mais liberdade de falar certas coisas... se você está num lugar que tem só homem você fica mais retraída..”.

Consideraram também a dificuldade que os rapazes têm de freqüentarem cursos com predominância feminina como o de Tecnologia em Desenho de Móveis. Os que entraram neste curso (predominantemente feminino) não continuaram o curso. Para algumas foi porque não suportaram um ambiente com muitas mulheres. “...ele parecia um alienígena na sala. Ele falou: ‘ou eu saio ou eu mudo de curso’. Aí ele mudou de curso”. Em minoria, não se sentiram bem. “Todos os que entraram saíram. Desistiram”. Isto porque não suportam a pressão social, pois têm que enfrentar preconceitos e são rotulados de homossexuais.

Por outro lado, as mulheres consideram os homens mais firmes e discretos, observam ainda que eles simplificam as coisas, o que agrega valor ao seu trabalho. De acordo com a percepção delas, os homens estão mais voltados para trabalhos pesados, que exigem força física. Eles vão estudar cursos como engenharia porque se dão melhor em áreas técnicas e das ciências exatas. Interessam-se mais para trabalhar com computadores e por programação.

As alunas entrevistadas disseram que na vida profissional os homens destacam-se mais do que as mulheres. Na área de design, por exemplo, onde há um número razoável de mulheres, os homens são os profissionais mais reconhecidos. Segundo elas os homens são mais firmes em suas posições profissionais, são mais discretos, têm idéias “geniais” e eles não complicam os trabalhos, apesar de serem também mais desorganizados e nem sempre terem muito capricho. “a letra de menino sempre é mais feia...” (risos). Quando se tem que representar uma empresa, “os homens são os que vão falar no palco”. São eles que gerenciam a empresa, estão na direção e no comando.

Com relação a estágios, segundo as alunas, há uma nítida preferência pelos homens. As empresas que buscam estagiários nos cursos (a maioria homens) contratam muito mais os rapazes do que as alunas. “... veio aqui e ofereceu estágio pra todo mundo e só pegou homens”.

Esta pode ser uma razão para o fato de serem os homens, em sua maioria, os que ocupam posições de chefia, pois “antigamente era só homem, só homem...” Para elas isto é reflexo da sociedade e sua história que sempre foi muito machista e sempre deu mais preferência para os homens profissionais. “Isto é reflexo da sociedade anterior...”

Foi falado também de um certo preconceito que existe para com o homem que estuda design, por ser considerado homossexual, talvez porque trabalha com desenho e ilustração. Segundo elas, os designers são mais cuidadosos e mais delicados. Porém, “isto (o fato dos designers serem vistos como gays) não tem nada a ver, os trabalhos dele (um colega) são superbonitos. É preconceito mesmo”.

b) Representações dos alunos sobre homens e mulheres

Foi marcante na percepção dos homens a importância que assume para eles obrigações que lhes são cobradas pela sociedade a respeito de seu papel de provedor. Para eles, a responsabilidade de um homem se manifesta pelo cumprimento de seu papel de homem que é o de sustentar uma família e dar-lhe segurança financeira. Para isto, eles têm que estudar, se formar e trabalhar. Esta maneira de pensar foi unânime nas falas masculinas, sendo um dos temas mais enfatizados por eles. Colocar dinheiro em casa é uma responsabilidade do homem. “o homem...sempre foi ter que cuidar de uma família e hoje em dia não é muito diferente disso não... têm que ter essa responsabilidade”.

Como conseqüência desta visão, assumir a situação de ser um homem sustentado por mulher é complicado em função da percepção do papel masculino de provedor e, também, porque, segundo alguns, haveria muita cobrança, não só dos familiares, mas também da sociedade em geral. “Imagine a mulher sustentando o homem, chamam o cara de sanguessuga, de vagabundo... os homens concordam comigo...”.

Para alguns, este é o sonho de futuro: ter uma família que ele seja o provedor, aquele que dá segurança e conforto, inclusive, de preferência com a possibilidade da mulher não precisar trabalhar profissionalmente. Nenhum deles fez referências a ser contra o fato de sua mulher trabalhar fora, porém para muitos, o ideal é que isto não seja necessário.”... “É um anseio meu, de realização profissional conseguir atingir um cargo, um nível profissional, um patamar de poder sustentar minha família de uma maneira satisfatória, que eu possa dar o estudo, a casa, momentos de lazer para a família... acho que seria uma realização pessoal...”.

No entanto, esta não foi uma opinião unânime, porque um deles afirmou que não teria nenhum problema, caso sua mulher fosse mais bem remunerada do que ele, dizendo, inclusive, que concorda com a possibilidade de sair do trabalho para cuidar dos filhos, caso houvesse necessidade. Mas, ainda assim, houve afirmações como esta: “Eu não tenho problema nenhum com relação a ganhar menos, acho que conseguiria enfrentar a situação de desemprego com a mulher trazendo pra casa o sustento sem nenhum problema. Mas consciente ou inconscientemente acho que os homens de um modo geral querem estar bem, querem poder trazer pra casa uma condição boa de vida...” Outros revelaram que a participação das mulheres no mercado de trabalho estava criando uma competição entre eles, prejudicando-os: “hoje o homem ainda é obrigado manter a família e, ainda assim, ele é obrigado a concorrer com as mulheres, de quem ele é cobrado a cuidar”.

As opiniões sobre o trabalho das mulheres foram bastante ambíguas e contraditórias. Percebe-se uma preocupação em não demonstrar um pensamento machista, porém muitas vezes ouviu-se frases como: “... acredito que tá certo que elas têm que trabalhar também, não é só a gente... Mas elas deviam ficar nos cargos menores. Mas, daí, deixar os cargos mais altos pro marido receber mais”.

Alguns revelaram uma preocupação com a saída da mulher para o mercado de trabalho e a falta de sua presença na família. “O problema disso é que as mulheres estão se afastando da família. Os filhos não estão sendo bem criados e crescidos”. Neste contexto, a idéia é de que o homem teria que sustentar a família para que a mulher possa criar bem seus filhos.

Como esta não é uma opinião unânime, outros consideraram que estas coisas estão mudando e que não precisa ser necessariamente da forma mais tradicional. Segundo estes, “depende muito da cabeça de cada um”. Neste caso, se a pessoa está trabalhando e tiver filhos, vai ter que entrar num acordo com o parceiro para saber quem cuidará da criança. “Se eu for casado e nós dois trabalhando... Eu acho que um dos dois vai ter que largar o emprego... ou trabalhar meio período pra ajudar”. Poucos admitiram fazer o trabalho doméstico. Nestes casos o exemplo dos pais foi marcante, pois as referências citadas sempre eram as da família de origem. Meu pai realmente trabalhava integralmente... desde manhã, ia pra casa almoçar e ia embora e voltava de noite pra casa e dormia. Assistia jornal e dormia. Acho que ser homem é isso, não é dar porrada na mulher.”

A força física foi uma característica masculina bastante citada para apontar as diferenças entre homens e mulheres. Para tanto, a alegação da ciência foi utilizada, assim como para enfatizar outras diferenças “é cientificamente comprovado, o homem tem uma organização espacial, senso de orientação espacial muito melhor que a mulher. Inclusive para dirigir”.(risos)

Outras diferenças entre homens e mulheres foram citadas: os homens têm mais facilidade para lidar com as ciências exatas, com trabalho mecânico, são mais agressivos no trabalho, como por exemplo, na apresentação de um projeto, fazem isto com mais firmeza e assertividade. São mais diretos e objetivos. Reconhecem que eles têm mais facilidade que as mulheres para conseguirem um estágio ou um trabalho, assim como são mais facilmente aceitos no ambiente profissional. Quanto à remuneração, também os homens levam vantagem, pois, segundo eles, em suas áreas de atuação as mulheres sempre ganham menos que os homens para realizar o mesmo trabalho.

Por outro lado, as mulheres são mais organizadas “nunca tem homem no financeiro, porque ele é desorganizado. Isso não é estereótipo, é uma tendência”. Para eles, as mulheres têm mais facilidade e mais tato para lidar com o público e trabalham melhor com decoração.

Quanto a este aspecto o preconceito aflorou, pois o trabalho com decoração foi apontado por vários rapazes como um trabalho feminino e o homem que o faz é confundido com homossexual. “Praticamente decoração associa estilismo com viado (homossexual). Decoração com viado. Um homem prefere evitar”. A grande maioria citou o fato de que o homem que trabalha com design sofre preconceitos em virtude de apresentarem “uma sexualidade duvidosa...”.

As mulheres são vistas pelos rapazes em sua maioria como emotivas, sentimentais, sensíveis, delicadas, cuidadosas, mais subjetivas do que os homens. A falta de força física também foi citada como uma característica feminina e, para alguns, “é comprovado cientificamente que as mulheres falam mais do que os homens” Além de faladeiras, os rapazes consideram também as mulheres mais fofoqueiras, desleais entre elas e mais desunidas do que os homens.

Estas características acarretam algumas conseqüências nas relações de trabalho que podem, por um lado, favorecer o desempenho das mulheres em algumas atividades e, por outro, prejudicar. Por exemplo, a sua sensibilidade e delicadeza são importantes no trabalho com o público, onde elas são mais eficientes. Disseram que esta capacidade de relacionamento faz com que as mulheres consigam galgar posições, ter mais carisma, “ser uma pessoa mais bem vista dentro de uma empresa”. Para outros, “no setor de criação, de concepção de arte, de design a mulher leva teoricamente uma certa vantagem até por questões psicológicas,... é tão da mulher ser lapidada pra ser mais aprazível... ela tem mais percepção pra coisinhas que estão acontecendo no trabalho... ela pode tomar isso como um novo ramo, um novo caminho para criação...”.

Outras qualidades apontadas como femininas e que favorecem o desempenho das mulheres no trabalho foram a organização e uma maior atenção a detalhes e a cores. São eficientes em trabalhos como controle de qualidade, de acabamento, por exemplo, e também no setor financeiro. Elas têm também mais facilidade para trabalhar em redação e mídia.

Segundo eles, as mulheres estão hoje conquistando muitos espaços no mercado de trabalho, mas esta conquista ainda é muito mais difícil para elas do que para os homens, “ela briga duas vezes pra chegar e se impor. A imposição do homem é muito mais simples”. Há uma consciência entre os rapazes de que a sociedade está passando por um processo de transição, saindo de uma situação em que as mulheres viviam em situações de submissão, em que os homens tinham muitos direitos que não eram estendidos a elas. Esta influência histórica ainda está presente, “o sentimento ainda está embutido na sociedade... tanto dos homens quanto das mulheres... existe muita mulher machista...”.

Com relação à conquista de novos espaços, um entrevistado afirmou que com a revolução industrial resolveram inundar o mercado (de trabalho) com mulher, questão de mão-de-obra barata...”. Segundo ele, muitas mulheres querem trabalhar e não percebem que recebem rendimento menor do que os homens pelo mesmo cargo.

A insegurança profissional foi também apontada pelos rapazes como uma característica feminina que dificulta sua afirmação na vida profissional. Trouxeram exemplos de colegas de curso que não se impõem na defesa de seus projetos e opiniões, não defendem suas idéias com a mesma firmeza e agressividade que os colegas rapazes e não ousam criar nada além do que os professores orientam “... tudo quadradinho, bonitinho, bem resolvido, mas é aquilo. Não vai ter diferença... são mais tranqüilas, mais serenas... é um trabalho assim, assim,... sem muita gana”. Dentre todas as suas colegas, apenas uma delas foi apontada como diferente das outras. Ela discutia com os professores, defendia suas idéias e tinha um trabalho diferenciado, inclusive dos rapazes. Eles explicaram esta diferença pelo fato de ser uma aluna que já possuía um curso de Belas-Artes e tinha muito mais experiência do que suas outras companheiras. Os rapazes apontaram suas colegas de curso como mais disciplinadas e estudiosas do que eles “são bem mais dedicadas,... são mais cdf (muito estudiosas), se preocupam com mais antecedência com os trabalhos... a gente faz mais em cima da hora...”. Nota-se uma certa ironia em comentários como este: “...- eu acho que à tarde (período com maior freqüência feminina) tem trabalhos bem bons... - Apesar de serem meninas?” (risadas).

Uma limitação das mulheres de acordo com a percepção masculina foi com relação a conhecimentos técnicos “grande parte das mulheres não gostam de coisas muito minuciosas que têm muitos comandos... mulher vai achar que motor tem válvula de televisão”. Eles disseram que elas lidam com equipamentos técnicos, porém se ocorrer algum problema técnico não tentam resolver e geralmente recorrem a seus colegas masculinos para pedir ajuda. Segundo eles, é muito difícil encontrar uma mulher que tome a iniciativa de solucionar sozinha este tipo de problema.

A questão familiar foi bastante discutida entre os rapazes e o papel da mulher no mercado de trabalho foi diretamente vinculado a esta questão. Usaram suas experiências pessoais para exemplificar como a percebem. A mãe de um deles, por exemplo, deixou sua atividade profissional para ficar em casa cuidando dos filhos, e ele avalia isto positivamente, pois eles tiveram sempre a presença constante da mãe na infância. Outro discordou, citando seu caso “minha mãe sempre foi professora universitária... ela sempre trabalhou muito. Até eu acho que ela nunca deixou de ser mãe. Ela sempre foi muito presente na família... minha mãe fez bem em continuar trabalhando”. Para ele, há muitas mulheres frustradas porque pararam de trabalhar fora e quando os filhos já estão criados sentem-se anuladas “muitas mães não são felizes... -Ah, parei de trabalhar... de estudar... e não sou mais ninguém agora...”. Outro disse que a mãe só trabalhava meio período, que a mãe teve tempo para cuidar dele. “E é o que eu gostaria de fazer pelos meus filhos... não uma mãe muito ausente...”.

Apesar destas opiniões contrárias quanto ao papel da mulher junto à família e ao mercado de trabalho, houve um comentário de que a mulher tem a opção entre ficar em casa cuidando dos filhos pequenos ou dedicarse à atividade profissional, enquanto o homem é obrigado a trabalhar para sustentar a família.

c) Representações das alunas sobre as relações de gênero no curso e na profissão

A leitura das entrevistas com as alunas revela que na Instituição, os Cursos de Tecnologia em Artes Gráficas e de Tecnologia em Desenho de Móveis são percebidos como femininos. Elas também entendem que os cursos de engenharia, principalmente mecânica, são considerados masculinos, havendo neles preconceitos contra mulheres. Aliás, acreditam mesmo que a UTFPR possui um perfil masculino.

No entanto não deixam de reconhecer que um olhar mais atento sobre seus cursos não daria margem à caracterização dos mesmos como femininos. Afirmam que existe uma maior interação entre os gêneros entre seus colegas, advinda do maior nível de informação dos alunos, “(...) eu acho que na área que a gente trabalha, com projeto gráfico envolve muita propaganda, marketing, esse tipo de coisa, as pessoas têm um pouco mais de cultura”.

De qualquer forma, percebem que o número de alunos é menor – principalmente no Curso de Tecnologia em Desenho de Móveis, no qual é possível encontrar turmas nas quais eles estão ausentes. Aliás, associam a pouca presença de alunos na área com a idéia tradicional de que o uso da criatividade e da sensibilidade – pré-requisitos para os cursos – seriam características atribuídas a homossexuais. Afirmam mesmo que é difícil um homem suportar o convívio com muitas mulheres, bem como o preconceito que coloca dúvidas quanto a sua masculinidade: “... quando tem um cara, geralmente todo mundo tira sarro, porque falam que é gay”.

Pela leitura das entrevistas é perceptível que os objetivos do curso não estão claros para as alunas:“... mas eu não sabia o que eu ia aprender...”. Nas falas, as mulheres se reconhecem competitivas entre si, o que é percebido como um problema “... era muita menina falando, era muita briga na sala, justamente por uma falar demais, uma falava da outra, queriam entrar numa disputa...”. O mesmo não seria válido para os homens, tidos como mais associativos. Elas reconhecem a competição entre homens e mulheres no ambiente estudantil, o que pode ser evidenciado nos ambientes de marcenaria onde a diferença de gênero é reforçada pela faixa etária e pela condição de estudante. “Dificuldade entre homem e mulher só mesmo na marcenaria mesmo, que a gente tem mais ... assim, às vezes os senhores lá que cuidam da marcenaria se irritam com a gente, acham que a gente não tem capacidade de fazer nada, e daí é complicadinho, só isso”.

Ainda com relação à marcenaria, pode-se perceber que a mesma se constitui no ambiente em que elas desempenham as tarefas que exigem maior esforço físico, sendo que algumas temem ser enquadradas no estereótipo da homossexualidade. ”Eu, às vezes tenho até medo, porque eu já sou grandona, tenho ombros largos, aí de repente, ficá carregando móvel pra cima e pra baixo, falam assim: nossa aquela ali é..., sei lá, meio homem ...”.

As entrevistadas relatam que se sentem alvo de preconceitos neste ambiente de marcenaria até mesmo por parte dos professores, sendo que ocasionalmente ouvem comentários que colocam em dúvida sua capacidade de desempenhar com sucesso as atividades pertinentes a este ambiente.

As mulheres reconhecem que existe uma certa diferença naquilo que produzem, se postas em contraste com a produção masculina, no que se refere aos trabalhos e tarefas desenvolvidos no curso. Isso se evidencia quando elas fazem referência a solução de problemas: “... a gente teve que fazer um encarte de cd, e daí um amigo nosso, da sala, fez uma caixinha, simples, bem básica, ele colocou uma fita magnética, tipo um imã, e colou, assim, era um negócio simplíssimo, bem fácil de fazer, enquanto que a gente fez encarte, fez bastante coisa, ... a idéia dele..., não deixou de ter um embasamento teórico, e foi uma idéia simples e uma idéia boa ... não ficou incompleto”.

Nos estágios envolvendo vendas de projetos, desconfia-se que a mulher não domine todo o conhecimento que a área exige, bem como, que as relações interpessoais nem sempre se estabelecem em termos profissionais, podendo até transformar-se em assédio sexual ou “cantada”: “... mas quando chegam homens, geralmente eles não levam muito pelo lado profissional, sempre tem aquela coisa de... né, de cair outro lado da cantada...”.

Foram citadas de forma recorrente, situações em que no momento da seleção para os estágios, as mulheres são eliminadas antes de seus colegas da disputa devido ao argumento da falta de força física, muito embora esta característica não fosse essencial para o desempenho da tarefa almejada. Em outras situações o mesmo acontece sem motivo aparente ou relevante: “Muitas vezes a gente leva o curriculum para tratar de estágio e eles não te chamam e você não sabe porque, você chega de manhã, fica pensando se está faltando alguma coisa ou se é porque você é mulher, e a gente nem sabe porque na verdade a gente é eliminada primeiro”. Vale ressaltar, também, algumas situações de estágio, onde se percebe um preconceito contra os estudantes em geral, sejam homens ou mulheres.

Percebe-se que existe uma distância entre as tarefas desempenhadas por elas nos estágios e os conteúdos e disciplinas desenvolvidos nos cursos: “Eu gostaria de trabalhar em marcenaria, não gostaria de atender público, de cozinha, em vendas, trabalhei com isso e não gostei ... pode ser até uma execução, assim, materiais, fazendo modelos, mas atendendo em lojas eu não gostaria não”.

No que se refere ao mercado de trabalho, as falas femininas apontam para uma interação não-conflituosa entre homens e mulheres na área de artes gráficas e desenho de móveis, não existindo problemas de diferenças de gênero no que se refere ao desempenho profissional: “... é que o nosso mercado é um mercado bem misto. A gente tem tanto bons designers homens como mulheres ...”. Aliás, afirmam mesmo que para o equilíbrio dos grupos de trabalho e estudo, é necessária a presença de mulheres e homens. Isto porque em um ambiente de trabalho misto é possível ter uma maior empatia quanto às aspirações e exigências das mulheres quando quem faz o projeto é uma mulher; assim como, se o projetista for um homem, terá melhores condições de conhecer mais profundamente as necessidades masculinas. “... Homens e mulheres trabalham juntos em cima do mesmo projeto... Cada trabalho tem que ter um toque de homem e um toque feminino se vai direcionado para homens e mulheres”. Entretanto, aparecem nas entrevistas situações que contradizem o que foi aqui exposto, pois as alunas comentaram que os nomes de maior destaque na sua área de trabalho são masculinos.

Em ambientes em que a presença de homens é predominante, as mulheres sentem-ser muitas vezes inferiorizadas. Atribuem esta situação não apenas ao círculo de amizades masculino, mas também a uma maior liberdade existente entre os mesmos. Reconhecem ainda que os homens também sentem dificuldades em ambientes mais femininos, devido aos mais diversos problemas de interação. “O próprio homem também se sentiria mal entrando num espaço onde só tem mulher trabalhando, ele ia querer mostrar alguma coisa, o trabalho, já puxa pra um lado não tão sensível, a mulher é sempre mais sensível, (risos), tudo é mais detalhado, ele também acaba se sentindo um pouco mal, ele entra num espaço, ...ele se sente invadindo um espaço que não é dele...”.

De qualquer forma, admitem a possibilidade das mulheres com o tempo alcançarem reconhecimento nos ambientes masculinos. A conquista do espaço se daria, segundo elas, pela demonstração de sua competência ou pelo uso da diferença como estratégia de aproximação, onde as características femininas cativariam a afetividade masculina “... eles vão conhecendo, vão vendo como é o teu trabalho, aí começam a respeitar você, não só como profissional, mas também como pessoa, daí você conquistou o teu espaço, entendeu?”.

Existe no mercado a presença dos micreiros17 que, sem ter formação específica na área, aumentam a disputa por postos de trabalho. Segundo as entrevistas, tais micreiros seriam homens em sua maioria, já que os mesmos teriam um maior interesse pela área de informática, conhecimento necessário para o exercício da profissão. As entrevistas revelam a idéia de que as mulheres são observadas com desconfiança no que se refere ao domínio dos conteúdos específicos de sua área de atuação. No entanto, as mesmas afirmam que no caso masculino isto não acontece – aliás, eles transmitiriam uma maior segurança e domínio na execução de tarefas que envolvem conhecimentos ligados a computadores, programação, etc. Elas acreditam que este é um dos elementos que contribui para as diferenças de remuneração entre homens e mulheres: “O menino é o que mais ganhava, talvez por ele saber mexer com o programa... acho que pelo fato do domínio desta ferramenta...”.

As mulheres afirmam que existem setores em que sua presença pode ser notada com maior freqüência. Poder-se-ia exemplificar no Curso de Tecnologia em Artes Gráficas o desenvolvimento de projetos, e no Curso de Tecnologia em Desenho de Móveis, o setor de as vendas. Embora possam ser encontradas falas que indiquem a preferência pela área de produção, apontam que, nas tarefas ligadas ao chão de fábrica, a sua presença quase não pode ser notada, uma vez que estariam mais reservadas aos homens: “...Geralmente, na parte de fazer força, na parte da execução mesmo, em termos de estágio ou emprego eles escolhem homens...”.

Isto fica evidente em algumas situações que aparecem nas falas das entrevistadas, por exemplo, as características físicas femininas, tais como a falta de força física sendo utilizada contra as mesmas “... Mas na entrevista mesmo (para obtenção do estágio), a pessoa, a coordenadora, me disse que ela estaria dando a preferência pro homem porque ele poderia fazer mais força do que eu para carregar essas caixas, ... e ele não tinha a mesma formação que eu, ele não teria o mesmo conhecimento que eu e a vaga foi preenchida só porque ele poderia fazer mais força do que eu ...”.

Elas concordam com o estereótipo de que os homens que mais se destacam na área, são homossexuais: “... Eu vejo que ele é o homem que mais se destaca, eu não sei se é por ele trabalhar há um tempão ou pela influência ... por sinal ele é homossexual, não sei se eles têm uma maior sensibilidade pela própria profissão ...”. Afirmam ainda, que a área é evitada pelo sexo masculino por ser considerada feminina.

Todas as situações acima são retiradas das falas das mulheres, sem que as mesmas as reconheçam como preconceito. Com exceção da afirmação inicial, que nega a existência do preconceito (recorrente nas entrevistas), há apenas uma outra referência ao tema, dizendo que a discriminação em relação às mulheres está desaparecendo.

d) Representações dos alunos sobre as relações de gênero no curso e na profissão

A análise das entrevistas masculinas revela, numa primeira aproximação, para a não-existência de diferenças relacionadas ao gênero ou ao sexo. No entanto, as falas apresentam seus cursos como femininos. Isto porque envolvem criatividade, uma certa sensibilidade, uso de dons artísticos e pelo fato da área do design ser considerada mais leve, quando comparada, por exemplo, às engenharias. Assim, muitas vezes, a mesma é evitada por uma parcela do público masculino – principalmente no caso do Curso de Tecnologia em Desenho de Móveis, no qual quase não há homens. A pesquisa revelou que os rapazes que iniciam os cursos são questionados com relação a sua masculinidade. “Eu enganei minha mãe pra vir pra cá. Ah, eu ia fazer um curso de homem que é engenharia civil. Daí eu falei que tava fazendo engenharia civil,... meio complexo. E depois caí na desgraça! Agora todo mundo aceitou”. Talvez como uma tentativa de compensar o estereótipo de homossexualidade ligado ao curso, apareceram nas falas, de forma recorrente, afirmações de que esta área rompe com padrões estabelecidos, questiona modelos tradicionais, sendo, portanto, um curso moderno. Outros disseram em tom de brincadeira que a entrada dos homens nesta área pode estar relacionada à presença maciça de mulheres.

É possível notar nas entrevistas a idéia de que o melhor desempenho masculino não está associado a esforço ou dedicação – eles reconhecem inclusive que as mulheres estão mais preocupadas com estas questões do que eles. Entretanto, referem-se a uma maior e melhor qualidade em seus trabalhos, quando comparados com os delas. Isto estaria ligado à idéia de que os mesmos são mais questionadores, sendo capazes de discutir teorias e conceitos com os professores, enquanto as mulheres se submetem às regras sem maiores questionamentos. Inclusive afirmam que elas são mais inseguras com relação aos seus trabalhos, reagindo de forma diferenciada aos sucessos e fracassos da vida acadêmica: “Uma vez na sala de aula o professor passou as notas e uma menina que começou a chorar porque tirou a média 7,5, pô...”.

Há também a afirmação de diferenças marcadas pelo gênero na produção do design: o dos homens mais arrojados, porém simples, enquanto o delas seria mais estilizado e com mais detalhes: “... o design do homem é mais agressivo do que o da mulher. Ela tem tendências... mais feminilidade no design. O design do homem seria mais grosso, por assim dizer. Um design mais tosco...”.

Com relação aos estágios, nota-se que as falas masculinas parecem encarar as atividades referentes ao mesmo como pertencentes ao mercado de trabalho – já que são acadêmicos e não teriam experiência profissional na área. Isto poderia explicar um certo silêncio sobre o tema: há uma única citação na qual se diz que não existe distinção entre homens e mulheres no momento da seleção dos estudantes.

Pode-se afirmar que os entrevistados não dão maior importância para as questões relativas ao gênero. Acreditam que as mesmas não têm relevância na área: “Então fica difícil você sentar num grupo assim e começar falar sobre essa relação por que é algo que, pelo menos eu ... não me preocupo ...É que na nossa área ...é ruim essa distinção. Eu pelo menos não percebi a distinção ...”

Numa primeira aproximação das entrevistas masculinas, é possível notar falas que apontam para uma igualdade de gênero também sob o âmbito do mercado de trabalho.“... A mulher é plenamente capaz de fazer o que o homem faz”. As falas deixam em aberto, pelo menos em tese, a possibilidade de mudanças nos papéis sociais tradicionais que apresentam o espaço público como masculino e o privado como feminino, embora tais afirmações tenham como base estereótipos de gênero que demonstram questionamentos e possibilidades de aproximação nos papéis desempenhados por homens e mulheres “... antes o homem era isso e a mulher aquilo. Agora o homem pode fazer o trabalho da mulher e a mulher pode fazer o trabalho do homem. Essa é a aproximação”. Consideram o machismo um dado cultural, que será superado no decorrer de algumas gerações.

Com relação ao mercado de trabalho, as falas apontam para uma preocupação com relação à entrada da mulher no mercado de trabalho e à competição com as mulheres. Afirmam mesmo estar sendo preteridos por “mulheres cartão de visitas”, e ainda consideram a força física como um fator determinante na definição das tarefas “Comprovadamente a mulher é fisicamente mais fraca do que o homem”. Talvez por isso afirmem que existe incompatibilidade entre as mulheres e as tarefas relativas ao chão de fábrica (para eles, a industria é considerada machista). No entanto, contraditoriamente, reconhecem que em alguns ambientes considerados insalubres, pode ser percebida a presença feminina: “E é estranho você ver assim aquela menina toda produzidinha, e tal, daí ela entra no vestiário, sai de macacão, botando a biqueira de ferro, toca na cabeça e vai lá operar a injetora a quarenta e poucos graus, o dia inteiro, aquele barulho, de pé”.

Além do exposto acima, pode-se perceber nas falas um outro fator limitante para a atuação feminina no mercado de trabalho. Trata-se da idéia de que mulheres não interagem bem com aparelhos e artefatos tecnológicos. “Quem que vai lá abrir a máquina, mexer nas placas pra ver como é que tá, os contatos da placa, desmontar e montar de novo. É difícil as mulheres que fazem isso. Eu particularmente nunca vi nenhuma”. Apontam, no entanto, que existem exceções. Assim, segundo eles, na área de artes gráficas, restaria às mulheres o trabalho com redação e atendimento ao público. Mas esta afirmação também não é consensual.

Por outro lado, acreditam que o homem, pelo menos neste campo de atuação, tem que ter uma interação positiva com a tecnologia, creditando o sucesso na profissão à busca e ao domínio de novos conhecimentos. Isto porque consideram moderno e inovador este ramo do mercado não estando, portanto ligado a padrões tradicionais estabelecidos. Como consideram que todas estas características são masculinas, é recorrente a idéia de que os homens têm um melhor desempenho profissional do que as mulheres. Assim como as alunas entrevistas, também os alunos disseram que os homens são os profissionais que mais se destacam.

Existem ainda falas que apontam para o fato de que os homens nem sempre se sujeitam a certas exigências impostas pelo mercado: “Daí vamos fazer o seguinte, pega essa cor, muda pra amarelo, o fundo pega roxo, pega essa fonte, coloca essa fonte gótica, e daí coloca esse ursinho de pelúcia aqui atrás e coloca branco com uma letra branca em cima. Daí você pô!? ...’ - Não, tô pagando!’ E daí você fala o seguinte:’ - eu faço, mas se alguém perguntar com quem você fez, fala que não foi comigo. Fala que foi você que fez. Eu não vou assumir a responsabilidade sobre esse produto’”.

Há, nas falas masculinas, uma oposição entre duas idéias: a de que na seleção de candidatos, os homens seriam mais objetivos, levando em consideração a capacidade: “O homem já olha mais a parte profissional. A mulher já vê que o cara é bonitão e vamo dá preferência prá esse cara e tal ...”. e as mulheres são mais subjetivas, deixando-se levar pela beleza. Mas foi afirmado também o oposto: “Ah eu acho que é o contrário, cara. Normalmente o homem olha primeiro a aparência, depois o conteúdo ...”.

Afirmam também a existência de posturas e comportamentos diferentes para ambientes masculinos, ambientes femininos e ambientes mistos, cada um com características específicas. Existe nas falas a idéia de que a presença feminina suaviza o ambiente de trabalho: “Mas eu acho que a relação muda sim. Quando é um ambiente só feminino ou um ambiente só masculino e quando é um ambiente que mistura a coisa, eu acho que muda o comportamento, tanto das mulheres como dos homens, eu acho que a coisa fica mais equilibrada”. Segundo os alunos entrevistados, o ambiente em que há mulheres trabalhando caracteriza-se por um maior respeito entre as pessoas, não há muita briga nem discussão. Por outro lado, há muita intriga.

Entretanto alguns entrevistados disseram que o ambiente de trabalho em que há muitas mulheres é mais tenso porque elas não conseguem separar questões profissionais de questões pessoais; “a mulher leva tudo pro lado sentimental, qualquer coisinha, se você falar atravessado, ela vai pro banheiro chorar, vai pro canto, tem enxaqueca...” De acordo com as opiniões deles, “para os homens essas questões são resolvidas de forma mais simples: ficam putos, vão pra um bar, tomam uma cerveja e no dia seguinte está tudo bem”. Apontam que homens e mulheres possuem diferentes formas de reagir ao stress no ambiente de trabalho, marcadas pelo gênero: as mulheres exprimindo através do choro, os homens através do lúdico. Falam ainda da necessidade da criação de equipes mistas de trabalho, que atenderiam a todas as necessidades dos clientes.

Assim como nas entrevistas femininas, a idéia de que não existe preconceito de gênero é recorrente nas falas masculinas: “Homem, mulher não tem muita distinção”. Entretanto, pôde-se constatar situações nas quais o preconceito é evidente.

É perceptível uma preocupação com relação à homossexualidade, já que nessa área de atuação são exigidas características tidas como femininas, tais como, sensibilidade, criatividade, “mentalidade aberta”, dentre outras. Porém, em algumas entrevistas aparece a afirmação de que, em determinados ambientes de trabalho masculino, não haveria condições de convivência com um homossexual, devido à discriminação que sofreria. Percebe-se que a profissão de designer (e também arquitetura), sofre uma preconceito com relação à homossexualidade: “Inclusive, dizem que o designer não foi viado suficiente pra fazer arquitetura e nem homem suficiente pra fazer engenharia”. Haveria como exceção o web-designer que, por trabalhar com computadores, não sofreria tal preconceito. De qualquer forma, existe a visão de que a presença de homens em ambientes predominantemente femininos ou mulheres em ambientes predominantemente masculinos se caracterizaria como sintoma de homossexualidade das pessoas do gênero minoritário.

Em oposição ao ambiente machista da indústria, a área de criação é tida como feminina. Nas falas reconhecem a existência de diferenças de cargos e salários entre homens e mulheres: “Já é bem menor, mas eu acho que ainda existe esta diferenciação, as mulheres acabam recebendo um pouco menos e os cargos de chefia ainda em sua maioria são ocupados por homens”. A presença das mulheres no mercado de trabalho é considerada um fator de acirramento da concorrência: “O meu pensamento é mais machista, acho que a mulher não deveria sair de casa. E com isso a gente ia ter um mercado de trabalho mais limpo”.

Ainda com relação às mulheres, afirmam que o mercado não valoriza quem tem mais mérito, pois se existe uma vaga para um emprego que solicita uma mulher e um homem se apresentar com as características exigidas poderá ser contratado, sendo que o mesmo nem sempre aconteceria com uma mulher: “... se há uma oferta de emprego... determinadas características, determinados requisitos para uma mulher e você como homem vai lá e apresenta com essas características, com certeza eles vão te contratar. Agora, se ... com tais requisitos estão pedindo um homem e vai uma mulher, mesmo ela preenchendo todas as características, muitas vezes ela não vai ser contratada, ... por ser uma mulher”.

Para finalizar, é necessário frisar que, assim como no caso das mulheres, todas essas situações não são percebidas como preconceituosas, sendo que existe a afirmação de que na área não há preconceitos, que o importante é o currículo pessoal. Afirmam também a necessidade do respeito às diferenças.

Interpretação dos resultados das entrevistas

Como já apontado anteriormente, a escolha dos cursos de Tecnologia em Artes Gráficas e de Tecnologia em Desenho de Móveis para a realização desta pesquisa deu-se porque um dos interesses em fazer esta investigação era saber se as relações de gênero estão se modificando e de que forma. Cursos desta natureza supostamente teriam alunos mais progressistas, portanto mais abertos a mudanças e com manifestações de preconceitos de gênero menos arraigadas, do que alunos de outros cursos da área tecnológica como as engenharias, por exemplo, nos quais supostamente estudam alunos mais conservadores. Isto porque o simples fato dos rapazes terem escolhido este tipo de curso revela sua disposição de romper com padrões tradicionais, tendo em vista que são cursos considerados mais apropriados para mulheres, de um ponto de vista conservador, uma vez que exige uma sensibilidade artística, muitas vezes relacionada ao estereótipo feminino, o que não significa que nestes cursos não sejam necessários conhecimentos técnicos, motivo pela qual estão inseridos na área tecnológica.

A partir dos conteúdos das entrevistas acima sistematizados, é possível interpretar como os estudantes e as estudantes percebem as relações de gênero entre eles e elas, no próprio curso e no mercado de trabalho18.

Um fato que chamou a atenção da equipe de pesquisadores desde a primeira entrevista realizada foi a afirmação categórica de todas as alunas e alunos de que eles não percebem nenhuma discriminação nem preconceito de gênero no curso que freqüentam. A princípio, para eles, todos os alunos e alunas são tratados da mesma maneira e têm as mesmas chances no curso e no trabalho. Entretanto no decorrer das entrevistas as diferenças afloram.

Os rapazes acham que as moças não têm as mesmas oportunidades de emprego do que eles, dizem que elas recebem menor remuneração pelo mesmo trabalho, que no curso não são tão assertivas e seguras quanto eles para defenderem suas idéias, são muito emotivas e não conseguem superar dificuldades e pressões nas aulas e no trabalho, pondo-se a chorar com facilidade, o que lhes tira o caráter profissional e as prejudica. Enfim, apontaram uma série de situações em que as diferenças de gênero significam desigualdades que desfavorecem as mulheres e favorecem os homens, e que colocam a competência profissional em segundo plano.

Da mesma forma, as moças também denunciaram diversas situações em que são prejudicadas pelo fato de serem mulheres. Muitas das justificativas para a preferência pelo trabalho masculino foram dadas pela falta da força física feminina. Elas mesmas reconhecem isto. Porém, nas entrevistas também ficou evidenciado que muitas fazem trabalhos pesados, como algumas tarefas de gráfica e de marcenaria. Além disso, a tecnologia moderna vem criando muitos trabalhos em que é desnecessária a força física. Portanto, esta é uma falsa justificativa que, porém não é assim percebida pelos rapazes nem pelas moças.

Uma outra diferença que tem relação com as questões de gênero é o fato das mulheres, principalmente as mais “bonitas19”, serem utilizadas pelos profissionais da área para serem colocadas nos stands de exposições como vitrines para atrair clientes. Outras são empregadas em lojas de móveis para trabalharem nos projetos de cozinha ou simplesmente para vender as cozinhas, com um salário que não corresponde à sua formação20.

Muitos depoimentos das moças e, também dos rapazes, revelaram que no momento de uma contratação, seja para estágio, seja para um emprego, a preferência é dada para os homens. Isto não acontece sempre, pois em algumas atividades, o trabalho feminino é preferido. Em decoração, atendimento a público, projetos gráficos, por exemplo, as moças foram apontadas como mais aptas devido às características consideradas femininas que as favorecem. Porém, os trabalhos que necessitam destas características são menos valorizados, não só com relação à posição social de quem o executa, mas também financeiramente. O problema que se aponta não está nas diferenças entre as características consideradas masculinas ou femininas, que fazem parte da vida social em todas as sociedades, mas em sua hierarquização, que as coloca em posições desiguais, onde as manifestações femininas são inferiorizadas, o que fica evidenciado pelo salário inferior que as mulheres recebem para a realização do mesmo trabalho feito pelos homens.

O fato de os informantes terem feito estas revelações e, ao mesmo tempo, não perceberem nenhuma forma de discriminação pode ter vários significados. Por um lado, pode ser que nem eles (e nem elas), percebam estes fatos como manifestações de preconceito ou discriminação. Por outro, pode ser que eles não explicitem a existência do preconceito porque, para este grupo, admiti-lo não seria uma atitude politicamente correta.

Afinal, é parte do ideário de alguns estratos das classes médias que estão em sintonia com os avanços da modernidade, acreditar em mudanças nas relações de gênero que se refletem em uma maior independência para as mulheres e uma maior participação dos homens na esfera doméstica, para que as mulheres possam exercer seu trabalho. Considerando as características do grupo entrevistado e de suas famílias, tudo indica que estes estudantes fazem parte de camadas sociais progressistas, mais abertas às mudanças socioculturais do mundo de hoje, mesmo que sendo oriundos/as de grupos tradicionais. Portanto, reconhecer tais preconceitos não estaria de acordo com a visão de mundo deste grupo. Esta pode ser a razão das contradições existentes em suas representações, ainda calcadas em códigos tradicionais para o masculino e o feminino.

Este preconceito irrefletido pode ser interpretado como o fruto da incorporação dos estereótipos tradicionais, o que remete ao conceito de habitus, formulado por Bourdieu, o qual se refere a um produto da sociedade que organiza e estabelece parâmetros para ações concretas. Tal situação é resultado das práticas compartilhadas, que são ambíguas, já que os/as atores/atrizes em questão possuem uma multiplicidade de valores e representações: ao mesmo tempo em que ocupam um universo de estudantes de ensino superior, onde posturas mais tradicionais em relação ao gênero são vistas como ultrapassadas, também possuem representações oriundas de outros espaços de socialização, e que estão permeadas por estereótipos de gênero. Vale lembrar que o mundo universitário não está isento destas representações estereotipadas, como pode ser verificado em várias falas do texto.

Outro ponto importante a ressaltar e que chamou a atenção dos entrevistadores foi a ênfase com que os rapazes falaram sobre o papel de provedor que eles têm internalizado em suas representações, uma evidência a mais da incorporação do estereótipo tradicional. Apesar de alguns explicitarem que hoje em dia este papel está mudando e que, também, as mulheres trabalham para sustentar a família, a maioria deles falou que esta é uma obrigação dos homens. Vários deles comentaram que estão estudando e irão trabalhar para que possam sustentar suas futuras famílias. Foi inclusive citado como o grande sonho de suas vidas: poder suprir sozinhos para a família todas a suas necessidades materiais.

Por outro lado, esta foi uma preocupação que não surgiu em nenhuma fala das entrevistadas. Nenhuma moça evidenciou preocupação em estudar e se formar para ter um emprego e poder sustentar a família. É claro que elas estão estudando para ter uma profissão e para poderem trabalhar, porém em nenhum momento falaram que precisavam trabalhar para ganhar dinheiro, muito menos que precisavam garantir economicamente seu futuro ou o de suas futuras famílias. Aliás, nem mesmo o tema casamento estava presente em seus discursos, assim como não estava entre suas preocupações ter que “ganhar a vida”. Nas falas dos rapazes, por sua vez, tais temas como subsistência, papel do pai, papel da mãe, preocupações com o futuro, entre outras, estiveram muito presente.

Esta diferença de preocupação pode ser interpretada pelo fato dos rapazes terem internalizado fortemente o papel de provedor em suas vidas. Apesar das mudanças no papel da mulher na sociedade de hoje, assim como seu ingresso indiscutível no mercado de trabalho e as transformações nos papéis de gênero, tudo indica que os homens entrevistados introjetaram de uma maneira marcante o padrão do homem como provedor da família. Não se pode negar que há ambigüidades em seus discursos quanto a esta questão, porém não se pode negar também que todos eles têm este modelo muito presente em suas representações. Esta preocupação dos rapazes com o papel de provedor é fruto de representações mentais oriundas de práticas sociais nas quais eles ainda não estão inseridos, pois não são ainda provedores de suas famílias e, como estudantes, ainda não estão atuando profissionalmente no mercado de trabalho.

As moças também revelaram algumas ambigüidades com relação ao papel da mulher e as relações de gênero, porém o silêncio da parte delas com relação ao sustento da família revela que esta não é uma preocupação presente em seu universo. Poder-se-ia atribuir este silêncio à maneira pela qual historicamente as mulheres adentraram no mercado de trabalho, ou seja, muito mais como complemento para a renda das classes proletárias do que por um desejo de emancipação feminina. Este fato está presente ainda hoje na representação de muitas mulheres, mesmo quando suas atividades profissionais são essenciais para a manutenção de suas famílias. Pode ser interpretado como uma permanência de padrões tradicionais, já que as informantes não relacionaram seu desempenho e sucesso profissional ao papel de provedora da família. Aliás, não surgiu também em suas representações preocupação com o casamento. Nenhuma aluna entrevistada comentou se deseja ou não casar, formar família, como seria sua futura vida familiar, fato que esteve bastante presente nas entrevistas dos rapazes.

As falas masculinas estão calcadas em uma preocupação com a entrada das mulheres no mercado de trabalho, onde a presença feminina representa uma ameaça ao desempenho do papel masculino de provedor da família. Esta ameaça existe, não porque as mulheres poderiam tornar-se provedoras, mas porque com a presença delas, a competição no mercado de trabalho torna-se ainda mais acirrada. Este contexto interfere nas relações de gênero, já que os rapazes buscam em estereótipos tradicionais a demarcação de seus papéis: questionam a entrada das mulheres no mercado de trabalho, porque elas não têm as mesmas responsabilidades que eles. Caso não consigam cumprir o papel de provedor, eles sofrerão cobranças, censura e estigmatização por parte da sociedade.

As falas dos informantes não deixaram de apontar que a família está passando por um processo de transformação e que os modelos tradicionais de gênero já não são mais totalmente reproduzidos. Muitas destas mudanças estão sendo provocadas pelo mercado de trabalho, no qual se percebe a presença cada vez mais efetiva das mulheres e também pela mídia. Questionaram, por outro lado, a quem caberia os cuidados e a educação de seus filhos. Enquanto alguns admitiram que assumiriam este papel, outros sequer mencionaram a possibilidade de participarem no trabalho doméstico e cuidado dos filhos. Estes fatos permitem dizer que há uma ambigüidade constante entre os jovens que oscila, ora para os padrões tradicionais, ora para inovações de gênero.

Faz parte do padrão tradicional de masculinidade que os homens devem estudar em cursos do universo tecnológico que não sejam relacionados a atividades artísticas. As opiniões dos entrevistados sobre os rapazes que estão no curso de Artes Gráficas e Desenho de Móveis revelaram que há um certo preconceito na sociedade em geral a este respeito. Para alguns esta maneira de pensar criou problemas até para ingressarem nos cursos. Vimos que um deles chegou a mentir para a mãe que estava fazendo vestibular para o curso de Engenharia Civil e quando foi descoberto o seu verdadeiro curso teve que enfrentar a resistência dos familiares. Outro, disse que o pai sentia-se constrangido perante os amigos pelo fato do filho estar cursando Artes Gráficas e não um curso “de homem”.

Com relação ao curso de móveis, o preconceito é maior porque historicamente na UTFPR este curso originou-se do Curso Técnico de Decoração que era um dos únicos considerados “para mulheres” dentre os cursos técnicos da Instituição. Esta tradição vem criando alguns problemas para as moças porque é visto como um curso feminino que, no entanto, exige força física para o trabalho de marcenaria e, de acordo com os padrões de masculinidade, é mais apropriado para os rapazes. O objetivo do curso é que os alunos sejam preparados para trabalharem nas indústrias de móveis da região, com os marceneiros tradicionais que já possuem a experiência em marcenaria e não aceitam a participação das moças recém-formadas que têm a teoria, porém não têm a prática. Elas têm enfrentado dificuldades junto a este tipo de profissional, não somente por serem mulheres, mas também por serem jovens e também por estarem em formação, no caso das estagiárias, por exemplo. Conseqüentemente, as atividades em que elas conseguem colocação no mercado de trabalho vêm sendo no comércio, especialmente de cozinhas e são absorvidas também para trabalharem em projetos, atendimento ao público ou para a venda de móveis propriamente dita.

As entrevistas revelaram que há um sentimento de inferioridade entre as mulheres em ambientes considerados masculinos e um mal estar dos rapazes quando estão em um curso considerado feminino. A percepção de que existem espaços masculinos ou femininos demonstra uma construção histórica, que reserva determinados ambientes (como o mercado de trabalho, por exemplo) aos homens. Esta análise remete à idéia de Scott (1995), que apresenta o gênero como uma forma primária de constituir relações de poder. No Ocidente, o espaço público está marcado tradicionalmente como masculino e o privado como feminino. É importante ressaltar que tais padrões não são estáticos, mas estão sujeitos a transformações advindas das práticas individuais, que contribuem para romper com os modelos tradicionais.

Considerações finais

Sabe-se que a participação das mulheres nos cursos tecnológicos e nas profissões que envolvem a tecnologia é hoje uma realidade. Apesar de ainda serem minoria o número delas no mercado de trabalho tecnológico vem crescendo sistematicamente nos últimos anos. Porém, desigualdades ainda são evidentes quando se percebe, por exemplo, que há uma preferência deste mercado pelo trabalho masculino para atividades mais importantes e melhor remuneradas em detrimento das mulheres que são preferencialmente absorvidas em atividades secundárias, portanto menos valorizadas sob o ponto de vista financeiro. Outra manifestação da desigualdade ocorre em situações em que elas recebem menor remuneração para a execução de um mesmo trabalho feito pelos homens.

Para que estas desigualdades sejam minimizadas é preciso que homens e mulheres estejam igualmente preparados/as para atuarem como profissionais em atividades técnicas. No entanto, esta pesquisa revelou que a igualdade de competência não significa necessariamente igualdade de oportunidades no mercado de trabalho tecnológico. As representações sobre relações de gênero das alunas e dos alunos entrevistados mostraram que os rapazes consideramse mais competentes para o trabalho técnico, devido a suas características de personalidade como a objetividade e assertividade, vistas por eles como essenciais para o sucesso profissional na área tecnológica.

Apesar de não se considerarem menos competentes do que os rapazes para executarem trabalhos em sua área de formação profissional, as alunas comentaram que os nomes no mercado de trabalho de maior prestígio e sucesso são masculinos. Segundo elas, isto acontece porque se vive ainda de acordo com um passado histórico que marcou profundamente os papéis dos homens e das mulheres na sociedade e que, apesar de estar em transformação, ainda não modificou totalmente as relações de gênero no mercado de trabalho.

Portanto, as representações sobre as relações de gênero do universo entrevistado oscilam entre manifestações tradicionais, marcadas pela desigualdade e relações de poder e as transformações que estão ocorrendo em direção à igualdade entre homens e mulheres. Este processo de transformação é acompanhado por ambigüidades que permeiam o discurso dos informantes, pois suas opiniões dificilmente são unânimes e raramente sem contradições.

O próprio processo de socialização faz com que os rapazes sejam preparados para dominarem a esfera pública, na qual se desenvolvem as atividades correspondentes à produção de tecnologias, caracterizada pela objetividade e racionalidade, enquanto as moças são estimuladas a viverem no domínio privado, que se caracteriza pela afetividade e subjetividade. Esta diferença por si só não significa desigualdade, porém quando se trata da sociedade de mercado, em que a produção de riquezas materiais é a mola propulsora de toda a vida social, e o desenvolvimento tecnológico seu valor maior, as relações de gênero, configuradas pela oposição entre o domínio público e privado, tornam-se desiguais.

Sem dúvida, está ocorrendo hoje um processo de transformação que foi evidenciado nos resultados da pesquisa realizada. Para melhor compreender esse processo e as possibilidades de alcançar igualdade de oportunidades para homens e mulheres no universo tecnológico é preciso conhecer a lógica e os significados que estão presentes nas atitudes e nas relações dos atores sociais que dele participam. Neste mundo globalizado, em que as relações socioculturais estão ultrapassando as fronteiras nacionais e territoriais, a perspectiva intercultural é especialmente rica para ampliar a compreensão a respeito das relações de gênero na sociedade em geral e no âmbito da produção tecnológica em particular.

A comparação entre os resultados desta pesquisa e os resultados da pesquisa realizada entre as alunas e os alunos dos cursos da área de tecnologia de Furtwangen-Alemanha,- segunda etapa do projeto intercultural - certamente irá contribuir para trazer um maior entendimento sobre as relações de gênero em instituições de educação tecnológica em diferentes culturas, assim como ampliar a compreensão dos fenômenos culturais no processo de globalização.

Referências

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

BOURDIEU, Pierre. Esboço de uma teoria da prática. In: ORTIZ, Renato (Org.). Pierre Bourdieu. São Paulo: Ática, 1983. p. 46-81.

COULON, Alain. Etnometodologia. Petrópolis: Vozes, 1995.

GARFINKEL, Harold. Studies in Ethnomethodology. New Jersey: Englewood Cliffs, 1967.

GEERTZ, Clifford. Interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

MUNDER, Irmtraud; CARVALHO, Marilia Gomes de. Mujeres y estudios técnicos, ¿conceptos compatibles? Tentativa de una comparación intercultural entre Alemania y Brasil. In: V CONGRESO IBEROAMERICANO “CIENCIA, TECNOLOGÍA Y GÉNERO”, 2004, Cidade do México. Cadernos de gênero e tecnologia, n. 2. Curitiba: Ed. CEFET-PR, 2004.

SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. In: Educação e Realidade: gênero e educação. Porto Alegre. v. 20, n. 2, jul/dez, 1995.

WELLER, Wivian. Karl Mannheim e o método documentário de interpretação: uma forma de análise das visões de mundo. In: Estado e Sociedade. Revista do Departamento de Sociologia da UnB. Brasília, 2003.

______“A adaptação do método documentário de interpretação de Karl Mannheim para a pesquisa qualitativa”. Texto-base redigido para o Workshop Método documentário de interpretação: aspectos teóricos e metodológicos, realizado em Curitiba, no CEFET-PR, nos dias 6 e 7 de maio de 2004 (Mimeo).

 

NOTAS

1
Sobre esta questão MUNDER, I. e CARVALHO, M.G. escreveram o artigo “ Mujeres y estudios técnicos, ¿conceptos compatibles? Tentativa de una comparación intercultural entre Alemania y Brasil” que foi apresentado no V Congreso Iberoaméricano “Ciencia, Tecnología y Género” entre 16 e 20 fevereiro de 2004 no México D.F.

2
Agradecemos a contribuição de Cristina Tavares Rocha, pesquisadora da GeTec, na elaboração deste item do artigo.

3
No decorrer de sua história, a instituição passa por várias mudanças. Na mais recente delas, o então Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná (Cefet-PR) foi transformado em Universidade Tecnológica Federal do Paraná – UTFPR, sendo que além da Reitoria e de um campus em Curitiba, conta com outros dez Campi distribuídos pelo interior do Paraná (Apucarana, Campo Mourão, Cornélio Procópio, Dois Vizinhos, Francisco Beltrão, Londrina, Medianeira, Pato Branco, Ponta Grossa e Toledo). Maiores informações sobre o histórico da universidade, bem como sobre a estrutura e funcionamento dos seus cursos podem ser encontradas na pagina http://www.utfpr.edu.br/.

4
Maiores informações sobre este Programa podem ser encontradas na página www.ppgte.cefetpr.br.

5
No site do GeTec (www.ppgte.cefetpr.br/genero) podem ser encontradas informações adicionais e mais detalhadas sobre seus objetivos, seus/as integrantes, artigos apresentados em congressos, etc..

6
As informações sobre a proposta da pesquisa em parceria entre GeTec-UTFPR e TanGens- FURTWANGEN foram obtidas através da memória da reunião do GeTec ocorrida em Curitiba- PR, no dia 8 de agosto de 2003, com os membros do GeTec e a professora Irmtraud Munder, da Fachhochschule Furtwangen - Alemanha.

7
Agradecemos a colaboração de Lindamir Salete Casagrande, pesquisadora do GeTec, na redação deste item do artigo.

8
O quadro acima apresenta todos os alunos matriculados nos cursos superiores da UTFPR nos referidos anos. Deve-se ressaltar que entre 1997 e 2003 houve a mudança nos cursos da UTFPR que deixou de ofertar os cursos Técnicos e passou a ofertar cursos de Tecnologias.

9
Agradecemos a contribuição de Josimeire de Lima Sobreira, pesquisadora do GeTec, na redação deste item do artigo.

10
Considera-se o método documentário de interpretação adequado para este estudo porque o mesmo tem por característica a reconstrução do coletivo através da análise das falas dos próprios agentes envolvidos. Para maiores esclarecimentos sobre o tema ver WELLER, 2003.

11
Recorre-se a este método em virtude do mesmo ser o mais adequado na reconstrução das orientações coletivas dos grupos, e ainda, por contribuir para uma verificação do conhecimento do “mundo interior” de seus atores e a sua relação com os atos intencionais, pois ele facilita o acesso aos conhecimentos, não somente os reflexivos, mas também aqueles que conduzem os atores às suas ações. Os pressupostos da etnometodologia como instrumento de leitura da realidade, utilizados neste estudo tomam por base os escritos de GARFINKEL, 1967 e também de COULON, 1995.

12
Agradecemos a participação de Lindamir Salete Casagrande, Nádia T. Covolan, Sivonei Hidalgo, Josimeire de Lima Sobreira e Maria Lúcia B.Machado e Ronaldo de Oliveira Corrêa, pesquisadoras e pesquisador do GeTec, pela participação nas discussões metodológicas e colaboração na realização e transcrição das entrevistas.

13
Para esta discussão metodológica foi fundamental a participação de Wivian Weller, socióloga da Universidade de Brasília, que esteve em Curitiba, conduzindo o Workshop promovido pelo GeTec na UTFPR nos dias 6 e 7 de maio de 2004 sobre Método documentário de interpretação: aspectos teóricos e metodológicos. Sobre este assunto ver WELLER, W. 2003 e 2004.

14
Agradecemos a Maria Lúcia Büher Machado, pesquisadora do GeTec, pela elaboração dos quadros aqui apresentados e pelas discussões e colaboração na redação deste item do artigo.

15
Agradecemos a Maria Juracy Aires, Sivonei Hidalgo, Maria Lúcia B. Machado, Lindamir Salete Casagrande e Ronaldo de Oliveira Corrêa, pesquisadoras e pesquisador do GeTec, pela participação nas discussões e interpretação dos resultados da pesquisa e pelas idéias que enriqueceram o texto.

16
O termo representação neste artigo é utilizado para designar as interpretações dos fenômenos sociais criadas pelos indivíduos em seu dia-a dia, assim como a constituição e compartilhamento de significados que são expressos através das práticas cotidianas (GEERTZ, 1978).

17
Micreiros, segundo os entrevistados, são pessoas que exercem a profissão para a qual eles estão se preparando, mas que não possuem o diploma dos cursos de formação profissional da área.

18
É importante ressaltar que a interpretação apresentada aqui não esgota toda a riqueza que os dados obtidos nas entrevistas trazem, possibilitando, portanto posteriores análises a partir de seus resultados.

19
Usa-se aqui uma expressão extraída diretamente das entrevistas. No entanto é clara a referência aos discutíveis padrões estéticos e estereótipos de beleza veiculados no ocidente: a mulher branca, alta, magra, com um comportamento moral condizente com a sociedade sexista ocidental. 20 Há que se considerar que o contato e a experiência em seu campo profissional, para a maioria dos entrevistados, se restringe às atividades de estágio.

 

* Mestre em Ciências Sociais (Antropologia), pela PUCSP, doutora em Antropologia Social pela USP e pós-doutora em Relações Interculturais pela Université de Technologie de Compiègne – França. Coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Relações de Gênero e Tecnologia - GeTec/ PPGTE e professora do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia - PPGTE, da UTFPR. (mariliagdecarvalho@gmail.com)

** Mestre em Tecnologia pelo Programa de Pós-Graduação em Tecnologia (PPGTE), da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Professora da Rede Pública do Estado do Paraná. (samarahistoria@yahoo.com.br)

*** Mestre em Tecnologia pelo Programa de Pós-Graduação em Tecnologia (PPGTE), da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Professor da Rede Pública do Estado do Paraná. (prof-valter@hotmail.com)

A complexidade da identidade inconsciente de gênero – result ado de uma pesquisa entre os estudantes da Fachhochschul e Furtwangen1
The Complexity of the Gender Unconscious Identity - results of a research among students at Fachhochschule-Furtwangen

Stefan Selke*

“O difícil é se encontrar”.

Resumo

Este artigo apresenta os resultados de pesquisa desenvolvida pelo centro de competência TanGens (Technology and Gender in Applied Sciences) junto a alunos do Curso de Tecnologia em Mídias Digitais da Fachhochschule, em Furtwangen, Alemanha, com o objetivo de analisar em que medida o comportamento de gênero dos estudantes de tecnologias digitais futuras se altera de forma coletiva na transição para a sociedade de informação. A metodologia está baseada no método comparativo de Karl Mannheim, que possibilita a compreensão de aspectos da subjetividade e visões de mundo de grupos de indivíduos. Os resultados da pesquisa revelam uma consciência de gênero extremamente complexa e ao mesmo tempo inconsciente. Percebe-se que os atores e atrizes procuram estabelecer entre si alianças independentes do gênero, fazendo com que as diferenças sejam retoricamente minimizadas ou banalizadas. No entanto, apontam que o processo de socialização faz emergir a afinidade técnica dos homens a partir das atividades lúdicas e experiências flow, às mulheres são transmitidos outros modelos de uma consciência de gênero complexa, demonstrada pela maneira de viver estratégias a partir de uma duplicidade de papéis. A marcação que os homens recebem neste processo não é considerada por eles permanentemente vantajosa pois vêem aqui uma limitação das suas possibilidades de escolha. A entrada na profissão é vista por ambos como ponto de cristalização do processo de socialização. Fica evidente, entretanto, que as diferenças entre os gêneros cada vez mais se tornam menores, dando margem ao surgimento freqüente de alianças. No entanto, ainda faltam alternativas e modelos reais e satisfatórios para homens e mulheres.

Palavras-chave: Tecnologia, Educação, Gênero.

Abstract

This article presents the results of the research of the capability center TanGens (Technology and Gender in Applied Sciences) along with the students of the Digital Media Technology course from Fachhochschule, at Frurtwangen Germany, which target analyzing up to what extent the gender behavior from the students of future digital technologies changes collectively in transition to the information society. The methodology is based on the comparative method by Karl Manheim, which facilitates the understanding of the aspects on subjectivity and points of view in groups of people. The result of the research reveals a very complex gender consciousness, however unconscious at the same time. It is easy to realize that actors and actresses try to establish alliances amongst themselves that is gender impartial, making those differences rhetorically smaller or even ordinary. However those differences are show that the process of socialization makes it emerge the technical affinities of men through abstract activities and flow experiences, to women on the other hand, these are passed through as a complex conscious concerning gender, demonstrated by the way they live strategies having duplicity on each side. This sort of pointing that men receive in this process is not considered always as a permanent advantage, for they see the limitations on their choosing possibilities. Breaking in to the occupation is seen by both sides as a crystallization of the socializing process. It is most evident that the differences become more and more diminished, giving the opportunity for new alliances more frequently. Though, realistic alternatives and role models still lack, for both men and women.

Keywords: thecnology, education, gender.

1. Modificaçã o das relações de gênero na sociedade do conhecimento

Na transição da sociedade industrial para a sociedade do conhecimento, surgem grupos de pessoas que assumem posição de vanguarda. Enquanto uma grande parte da população (em atividade) ainda não percebeu esta mudança ou tem que se contentar com soluções híbridas, Instituições Tecnológicas de Ensino Superior formam uma “elite” de profissionais das tecnologias do futuro, que a antecipam. Este representa um bom motivo para que o centro de competência TanGens (Technology and Gender in Applied Sciences) desenvolva um projeto para discutir as relações entre gênero e tecnologia.

Para tal fim TanGens realizou entre o verão e o outono de 2003, o projeto Gênero e Tecnologias Futuras – uma pesquisa sobre a consciência de gênero entre estudantes da área de Mídias Digitais da Fachhochschule Furtwangen2. O ponto inicial do estudo era a seguinte questão: em que medida o comportamento de gênero dos estudantes de tecnologias digitais futuras se altera de forma coletiva na transição para a sociedade de informação?

O foco da análise para levantar e avaliar modificações de caráter coletivo são as representações intersubjetivas que ocorrem durante o desenvolvimento pessoal, no decorrer do processo de socialização. Isto se dá, principalmente, através da aculturação institucional por meio de práticas relativas à construção do saber durante os estudos, bem como, dos acertos intrapessoais durante a fase de iniciação na profissão e os métodos de acerto co-relacionados ao Work-Life-Balance, isto é, planejamento de vida, como também, a distribuição de tarefas familiares.

2. Procedimentos metodológicos e estrutura do estudo

Foi escolhido o método documentário3 como procedimento adequado para análise das representações coletivas já que sua característica principal é a reconstrução do “social” (MANNHEIM, 1980). No caso do gênero, isto se dá de forma mais específica, já que cada um e cada uma, normalmente, percebe o mundo dividido em duas esferas a partir de seu sexo.

O sociólogo Ralf Bohnsack, de Berlim (1999, 2000, 2001), a partir do pano de fundo da sociologia do conhecimento de Karl Mannheim, aperfeiçoou o método da discussão documentária, que até hoje tem sido aplicado em diversos estudos (ver BOHNSACK 2001, WELLER 2003). No contexto das pesquisas de gênero, tal método foi utilizado por Meuser (1998), para analisar a constituição da masculinidade.

Ao contrário dos métodos de pesquisa individualizados, a análise da discussão em grupo (a partir da reprodução documental de suas falas), visa à reconstrução interativa das representações coletivas perceptíveis no próprio processo de discussão. Opiniões individuais passam aqui para o segundo plano. Contudo, as disposições individuais serão também analisadas a partir de um “contexto de experiências conjuntas”4.

Em discussões espontâneas, iniciadas por uma questão5 preferencialmente aberta, as (os) participantes podem entrar em contradição ou validar comunicativamente depoimentos consensualmente divididos. Na discussão em grupo as situações cotidianas são re-elaboradas a partir de um molde latente de representações existentes. Para tanto são encontradas terminologias para orientações que normalmente não são explícitas, ou seja, orientações que se tornaram inquestionáveis. Portanto, são analisadas as condições da autointerpretação da realidade, ou mais precisamente: da parte da realidade que é (co-) determinada pelo gênero.

O objetivo não é necessariamente explicar fatos, mas descrever “settings” naturais a partir de orientações procedentes de um entendimento “anterior” do cotidiano que possibilitam a compreensão das explicações e das ações deste mesmo cotidiano (HONER, 1994). Hipóteses teóricas restritivas, que levam o foco de análise a selecionar determinados aspectos, devem ser evitados. O objetivo é, por inclusão interativa de informações adicionais no processo de pesquisa, alcançar uma modificação permanente de interpretações, e assim – no reconhecimento de seu caráter preliminar e relativo – uma crescente justificativa do objeto6. A formação da teoria justificativa do objeto parte de um pré-entendimento do objeto a ser analisado e, tenta melhorar depoimentos prestados provisoriamente mediante inclusão de “informações não congruentes” (FLICK, 1998).

Através da revisão no material empírico, a partir de novas versões, alcança-se maior nível de precisão. Assim, o objetivo central do estudo não consiste em falsear hipóteses, mas, em alcançar uma visão sistêmica das determinações relevantes, interpretações de mundo e estruturas do sentido para os atores no campo analisado7.

Para a escolha do sampling desta pesquisa, por motivos práticos, buscou-se os grupos de discussão8 já existentes nas próprias matérias. Para o recorte, por um lado, deveriam estar representadas (os) participantes das matérias da área de Mídias Digitais (Mídia On-Line, Informática da Mídia, Computer Science na Mídia). Por outro lado, procurou-se dar importância aos diferentes estágios de formação acadêmica (calouras/os, estudantes avançados e estudantes do último ano). A consideração do gênero como critério de seleção do sampling nesta questão é óbvia.

Posteriormente às discussões em grupo, estas foram transcritas e codificadas mediante QDA (Qualitative Data Analysis) Software Maxqda no sentido de Grounded Theory. Mediante pontos extremamente relevantes referentes ao conteúdo das transcrições, foi realizada uma análise fina do método documentário9. Tal método foi considerado essencial no levantamento de dados. No total foram realizadas nove discussões em grupo.

3. Resultados das discusões em grupo

A característica marcante dos participantes deste estudo é a diversidade, tanto no que se refere às etapas de estudo e às matérias cursadas, quanto à faixa etária ou fase de vida. A isto se deve a diversidade estrutural dos depoimentos documentados nos grupos.

Os temas discutidos nos grupos individuais, bem como os comentários implícitos ou explícitos, referentes às questões de gênero levam a uma polissemia discursiva. Para colocar esta variedade de vozes documentadas em ordem, constrói-se uma cronologia tipologizada: o desenvolvimento da identidade de gênero é apreendida mediante a análise das representações dos estudantes.

3.1. O processo de socialização como fator de construção da identidade de gênero

“E você sempre consegue uma certa marcação”...

Os homens podem procurar os fundamentos de sua aptidão técnica nas atividades lúdicas desenvolvidas a partir de artefatos ditos tecnológicos, durante sua infância e juventude. Tal afirmação não se aplica às mulheres. O eixo da argumentação aqui é a formação das próprias aptidões. O termo aptidão é utilizado para descrever um processo, onde no início constam observações no mundo familiar limitado e, na seqüência, são estabelecidas nuances aparentemente facultativas.

Aqui, a imitação10 do normal tem um papel central. Neste caso, são reproduzidos papéis específicos por gênero; no entanto, isto acontece de forma periférica ou irrefletida, porque “os pais tentam repassar aquilo, que eles consideram bom” (GD 8_w, 307-308)11. Estas influências que são fruto do processo de socialização são altamente funcionais como fonte de orientação, uma vez que ordenam o mundo da vida como chão não questionado da concepção natural do mundo (SCHÜTZ e LUCKMANN, 1994). Aqui, gênero é um fator de estabilização, que permite atribuições e evidências. Na permanente apresentação de ações performáticas e nas ações específicas é que se desenvolve a consciência de gênero.

Tomando como exemplo o caso trivial das brincadeiras infantis, podese perceber como são estabelecidas as bases de algumas rotinas que serão válidas para toda a vida. Aqui, algumas experiências referentes a aplicações de técnicas ficam marcadas na lembrança como fascinantes, podendo ser chamadas primeiras experiências flow12. Através de uma clara divisão de papéis, experiências ótimas com brinquedos (de ordem tecnológica) são facilitadas ou disponibilizadas aos meninos.

A partir de observações mais específicas, é possível perceber os processos pelos quais se consolidam normas particulares por gênero (com reflexos diretos sobre a auto estima). A observação revela que é marcante para muitos participantes, o papel de ídolo desempenhado pelo pai, que representa soberania no manuseio de técnicas (no âmbito domiciliar) tornando-se conseqüentemente um modelo para o domínio do próprio mundo frágil. A afinidade com a técnica, porém, pode também ser entendida como estratégia de compensação de conflitos internos e interpessoais. Assim, o controle da técnica muitas vezes pode ser um sinônimo para autocontrole. Nesta perspectiva, um participante conta como surgiu sua motivação para o estudo. Ele se decidiu por um curso técnico,

(...) porque na verdade eu queria fazer aquilo que o meu pai fez. Ele se formou como técnico de rádio e televisão, e eu sempre achei aquilo legal, como ele sabia lidar com a eletrônica em geral. Não importava se a máquina de lavar não funcionava, ou a televisão, ou algo parecido, depois tudo voltava a funcionar novamente, e eu achava aquilo muito interessante (GD 2_m, 39; destaque d. V.).

Para as meninas, este modelo funciona de forma inversa. A partir do exemplo das mães, são apresentadas a elas estratégias a partir de uma duplicidade de papéis para experiências mais ou menos bem sucedidas. Assim, são transmitidos diversos princípios básicos de uma consciência de gênero relativamente complexa, em especial, o fato de que mulheres podem desenvolver competências tecnológicas, porém, estas não podem ser demonstradas ou vividas – e, caso o sejam, apenas dentro de contextos limitados. Desta forma, o interesse técnico consciente nas mulheres só é possível em situações de exceção.

Num primeiro momento, tal situação parece ser uma vantagem muito grande para os meninos. Porém, suas aptidões podem se transformar rapidamente em formas de marcação, o que, pelo menos de forma parcial, podem ser relacionadas a formas sutis de violência. E então, como criança pequena, você já sente a pressão. [...] ‘isto você não pode. Você deve fazer isto e deve fazer aquilo’. E, de uma certa forma, você sempre fica marcado. Então, no seu meio, eles te dizem ‘o índio não conhece a dor’. Assim, como menino, você fica pressionado. E isto, eles te servem [desde cedo], já no café da manhã. E continua até à noite. Estes detalhes já vêm de casa. [...] uma situação dessas dói, quando você vive aquilo durante todo o dia. E, assim, você tem que vencer as dificuldades (GD 2_m, 195; destaque, d.V.).

Estas formas de socialização primária intrafamiliar continuam nos processos educativos ou durante a formação. Porém, no caso da escola, um deslocamento de ênfase fica visível: primeiro, no que se refere às matérias técnicas. É exigido das meninas um menor nível de interesse, entendimento e, conseqüentemente, empenho operacional. Permite-se a elas a aprendizagem do conhecimento, mas não a compreensão básica. Inúmeros relatos aparecem como exemplo do entendimento básico androcêntrico. Na melhor das hipóteses, as meninas têm êxito com a estratégia do silêncio desajeitado – “Ela ia saber, se eu tivesse perguntado” (GD 8_w, 198). As experiências educativas, nas quais tais diferenciações são percebidas aberta e permanentemente pelos outros estudantes, colocam a pedra fundamental para a construção de um Manual de como ser dependente, do qual provavelmente poucas delas conseguem escapar.

O exemplo a seguir ilustra quais dificuldades as meninas têm de enfrentar num ambiente de ensino dominado pelos homens. Uma participante se lembra de como ela teve de enfrentar o professor

(...) eu era a única menina no curso de informática e quando eu pedi uma informação a ele, ele simplesmente tirou o teclado da minha mão quando eu falei para ele que eu mesma queria fazer aquilo (GD 4_w, 45).

Como elas não dispõem de conhecimentos mais profundos, são excluídas de cursos para os quais são exigidos conhecimentos prévios. Tais conhecimentos são praticamente presumidos nos meninos, sendo considerados evidentes. As meninas já muito cedo experienciam que, nas matérias técnicas, não se aprende os conteúdos a partir do zero, mas que estes são construídos a partir de uma base prévia de conhecimentos práticos, que são aprimorados buscando formas de aplicação. Assim, os meninos de uma maneira geral têm a oportunidade de se tornar um Peers e viver o seu interesse técnico. Tal fato traz duas conseqüências principais, que mais tarde, durante os estudos, se destacam ainda mais. Primeiro, os meninos adquirem os pré-conhecimentos, o que lhes permite vantagens para iniciar cursos técnicos. Segundo, a permanência nos domínios dos meninos ou homens significa que estes não são obrigados a explicar-se com sua própria sexualidade. Isto explica porque, mais tarde na universidade, os interesses e atitudes de homens e mulheres se diferenciem fundamentalmente:

Aqui já tem a diferença. E se você faz aquilo durante dez anos, digamos dos dez até os vinte, então os meninos se ocupam assim, e você se ocupa de outra forma; é assim mesmo. E, assim, treina-se muito mais, então este procedimento na programação lógica (GD 7_w, 246; destaque, d.V.).

O resultado essencial aqui não é que homens e mulheres desenvolvem outras estratégias para resolver problemas, mas que eles o fazem em domínios de gênero heterogêneos. Isto, no fundo, tem como conseqüência a cegueira para com o próprio gênero e uma grande incompreensão para com a estrutura de pensamento do gênero oposto.

3.2. A formação de interesses que conduzem as ações na juventude.

“As mulheres pensam de uma forma mais complicada e os homens possuem um pensamento mais técnico.”

Compreender a forma e a maneira de ver o mundo é importante para que se possa entender melhor as diferenças entre os sexos. Uma participante descreveu de uma forma muito interessante como, no seu entender, os gêneros se diferenciam. Ela tem a impressão

(...) que simplesmente se encara as coisas de uma forma diferente, sim, eu pessoalmente, e também mais assim, como vou dizer, olho mais [...] os contextos ou as [...], também as pessoas, com as quais lido, como vou explicar isto? Que a gente, não assim, não assim, [...] simplesmente continua olhando, bem, então apenas, apenas o pequeno ponto, a tarefa, que deve, que deve ser cumprida, porém também com o que esta tem a ver. Eu tenho a impressão, que na maioria das vezes, no mundo dos homens, aquilo não é visto desta forma (GD 1_w, 11; destaque, d. V.).

Reconhece-se que também existem homens “que possuem algo dos dois lados” (GD 6_m, 42), porém não se questiona a existência de duas esferas de pensar basicamente diferentes e quase completamente incompatíveis. O modelo de duas culturas, que se baseia numa divisão em uma esfera emocional e outra racional, fica ratificado tanto pelos homens quanto pelas mulheres (especialmente quando se indica as exceções e modelos especiais), ou seja, o discurso existente sobre técnicas específicas para os gêneros é reproduzido13. Tal modelo conduz a percepção e é o bias elementar para categorizar as próprias experiências. Assim, também são conduzidos e influenciados, de uma forma decisiva, as orientações coletivas ou os ambientes de experiências conjuntivas.

As mulheres do sample acreditam que os homens, tendencialmente, possuem um “checker lógico” (GD 7_w, 222). A eles se atribui afinidade com o pensamento estrutural, enquanto as mulheres preferem se concentrar em processos. Uma participante vê aqui o motivo da dificuldade em matérias que envolvem programação, que são elementares nos cursos da área de Mídias Digitais. “Para tal coisa não tenho a visão lógica, para programação. Reproduzir aquilo sozinha, inserir qualquer estrutura” (GD 7_w, 219). As chamadas estruturas de pensamento não são a conseqüência necessária de interesses técnicos marcados diferentemente, contudo são a sua base. Como critério diferencial subjetivo entre estudantes femininos e masculinos na área Mídias Digitais se entende o “insuficiente interesse básico” das mulheres. Os meninos, entretanto, ocupam uma “posição de descobridor”, porque eles têm a capacidade de reconhecer as oportunidades de aproveitamento dos computadores, enquanto as mulheres são cegas para tal fato:

O interesse é estimulado mais cedo [...], se começa com On-line Games, sei lá. E depois se pode‚ que bacana, posso escrever um Script, então posso modificar no arquivo alguma coisa.’ Uma mulher nunca tem uma idéia dessas, que isto é possível (GD 2_m; 45).

Na visão dos homens, o interesse básico no computador por parte dos meninos é um fator quase automático. Tal postura se agrava até atingir o limite de um posicionamento básico fatalista, e evidencia ainda mais, a seletividade da própria percepção: “Não se consegue fugir daquilo“ (GD 5_m, 75). Partindo deste “ponto de vista determinista” ocorre a descoberta e a ampliação do próprio interesse técnico de uma forma lúdica. Em um determinado ponto de transição, o acesso através de brincadeiras infantis se transforma em um interesse sério e adulto: “A vontade de brincar acabou e o interesse na tecnologia aumentou mais” (GD 5_w, 78).

No caso masculino, um elemento do interesse técnico consciente é a maior probabilidade dos mesmos repetirem durante os estudos experiências flow (associando suas experiências ótimas infantis com sua atual ocupação com a técnica). A partir daí, pode-se inferir que meninos e homens freqüentemente se “doam” completamente àquilo que fazem, vivenciando-as como “flow”; enquanto meninas e mulheres seguem um princípio pragmático de aprendizagem e de trabalho:

Durante o estudo é assim, uma grande parte das colegas […] simplesmente fizeram o seu trabalho, enquanto notei nos colegas, que muitos deles, por exemplo, demonstraram na programação, realmente interesse verdadeiro, vindo de dentro, ou coisa parecida, enquanto para a maioria das mulheres, de uma certa forma, era terminar o trabalho, ou seja “bom agora aprendo programar, porque o estudo deve ser aproveitado e terminado, porém, as minhas prioridades são outras“ (GD 3_w, 102; destaque, d. V.).

Por esta linha argumentativa temos que, aqueles com maiores possibilidades de desenvolver o interesse técnico consciente são os que, na infância, foram confrontados com exemplos tecnológicos, sendo induzidos a ter experiências técnicas. Tais indivíduos desenvolvem um maior potencial técnico de trabalho. Eis a idéia fundamental da metáfora da focalização14.

É perceptível a presença de mulheres em cursos técnicos, porém, as suas competências são reconhecidas sob determinadas condições básicas, portanto os homens se vêem como os atores, cujas decisões e ações seguem uma lógica transparente. Para isto é utilizado o termo da idéia fundamental, ou seja, a existência de um “fio condutor”, de onde resulta que todos os passos individuais se fundem num conjunto lógico. Esta idéia fundamental “passa” pela vida toda, os homens reconhecem aqui a posse de uma competência de planejamento, a qual eles negam às mulheres.

Através da construção de um fio condutor como idéia fundamental (motivação pessoal), confere-se aos homens a capacidade para uma atividade autodeterminada e produção de soluções objetivas para problemas. Já para as mulheres, são atribuídas qualidades não concretas e não óbvias. As motivações pessoais que geram o interesse técnico consciente dos homens, posteriormente, farão surgir o ideal profissional. Ambos “naturalmente” combinam. Ao contrário, no caso das mulheres estes pólos devem ser adaptados “artificialmente”. Neste aspecto, ainda fica visível uma outra possibilidade de diferenciação: os homens encaram com maior tranqüilidade a idéia de não haver limites entre as esferas profissional e particular, o seu interesse se deixa canalizar não somente em um campo de trabalho, mas preenche toda a sua existência.

A argumentação em torno do fenômeno das motivações pessoais se agrava porque as mesmas são preponderantes para formação da identidade. Afirma-se que a personalidade feminina não é propícia para o desenvolvimento do interesse técnico consciente. As motivações pessoais são, portanto, o argumento legítimo do qual se deduz a decisão pelo curso futuro. Os homens afirmam que suas motivações pessoais, a partir de seu interesse técnico consciente, definiram de maneira “lógica” a escolha de suas futuras carreiras, isto explica também a competência profissional.

Esta forma masculina de ver o mundo negligencia que as motivações pessoais dos homens não são “naturais”, nem autodeterminantes, ignorando que toda sua argumentação, entretanto, baseia-se praticamente numa ficção.

3.3. Hipóteses cotidianas relevantes do gênero sobre potenciais de aproveitamento técnico

“Eles nunca queriam nada com isto.”

Os homens do sample dizem que as mulheres geralmente possuem uma extrema orientação pragmática de aproveitamento. Isto significa desistir de consultar contextos técnicos mais profundos e do interesse em aplicações adequadas para a prática, contrastando com a otimização do desempenho de aplicações. No dia-a-dia existem, além do computador, outros exemplos marcantes:

As mulheres registram isto de uma forma bem diferente como, por exemplo, como você usa aquilo. [...] Novo telefone, novas funções, ahhhh, conversar livremente, maravilhoso, alcance não sei até onde. E a mulher pensa, ahhhh, sem fio! O que faço com aquilo?“ (GD 6_m, 32-36)

Tratando com problemas, pode significar esquivar-se rapidamente de problemas. Mediante este interesse na solução de problemas técnicos, os homens desenvolvem, normalmente, o conhecimento. Descobertas novas se acumulam até a formação de uma base de conhecimentos prévios que aumentam as chances de sucesso nos estudos. Como mostra o seguinte exemplo:

Enquanto os homens geralmente se interessam de forma extrema quem vai programar o vídeo, as mulheres normalmente se contentam se este de alguma forma funciona. Esta é uma destas diferenças. A minha amiga liga o vídeo e este funciona. Não sei, quantas vezes me ocupo com este negócio e mexo nele, tiro alguma coisa dele e coloco outra coisa e experimento aqui e ali. Elas nem estão interessadas naquilo. O importante é que funciona.“ (GD 9_m, 157; destaque, d. V.)

O ponto central do estudo da área Mídias Digitais é o computador. Especialmente durante o seu uso, as hipóteses quotidianas sobre potenciais de aproveitamento da técnica ficam bem evidentes. O computador pode ser tudo, da “caixa“, instrumento de trabalho e até o objeto de identificação. A identificação máxima com este artefato é exigida como requisito mínimo para homens, para ser aceito como estudante “legítimo”.

A postura mais pragmática feminina gera suspeita nos homens. As mulheres na sua auto-retratação demonstram menos entusiasmo, portanto mais capacidade de integração com o ambiente a sua volta:

Você faz isso junto com outras coisas, toma também um cafezinho ou fuma um cigarro e fica clicando. Quero dizer, os meninos estão mais aplicados, tudo que fica em volta vem depois [...] Na maioria das vezes também vejo, normalmente também a televisão está ligada ou você fica no telefone ou coisa parecida. Mas realmente, que você somente fica na frente do PC e se concentra apenas no jogo, é raro. [...] Bom, no mínimo, normalmente sempre toca ainda uma música.“ (GD 7_w, 279-282)

Na maior parte das vezes, os homens cresceram com um maior número de interações com a técnica, enquanto as mulheres, no dia-a-dia, a enfrentaram de uma forma completamente diferente. Como os homens cresceram em contato com a técnica e, em especial com o computador, o envolvimento dos estudantes com a mesma tem “uma outra qualidade“ (GD 6_m, 41). As exigências nos cursos devem preparar para situações na profissão. Assim fica pouco provável fugir da Lógica do inevitável, que se encontra no ajuste dos diversos elos de uma corrente – afinidade técnica por socialização masculina, formação do interesse técnico consciente, estudo para adquirir competência, exercício de uma profissão “adequada“. A maioria dos homens do sample analisado se localizam claramente dentro de um dos vários níveis que compõem este processo: ao decidir estudar na Fachhochschule Furtwangen, a transição da afinidade técnica foi efetuada até a auto-realização.

3.4. Procura da auto-realização mediante a escolha do curso

“Assim um pouco de vocação artística, criativa
e também alguma coisa técnica.”

A chave para entender a complexidade da identidade de gênero inconsciente se encontra na multiplicidade de razões para a escolha do curso. As mulheres com freqüência, surpreendentemente, procuram mais que os homens um campo em que possam viver os interesses artísticos ou criativos precedentes. Para todos os interessados em criação, a FHF oferece “uma boa alternativa“ (GD 7_w, 162). Muitas vezes, a relação é mais ou menos ocasional: “Na verdade queria mais a área de design, porém, fui parar aqui” (GD 7_w, 9). A escolha do curso e da cidade vira um jogo aberto. As mulheres encaram seus estudos, não só com menos preocupações como também com mais entusiasmo. Refletem menos no início do estudo, quais conhecimentos prévios precisam e quais as exigências solicitadas, e a sua perspectiva se concentra mais nas oportunidades de poder aprender algo novo e interessante. Enquanto os homens, em virtude do seu maior interesse por ocupações técnicas, vêem no curso a possibilidade de concretizar a sua “vontade de montar”, as mulheres se entusiasmam com as possibilidades na formação do seu próprio futuro. Elas sempre se sentem “obrigadas” a se confirmar por causa de experiências de socialização. No seguinte trecho, esta forma de carreira por ambição fica evidente.

Achei engraçado, comigo no curso básico de informática só tinha três meninas e especialmente por causa disso desenvolvi uma espécie de ambição, de ser melhor que os meninos, porque os meninos desde o início falaram‚ ‘de qualquer maneira, vocês meninas não sabem fazer isto’. E eu não era uma aluna tão ruim e ai veio a ambição de manter a minha posição e me impor perante os meninos.“ (GD 8_w, 47; destaque, d. V.)

As mulheres então visam legitimar seus interesses mediante estudos que as profissionalizem. Enquanto a escolha para os homens é apenas um pequeno passo dentro de uma cadeia inteira de dependências lógicas e efeitos resultantes, para as mulheres este passo tem dois significados: Primeiro tem ligação com o desejo de poder desenvolver corretamente as próprias capacidades, e segundo, com a expectativa de encontrar na faculdade um ambiente propício para este fim. Para os homens, o ponto forte é a ligação das experiências existentes com o aperfeiçoamento como recurso para um salto na carreira.

Exatamente aqui se diferenciam homens e mulheres: As mulheres possuem menos ou nenhuma experiência prévia, elas não têm a intenção de “pular um nível na carreira“ (GD 2_m, 22), o que importa, a princípio, é participar. A sua ambição não se direciona para uma carreira, de preferência rápida (e impressionante), mas para uma participação bem sucedida e, conseqüentemente, a confirmação das estimativas sobre a própria pessoa. Igualmente para as mulheres o aspecto de aprendizagem antecipado é o ponto forte. Mas aprender também significa “poder aprender”, portanto, não precisando possuir conhecimentos prévios. Para os homens vale a ligação com experiências anteriores, para as mulheres o desenvolvimento.

Acho, cheguei aqui, me matriculei, perguntei logo, preciso de conhecimentos prévios? Vou precisar de um computador já logo de início? Sem aquilo não sou ninguém? Me falaram que ’não’. Também acho isto melhor. Vou conseguir e vou aprender isto. Quero aprender isto. Você vai se esforçar um pouco, mostrar interesse. (GD 7_w, 305-308; destaque, d.V.)

Para os homens chama a atenção os fatores interesse, diversão, imitação de ideais e antecipação de independência. Para muitos participantes a decisão de estudar em Furtwangen na área Mídias Digitais era “em todo caso, evidente” (GD 5_m, 74), o que se encaixa perfeitamente nas explicações que naturalizam a formação do interesse técnico. Eles se sentem bem preparados para as futuras exigências no exercício de sua profissão. Os estudantes optam por esta linha de estudos com base em uma auto-estima elevada, que se vê nas observações cotidianas perante os outros. Na afirmação: “Agora estou aqui, porque pensei que entendia alguma coisa de computadores“ (GD 9_m, 4) se reflete tanto a atribuição da competência como a ficção da naturalidade.

Apesar de todas as diferenças, também há aspectos em comum. São destacadas por homens e mulheres as combinações possíveis dos cursos, ou seja, o fato de que todos eles na área de Mídias Digitais baseiam nas três “colunas”: técnica, criação e economia. Tal combinação não só se mostra praticável, como também atinge seu “ápice”, como demonstra o seguinte trecho:

A escolha do meu estudo foi influenciada no sentido que procurei uma combinação, portanto não somente informática pura, que apenas vou programar, queria uma combinação de informática, de criação – queria também fazer algo artístico. E o lado econômico também não é tão supérfluo (GD 9_m, 28).

Nos cursos se encontram aqueles que consideram cursos de informática pura “muito secos“ ou “muito complicados“, que não se vêem possibilitados, apesar do interesse em criação, de passar no exame de admissão numa faculdade de artes e de design e que consideram a economia um suplemento útil no currículo da qualificação profissional. Todos os estudantes são unânimes no que diz respeito à vontade para praticar. Com isto, se distanciam dos estudantes, por exemplo, das universidades.

3.5. Experiências coletivas relevantes de gênero durante os estudos

“Você aprende 80 por cento, em realidade,
na residência estudantil e 20 por cento aqui”.

As falas em relação aos estudos são ilustrações de depoimentos típicos que servem à valorização própria e refletem diferenças específicas de gênero. O comentário de um estudante: “Estou fazendo isto certo. Não chego aqui e faço corpo mole ou coisa parecida, eu realmente estudo.” (GD 5_m, 141) sublinha a serenidade com relação ao cumprimento de seu papel. Em oposição, os homens atribuem às suas colegas uma opinião que uma vez Hesse, com elegância literária, chamou de “Beliscar nas faculdades“15. Eles confrontam a imagem do cumprimento pragmático das obrigações com a imagem do “verdadeiro” e “honesto” interesse, da paixão dos homens na “totalidade” e no “real”. Neste contexto ocorrem processos coletivos surpreendentes entre homens e mulheres.

Por causa da necessidade de compensar o déficit de coordenação no nível institucional, do nível relativamente elevado na colocação das tarefas ou simplesmente por motivo da enorme demanda de tempo, os grupos de aprendizagem e de trabalho ocupam um papel particularmente importante, onde durante o tempo livre fora da faculdade (por exemplo, na residência dos estudantes) se trabalha em conjunto. Grupos de estudo e de trabalho homogêneos em relação ao sexo aqui são extremamente raros. As mulheres admitem abertamente, que elas na sua percepção do outro sexo realmente observam o critério competência, porque “se percebe, que eles ainda sabem mais. [...] E assim de uma certa forma se procura os homens, porque simplesmente se pensa, que deles ainda se pode aprender alguma coisa” (GD 4_w, 108). O que importa para elas é a ampliação do seu horizonte de conhecimento, elas conhecem o seu déficit e o querem compensar. Para isto, elas vêem no estudo um local legítimo. Para os homens, isto nem sempre é uma posição neutra, “porque as mulheres se aproveitam muito, […] aqui elas têm a força […] Esta é a arma feminina […] com certeza” (GD 3_m, 175-178). Métodos de formação de grupos, portanto, são abertos ou encobertos, mas sempre ligados à atribuição de competências.

Assuntos entre homens são facilmente encontrados, porque interesses comuns são suficientes e existem praticamente per definitionem. Assuntos meramente profissionais são considerados sem graça para as mulheres. Conforme elas, não são os interesses e sim os valores os fatores que estimulam o contato. “Eu acho os assuntos de caráter pessoais mais importantes [...] você sempre acha alguém, que em relação a assuntos pessoais, pensa como você” (GD 7_w, 572). Valores divididos em comum, não mundos divididos obrigatoriamente em comum, são aqui a base das amizades. Num segundo momento, pode-se entender tais declarações como depoimentos típicos, onde ocorre somente uma inversão da perspectiva, já que os requisitos de fundo não se diferenciam ao todo daqueles dos homens. Demonstração de competência não as impressiona, amizades não são escolhidas evidentemente conforme critérios meramente funcionais, mesmo assim não se pode desistir ao todo do conhecimento que alguém “traz junto”.

Eu considero então os valores pessoais e aquilo, que trazem de conhecimentos [...] se eu precisar de alguma ajuda ou algo parecido [...] Mas a princípio observo mais os valores pessoais (GD 7_w, 543; destaque, d.V.).

Neste contexto, existem riscos para a coerência específicos por gênero: Além do medo geral, de que uma outra pessoa poderia ser mais competente (profissionalmente), existe para os homens outra forma específica de medo, “que nós como mulheres seriamos então, exatamente iguais, como eles“ (GD 7_w, 493). A imagem coerente da própria identidade masculina parece estar em extremo perigo por causa desta idéia. Para se precaver, os homens desenvolvem métodos de observação sutis no diaa- dia para compensar competências e a sua classificação. O permanente benchmarking das competências ao nível de pessoas passa pelas formas coletivas e evita formas de relacionamentos neutras em relação ao gênero. Situações comprometendo a coerência na imagem que se tem das mulheres encontram-se ligadas com a convivência mais ou menos freqüente com colegas femininas ou com professores (as). Mesmo assim, as mulheres fazem questão em constatar, que o estudo em companhia dos homens para elas também é uma preparação para o período após o estudo. Dá a elas a chance de se adaptar a situações de competição similares. A sua cooperação com os homens, portanto, é vista como forma de exercício, onde elas têm que cuidar,

que não se subordinem demais aos homens e, apesar disso, ainda se impõem (.) pode e também simplesmente diz, olhe, sou uma mulher, mas também sei fazer igual. Estudo a mesma coisa e quero aprender que nem você, mesmo que você já tenha uma noção prévia (GD 7_w, 18-23).

Por causa da latência desta forma de competição ocorrem microconfrontações no dia-a-dia, que provocam efeitos visíveis no comportamento. As mulheres aqui, principalmente, encontram dificuldades com o fenômeno da assistência imposta. Somente recebem ajuda pagando o preço de sua competência ser sensivelmente menosprezada, ou seja, os homens as deixam sentir e saber que são eles que dominam o “entendimento”. Realmente existem os enclaves de conhecimento, nas quais as mulheres não participam de forma alguma; “círculos de homens”, que querem e por vezes conseguem, existir “sem mulheres”: “Isto é masculino e permanece masculino e vocês não podem participar [...]. E também não existe o interesse de ensinar algo às mulheres” (GD 7_w, 263). Estes grupos de special interest homogêneos em relação ao gênero tentam continuar vivendo as suas próprias experiências de socialização nos domínios técnicos controlados por homens, mesmo contra a possibilidade de formas coletivas diferenciadas por gênero. Os estudantes convivem então, ou com uma divisão estratégica, ou com um ambiente de “cooperação mútua”, em que há o estabelecimento de zonas de intransparência.

3.6. Percepção e atribuição da competência como experiência de aculturação

“Se percebe, que os homens afinal sabem mais”.

É valido afirmar que ambos os gêneros conhecem as elevadas exigências relacionadas aos estudos. Durante este tempo, eles devem “se virar” e “ralar” (GD 5_m, 175). Assim os cursos são classificados, pelo menos superficialmente, como igualmente adequados para homens e mulheres: “Ambos conseguem concluir os estudos” (GD 5_m, 53). Exigências de competência são estabelecidos já no início dos mesmos. No seu decorrer, porém, se mostra que o ambiente de aprendizagem não é um ambiente neutro, mas que pelo contrário, são institucionalizadas diferenças de gênero.

Durante os estudos a atribuição mútua de competência é de grande importância. Aqui, as mulheres fazem uma experiência marcante: mais ou menos abertamente lhes é atribuída incompetência. Uma participante conta de uma situação que descreve de uma forma ideal típica:

Sei lá, quando um cara senta do meu lado e nós copiamos algo do quadro-negro, ambos a mesma coisa, e ele não consegue ler algo e me pergunta, ‘sabe o que é isso?’ e eu lhe digo. Poderia ser errado, o que lhe digo, sou uma mulher. Eu não tenho noção daquilo, que está escrito lá. Aí, ainda olha para o lado esquerdo. Quando deste lado dele senta um cara, ele pergunta mais uma vez. ‘É verdade que isto se chama assim? É realmente aquilo?’ (GD 7_w, 512).

Constata-se que existe uma tendência para que as mulheres se subestimem em relação às suas competências técnicas e para que os homens se superestimem a partir deste pano de fundo. “Existem muitas, que acham, que não são tão boas assim e os meninos imaginam que são mega-bons” (GD 8_w, 270). Estes exemplos de percepção já se consolidaram parcialmente como elemento do discurso geral. A percepção da competência das mulheres por homens não se baseia então, de forma alguma, em capacidades reais, mas na reprodução de clichês, estereótipos e preconceitos. Esta forma da dissonância cognitiva entre uma consciência do desempenho intelectual próprio e o menosprezo de sua competência por parte dos homens irrita as mulheres quando entram na faculdade.

A competência ou é negada às mulheres, ou submetida a uma prova minuciosa. Nos homens a competência é considerada simples e automaticamente um pré-requisito. Por este motivo as estudantes têm a impressão de ter que se afirmar, não somente perante os seus colegas, mas também perante os seus professores. Esta não é apenas uma observação marginal, sendo notada pelas estudantes como algo que deixa marcas profundas em sua existência: “Deve-se mostrar talento ou dedicação para também ter, digamos, o direito de poder estar aqui” (GD 1_w, 17; destaque, d.V.). Independente de desempenhos concretos, as mulheres no início de seus estudos devem se submeter a um ritual de apreciação, cujas regras obedecem à tradição de campos técnicos patriarcais. Elas vivenciam então, de forma essencialmente mais consciente que os homens o seu papel gênero, o que não implica em uma maior consciência de gênero, mas simplesmente que elas têm mais oportunidades involuntárias para isto.

Mesmo que as mulheres considerem os fatos do posicionamento obrigatório “objetivamente”, como extremamente inadequados e inaceitáveis, na prática elas tentam cumprir as exigências impostas ao seu comportamento em relação ao seu papel. Esforços pela integração devem ser praticados, e isso significa, muitas vezes, se submeter a modelos de ação masculinos. Como fruto de tal processo de assimilação central, desenvolve-se a mais importante experiência específica do gênero em relação a este estudo: as mulheres assumem inconscientemente exemplos de interpretação e critérios de relevância masculinos. Esta condição de adaptação é a execução verdadeira da aculturação durante os estudos. Mulheres, na verdade, não querem se “adaptar“, percebem, porém, que “assumem traços masculinos“ (GD 7_w, 503).

Experiências prévias e interesse no reconhecimento específico associado ao gênero (“aplicar” contra “aprender”) podem ser convertidos de diversas maneiras durante os estudos. Seletividades extremamente marcantes e específicas por gênero ocorrem durante a escolha de seminários ou tarefas, que podem ser localizadas ao longo do eixo “Programar - Criar”. Precisamente neste ponto, os estudantes da FHF percebem “que ocorre uma certa divisão” (GD 9_m, 141). Esta divisão em duas partes é considerada por muitos, praticamente inevitável. A especificação atribuída por gênero se mostra bem na seguinte afirmação: “Os meninos o realizam, mas as mulheres criam tudo” (GD 7_w, 22). As mulheres utilizam o computador ou as aplicações “para fazer alguma coisa concreta” (a.a.O.). Para isto, os cursos na área Mídias Digitais oferecem a plataforma ideal, porque os conteúdos em si possuem uma indiferença temática ou são formulados de forma positiva: marcados pela neutralidade. A “mídia” da “informática de mídias” por este motivo, desperta precisamente as idéias relativas à aplicação, que são interessantes em especial para as mulheres. A técnica faz parte do estudo, porém, ela pode temporariamente ficar em segundo plano: “É obvio que aqui também se usa o computador, mas se usa apenas em função disto” (a.a.O.). Este contexto é altamente virulento quando se considera, que as mulheres em um curso, como por exemplo, informática de mídias, teriam a chance de sair da sua sombra. Embora pareça que os modelos dos papéis durante a sua socialização em conjunto com inúmeras experiências frustradas e tentativas de compensação, levaram para uma permanência a nível superior. Na divisão “em áreas de interesse”, não na participação completa, a idéia da igualdade se realiza apenas pela metade.

As diferenciações recém-feitas valem somente na forma ideal típica, portanto, não são mais do que tendências. Por este motivo, é importante observar as exceções à regra, ou seja, as mulheres ou homens atípicos e a maneira como eles se localizam na disposição dos gêneros. Dois tipos de exceções devem ser diferenciados: a) Homens que se interessam pela criação. Isto não é problemático de jeito nenhum, porque é considerada uma competência complementar. b) As mulheres que se interessam pela programação ou técnica em geral. Aqui se trata de um caso especial que precisa ser esclarecido. Quando mulheres “penetram“ nos domínios masculinos e aprendem uma “profissão masculina” (GD 9_m, 68), tal fato ainda hoje provoca irritações, sobre as quais não se fala abertamente, portanto são expressas em comentários sutis. Competências, perceptíveis de forma explicita, de mulheres são imediatamente limitadas. O método utilizado é a atribuição da pluralidade da competência e do deslocamento da competência. Sem dúvida, a competência técnica é atribuída quando, por exemplo, uma mulher se encarrega da direção de um curso. Simultaneamente se supõe que mulheres também utilizam a sua competência natural feminina = social, apresentando ao mesmo tempo uma “tarefa de educação“. Assim se efetua um nivelamento, que tem como conseqüência que as mulheres ao todo parecem ser menos competentes.

3.7. Planejamento da profissão e da vida com “ponto de cristalização” para as diferenças entre os gêneros

“Cedo inicia o pensamento racional”.

Diferenças entre os gêneros durante os estudos não representam um papel de destaque, pelo menos no nível retórico, na visão de homens e mulheres. Porém, como foi mostrado anteriormente, de fato eles explicitaram as diferenças, conforme alguns exemplos marcantes. Isto evidencia que a faculdade ainda é um “ambiente refratário à discussão de gênero“. As diferenças entre os sexos se tornam de fato evidentes, mas somente parcialmente eficazes.

É diferente quando se trata da transição para a profissão. Em relação ao tema do planejamento da vida e da carreira é exposto um conflito mais amplo entre homens e mulheres, que não se refere mais apenas ao entendimento de conteúdos, mas realmente à organização de formas de vida, níveis de aspiração e idéias desejadas. Sobretudo, aqui não se trata de relacionamentos em grupo senão de parcerias íntimas e os métodos de discussão relacionados. Nas suas opiniões em relação à família e autodecisão de formar uma família, homens e mulheres do sample se diferenciam radicalmente.

Para o planejamento familiar, independente do tipo de mulher, a incompatibilidade fundamental de períodos longos de estudo e formação com as condições básicas biológicas do planejamento familiar, apresenta-se como problema. O desejo de ter filhos foi formulado com bastante cautela por parte das participantes. Embora o estudo seja considerado uma garantia pela maioria das mulheres, o planejamento da carreira com base neles é apresentado de uma forma não tão objetiva e veemente, como no caso dos homens. As mulheres antecipam em cada ponto da sua carreira, que alguma coisa “poderia acontecer“ (GD 1_w, 18). Nas mesmas condições de carreira, se negam a pensar como homens. Mesmo que se encontrem mais exemplos de pensamento tradicional no centro da potencial estratégia de soluções para a incompatibilidade profissional e familiar – “ainda tem a avó”; (GD 7_w, 391) –, de qualquer modo, os estudos e a profissão terão um significado diferente do que os que são atribuídos pelos homens, no caso delas ainda representam uma oportunidade. A oportunidade se refere, neste caso, evidentemente apenas à liberação da dependência do pai.

Os homens antecipam a imagem refletida e reproduzem assim as obrigações normativas. No caso deles, a argumentação contorna o dogma da obrigação para a responsabilidade. Porque eles se vêem no “papel do provedor”, eles se sentem em desvantagem perante as mulheres nas suas possibilidades de escolha. Um típico comentário é o seguinte: “Aqui nós temos outra vez outras obrigações. Nós temos que representar o papel do provedor. Por este motivo nós temos que fazer as coisas“ (GD 2_m, 254; destaque, d.V.). Este modo de pensar não fica sem conseqüências para o relacionamento entre os sexos. O ponto diferenciado aqui é que, justo na combinação de graus adicionais de liberdade para mulheres e a obrigatoriedade de modelos masculinos de vida, ocorrem esta multiplicidade de disposições de vida, que são a base para o modo de argumentar (“selffulfilling prophecy“). Num determinado ponto da discussão em grupo com estudantes masculinos, que estão por concluir o seu estudo, esta argumentação pode ser muito bem representada na seguinte metáfora:

Mas nós já respondemos […] este ‘tem que’ aparecer muitas vezes. ‘Tem que’ significa uma obrigação. Vocês não querem, vocês devem. Então, eu também devo. Ou seja, então de fora vêm uma pressão para cima de nós, ou seja, emprego, carreira, qualquer outra coisa, isto sempre aparece, este tem que, que de fora vem uma certa pressão, eu tenho que fazer aquilo agora, para que eu o consiga de alguma forma. […] Como homem você tem um motivo de dizer, ‘ok, eu tenho que acelerar. Eu tenho que conseguir alguma coisa’. Ou eu preciso me erguer primeiro e depois, este tem que consta na frase de todos aqui. Por este motivo, provavelmente já respondemos. Esta obrigação que vem de fora. Você é um homem. Você tem que fazer. Então, refletir conscientemente sobre isto, provavelmente ninguém ainda fez. Nós sempre o fizemos, porque somos homens (GD 2_m, 149; destaque, d.V.).

Enquanto nas mulheres se pode reconhecer um planejamento prospectivo (“Cedo se desenvolve o pensamento racional“), os homens evidentemente se preocupam menos, eles não dispõem de “um plano concreto“ (GD 9_m, 87). Em relação ao tema da compatibilidade familiar e profissional, os homens, diferente das mulheres, focalizam com mais evidência os exemplos negativos da própria rede social, eles sentem “na pele, o que é um cargo desgastante“ (GD2_m, 112). As mulheres procuraram por exemplos positivos que demonstrem “que é possível” conciliar evolução profissional com formação de uma família. Os homens, no entanto, arriscam tudo. Eles “separaram brutalmente“ profissão e família. Eles não se imaginam na tarefa de “adicionalmente, ainda educar filhos. […] Assim não se consegue trabalhar direito, ou sofre o emprego ou os filhos“ (GD 2_m, 112).

Mesmo que a retórica da igualdade seja reconhecidamente familiar aos homens, eles dão prioridade para a profissão e para o desenvolvimento da sua carreira. A tese da obrigatoriedade aqui é um fator de legitimação para estabelecer as suas prioridades. A maioria dos homens do sample não tem planos, que incluam uma união estável. Eles dão, evidentemente, prioridade à própria carreira perante os outros modelos de vida. O seguinte trecho ilustra a metáfora de “acelerar“ e “aumentar a velocidade“:

Eu devo, nos próximos anos, quando saio novamente, primeiro acelerar, me reerguer financeiramente, porque a grana sumiu depois de tantos anos de estudo. E, aí, eu não posso dizer, está bom, fico em casa. No momento, nem posso imaginar isto. Mas também tenho que dizer brutalmente, não, não posso imaginar. Não tenho vontade para isto. E também não posso imaginar no momento dizer, tenho uma família ou quaisquer ambições neste sentido. Neste momento somente quero terminar, quero me erguer, acelerar, ver, se consigo me reerguer financeiramente e conseguir um bom emprego, que me satisfaça.“ (GD 2_m, 124; destaque, d.V.)

Para as mulheres, a carreira se define de uma forma diferente. Aqui o destaque não é “acelerar“, mas a possibilidade de ampliar o próprio horizonte dos conhecimentos e, eventualmente, ainda curtir aquilo. Aqui também se mostra novamente que, para as mulheres, a profissão assim como os estudos (vide acima), têm uma função que serve para a auto-estima, que se expressa na vontade de aprender, na própria evolução e ampliação do horizonte. Para os homens, a profissão parece ocupar mais uma função que serve para o status. De modo especial, os homens se vêem limitados no aperfeiçoamento das relações e das disposições de vida. Nota-se, principalmente, que eles comparam estes modelos facultativos sob aspectos de rentabilidade. Desta forma, o sucesso é declarado um dividendo de disposições de vida pessoais e hábeis “egoísmos engrenados”. Aqui, se encontram no centro das atenções diversos “modelos de investimento”. Não existem facilidades positivas para homens; eles se vêem como cumpridores de uma norma, que limita as suas possibilidades de ação e mesmo suas opções, que, dentro desta obrigatoriedade, parecem perturbar os homens e irritá-los. De modo geral existe, apesar de todas as diferenças entre homens e mulheres para o tema planejamento da vida, um grande ponto de nivelamento.

A crescente pressão em relação a resultados pode ser visto como mecanismo de nivelamento de diferenças entre os gêneros: Pelas exigências crescentes no mercado de trabalho, por causa da redução dos postos de emprego, as diferenças entre os sexos na perspectiva dos / das participantes são niveladas, “pelo fato, que por este motivo meninos ou meninas devemse empenhar ou se virar mais, para conseguir qualquer coisa, isto fica completamente igual“ (GD 5_m, 175). Portanto, homens e mulheres são solicitados por igual devido ao elevado nível das exigências durante os estudos e a complicada situação no mercado de trabalho. As tendências de individualização há muito tempo influenciam o currículo e os planejamentos da geração pesquisada.

Uma observação sumária conclusiva dos relacionamentos entre os gêneros na transição para a profissão tem como resultado, que no atual momento, mais do que nunca, trata-se de alianças e não mais de diferenças. Isto explica, por que, pelo menos no nível retórico, é destacada a pouca importância dos gêneros – tanto para homens como para mulheres.

4. A COMPLEXIDADE DA IDENTIDADE INCONSCIENTE DE GÊNERO

“Então para mim o problema é assim,
de ter uma opinião tão precisa para tal assunto”.

Foi descrita uma cadeia de efeitos, na qual, no final, consta uma consciência de gênero extremamente complexa e ao mesmo tempo inconsciente. Este sincronismo de franqueza de um lado e de insegurança do outro lado, porém, é exatamente o resultado central da análise das discussões em grupo.

Percebe-se entre os atores e atrizes que compõem este campo heterogêneo uma cegueira no que diz respeito ao gênero. Em parte, isto se deve à focalização em “resultados”, o que leva à formação de alianças independentes do gênero – apesar de todas as diferenças menores e disposições de comportamento, como por exemplo, na formação de grupos. Tais diferenças típicas são minimizadas retoricamente ou banalizadas, tanto quanto se pode. Por causa de obrigatoriedade antecipada ou real de se autoafirmar, acontece um nivelamento das diferenças entre os sexos, porque “na verdade importa, o quanto se é bom ou ruim“ (GD 4_w, 9). Para se descobrir o gênero, faz-se necessária uma contextualização. Uma das possíveis contextualizações é o domínio da identidade antes do gênero.

Na antecipação da situação profissional e do próprio planejamento da vida, portanto, o gênero tem um papel importante. Por este motivo, a profissão pode ser considerada o “ponto de cristalização“ deste processo. A atenção prospectiva, com a qual é considerado o tema gênero na vida profissional, não é confrontada com uma atenção no mesmo nível para o contexto dos estudos. Na percepção dos / das participantes, tal período ainda se parece mais ou menos com um “ambiente refratário à discussão de gênero“.

As opiniões em relação ao próprio gênero são amplamente inconscientes e ao mesmo tempo complexas. O tema é considerado irrelevante no contexto dos estudantes participantes, especialmente entre os homens, porque “não tem nada a ver com o meu curso“ (GD 3_m, 16). Na verdade, eles nunca vivenciaram as relações de gênero de uma forma consciente. É um dado já posto, ao qual quase não se dá importância.

Mesmo que mulheres (vide acima) considerem muitos aspectos do seu papel de gênero como limitações para o planejamento da sua vida, e a planejem, conseqüentemente, de uma forma prospectiva, também elas não têm consciência de gênero em relação ao contexto dos seus estudos: Aqui elas sentem “tudo misturado“ (GD 7_w, 147). Diferenças essenciais não são perceptíveis para elas: “Apenas se percebeu, são outras pessoas, outra gente mas, na comparação, ou seja a partir do comportamento, então, bem, é praticamente paralelo.“ (GD 4_w, 140).

O motivo para a complexidade da identidade inconsciente de gênero é a existência uma sensibilidade elevada, perceptível por todos, para os papéis sociais masculinos e femininos, que não está apoiada em exemplos de orientação confiáveis. Os homens foram quase unânimes ao se queixar da eliminação de regras claras, com possibilidades de orientação e modelos de comportamento. Para eles, o dia-a-dia do doing gender se tornou contingente. Num trecho central, o participante o expressa da seguinte forma:

Acredito, então para mim o problema é algo assim, de ter possivelmente uma opinião tão precisa referente àquilo, que em algum lugar, tais regras sempre acho mais solto ou assim, que antes de uma certa maneira era mais estruturado, assim mais regulado, bom, você, as tuas possibilidades estão em tal ou tais áreas e você um dia vai fazer aquilo e (.) não começa, inventar aqui algumas historias, senão tudo estava de uma certa forma um pouco imposto e eu acho, que neste sentido mudou completamente, que praticamente cada um fica livre para tudo.“ (GD 5_m, 87; destaque, d.V.)

Por causa da ampla ausência do outro gênero durante a socialização em “domínios masculinos“, suas hipóteses e evidências para os papéis de homens e mulheres, até o início dos estudos, quase não foram questionadas. Contudo se podia formar hipóteses baseadas na ficção de naturalidade da própria ação.

Para os homens são anuladas, então, evidências fundamentais da autolocalização com relação aos seus papéis. Modos comportamentais típicos por gênero se desfazem; mulheres “colonizam“ domínios masculinos. Durante os estudos conta o resultado, o empenho. Conseqüentemente, homens são obrigados a assumir simultaneamente modelos de comportamento velhos e novos, e devem se desenvolver novamente na área intermediária entre exigências normativas e realidades alteradas. Este sincronismo constitui a complexidade inconsciente.

Como modelo explicativo mais popular para a complexidade dos relacionamentos entre os gêneros, sempre deve servir a “gigantesca máquina da sociedade“ (GD 3_m, 253-254). É surpreendente que aqui os tipos das explicações de homens e mulheres são muito parecidos, o que pode ser interpretado como indício de uma perplexidade coletiva. Isto pode ser constatado a partir dos resultados das discussões em grupo, ou seja, uma continuação dos papéis de cada gênero vindo de longa data, mas também a sua eliminação parcial, sendo que ambos os mecanismos provocam mal-estar.

Resumindo: O desconforto percebido nos participantes da discussão ocorre por causa da discrepância nos potenciais de alteração, socialmente desejados e refletidos, e da capacidade de persistência de realidades de fato e normativas. No processo de socialização emerge a afinidade técnica dos homens a partir das atividades lúdicas, permitindo a eles as experiências ótimas, porque o interesse técnico (re-) vivido leva sucessivamente à formação de competências, que na sua totalidade se fundem em um modelo de assimilação da realidade e domínio do mundo. A afinidade técnica se torna assim para os homens uma atividade simbólica, importante para a constituição de sua identidade.

Às mulheres são transmitidos outros modelos de uma consciência de gênero complexa, demonstrada pela maneira de viver estratégias a partir de uma duplicidade de papéis para experiências mais ou menos bem sucedidas. Estas incluem a convivência ambivalente com a própria competência, que quando existe, pode ser vivida somente de forma limitada. A falta de clareza sobre critérios de êxito nas mulheres e a atribuição de um entendimento básico androcêntrico, provam que são atribuídas menos competências às meninas. Elas têm menos chances de evidenciar o contrário e são obrigadas à estratégia do silêncio. Aqui se encontra um elemento constitutivo de indução à dependência, formando um contraste forte em relação às experiências prematuras dos meninos.

A marcação que os homens recebem neste processo, não é considerada por eles permanentemente vantajosa, mas vêem aqui também uma limitação das suas possibilidades de escolha. Tal ambivalência se acentua no método da socialização secundária. Marcante para os homens também é a homogeneidade dos gêneros na aquisição do conhecimento, de onde pode ser deduzida a sua cegueira para com o tema.

Nas discussões em grupo, a divisão em duas partes das estruturas de pensamento estabelecidas na socialização se manifesta realmente como “ambiente de experiências conjuntivas”. Têm efeitos diferentes para homens e mulheres. A convicção de poder fazer dos homens, a sua “mentalidade de descobridor”, é reforçada principalmente durante os estudos. Eles seguem uma idéia, em que consta a ficção da naturalidade dos seus interesses e a escolha do curso, bem como a conformidade das próprias competências. Baseadas no fato de verem frustrados seus direitos de encontrar nos estudos um espaço que lhes permita o aprendizado sem conhecimentos prévios, as mulheres repetem, neste mesmo período, experiências anteriores de decepção com relação a competências consideradas masculinas. Ao contrário, surge para elas uma dissonância cognitiva entre a consciência da própria capacidade intelectual e do não reconhecimento das suas competências.

Durante os estudos em si, ficam em primeiro plano, nos métodos de formação de grupos, o permanente benchmarking das competências entre os estudantes. Homens e mulheres se diferenciam aqui somente de forma gradual. Por causa da latência das formas de competição, a coletivização ocorre ao longo de uma linha de ajuda e criação de zonas de intransparência e enclaves seletivos de dons. Ao mesmo tempo, a focalização em resultados gera um nivelamento das diferenças entre os gêneros, ratificado principalmente pelos resultados da adaptação das mulheres.

Assim, o ambiente de estudo ainda se apresenta como ambiente refratário às discussões de gênero, em que as diferenças entre os mesmos se tornam eficazes apenas parcialmente. A entrada na profissão, porém, é vista por ambos como ponto de cristalização, mas em níveis de complexidade diferenciado. Principalmente para as mulheres, a própria sexualidade tem um papel importante, que ainda nesta fase leva a um planejamento prospectivo da vida. Como ideal valem para elas aqui exemplos positivos, considerando também o potencial de flexibilidade do campo de trabalho, no qual elas se formaram. Os homens focalizam mais facilmente exemplos negativos e reduzem o seu planejamento da vida para um planejamento da carreira que serve para o status. Assim, eles antecipam obrigações normativas e se submetem a um processo de insegurança profundo em relação à formação do seu papel como homens.

De um lado, então, fica evidente que diferenças entre os gêneros cada vez mais se tornam menores dando margem ao surgimento freqüente de alianças. Por outro lado, ainda faltam alternativas e modelos reais que seriam satisfatórios para homens e mulheres. As soluções provisórias sempre conduzem a uma emancipação situacional e modelos de planejamento da vida difíceis de operacionalizar, que se submetem a uma variedade de considerações de rentabilidade. No geral, isto compõe a complexidade da identidade inconsciente de gênero.

REFERÊNCIAS

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WELLER, Wivian (2003): HipHop in Sao Paulo und Berlin. Ästhetische Praxis und Ausgrenzungserfahrungen junger Schwarzer und Migranten. Opladen. (Hip Hop em São Paulo e Berlim)

 

NOTAS

1
Tradução de Christl Rosemarie Stoltenhoff. Revisão técnica de Samara Feitosa e Valter Cardoso da Silva.

2
Durante o mesmo período, foi realizada uma análise similar em relação ao conteúdo e método, no Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná (hoje UTFPR), parceira da Fachhochschule Furtwangen.

3
Este trabalho quer focar a análise das representações coletivas – em função disto falta aqui espaço para a discussão dos requisitos metodológicos necessários. Para uma análise mais aprofundada do método documentário ver LOOS e SCHÄFFER, 2001. As (os) pesquisadoras (es) do GETEC e TANGENS se reuniram para uma troca de experiências em maio de 2004 em Curitiba (Brasil). Neste encontro foram discutidas as questões práticas em relação à pesquisa.

4
Esta idéia vem do método documentário do próprio Mannheim, a partir do qual o pré-requisito para o auto-reconhecimento é a existência social (MANNHEIM, 1980). Hipóteses meta teóricas similares sobre a confrontação de idéias individuais e condições sociais básicas constam no Interacionismo Simbólico de Mead (1995) – ver a categoria “o outro generalizado” ou “intersubjetividade mundana” de Schütz (1993).

5
A questão aberta inicial era: “O que significa para a Sra. (Sr.), no contexto do seu estudo, ser mulher (homem)”.

6
O ponto inicial da formação da teoria da justificativa do objeto tem a sua base nos trabalhos de Corbin e Strauss (1990) e Strauss (1998).

7
Referente à relevância nas ciências sociais, ver Schütz (1982).

8
Os estudantes foram escolhidos entre os participantes de eventos da área mídias digitais. Para cada discussão em grupo foi disponibilizado um período de 90 minutos. Tais discussões foram registradas de forma digital e a seguir transcritas.

9
No presente texto, ambas as etapas de avaliação foram incluídas em forma amalgamada.

10
Aqui, imitação e repetição são mecanismos elementares da reconstrução social da realidade. Mesmo que a vida como uma eterna repetição de repetições (GOFFMAN, 1991), seja altamente funcional, os atores também devem tentar sempre reproduzir individualmente as condições básicas da própria existência. Tal fato se obtém por repetição ritualizada por nós mesmos em cadeias de imitação e práticas de ação personalizadas.

11
O código dos trechos das transcrições é o seguinte: número da discussão em grupo, indicação do sexo das (os) participantes, trecho citado.

12
Faz-se referência ao conceito sóciopsicológico da experiência ótima de Mihaly Csikszentmihaly (2003). A brincadeira concentrada e atenta é uma experiência primária de Flow (estado de experiência ótima). A tese seria de que os indivíduos, em média, querem repetir mais vezes esta experiência e, com base nisso, se formam as respectivas orientações valorativas.

13
Corneliussen consegue na Noruega um resultado similar (2004), o qual durante uma pesquisa de campo de três meses observou 7 estudantes masculinos e 21 estudantes femininos no Department for Humanistic Informatics na Universidade de Bergen na Noruega.

14
Nas análises das discussões, em especial das discussões em grupo, ficou evidente, que determinados trechos apresentam uma densidade altamente interativa ou metafórica. Conforme Bohnsack (2000) se trata de indicadores, que apresentam um ambiente de experiências comuns e manifestam um exemplo de orientações coletivas.

15
Hermann Hesse (1971): O jogo das contas de vidro. Frankfurt a.M., 71.(No Brasil publicado pela Editora Dom Quixote).

* · Mestre em Sociologia, Filosofia, Antropologia e Literatura Portuguesa pela Universidade de Bonn (Alemanha) e Doutorado em Sociologia pela Universidade de North Rhine-Westphalia (Alemanha). Professor de Sociologia na Fachhochschule (University of Applied Sciences) Villingen-Schwenningen (Alemanha). (selke.st@web.de).

Gênero entre estudantes de tecnologia brasileiros /as e alemães /ãs : uma comparação
A Comparative Study of Gender between Brazilian and German Technology Students

Marilia Gomes de Carvalho*
Samara Feitosa**
Valter Cardoso da Silva***

Resumo

Foi realizada uma pesquisa com alunos do Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná, CEFET - PR, em 2004, e alunos da Fachhochschule Furtwangen - FHF, Alemanha, em 2003, cujo objetivo foi discutir gênero nos cursos da área tecnológica. A pesquisa foi qualitativa e seguiu os mesmos procedimentos no Brasil e na Alemanha. Os resultados da pesquisa trazem temas como: habilidades técnicas x dependência; a transversalidade do gênero no curso e na profissão; o homem provedor; diferenças de gênero e competência profissional e; gênero e diversidade cultural. Em ambos os países os padrões tradicionais de gênero estão transformação. O aumento do número de mulheres nestes cursos não tem alterado as relações desiguais de gênero nos dois países.

Palavras-chave: Gênero, Educação tecnológica, Diversidade cultural.

Abstract

A comparative research study was done involving students from Parana´s Federal Technology Education Center – CEFET-PR (Brazil, 2004) and students from the Fachhochschule Furtwangen, FHF (Germany, 2003) with the objective of discussing gender in technology domain courses. The research method was mostly qualitative and the same procedures used in Germany were followed step by step in Brazil. The results of the study brought up to discussion themes such as technical habilities, dependency, gender transversality in the course as well as in the profession, man as “provider”, gender differences and professional competency and gender and cultural diversity. In both countries there is an ongoing transformation in the traditional patterns of gender. The increased number of women´s enrollments in technological oriented courses did not have an impact in the unequality of gender treatment in both countries.

Keywords: Gender, Technological Education, Cultural Diversity.

O objetivo deste artigo é explorar semelhanças e diferenças que surgiram nas representações dos/as estudantes brasileiros/ as e alemães/ãs relativas ao gênero nos cursos de tecnologia e na profissão. No Brasil o estudo foi feito no antigo Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná, hoje, Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR, nos cursos de Tecnologia em Móveis e Artes Gráficas. Na Alemanha, a pesquisa foi realizada entre alunos e alunas do Curso de Tecnologia em Mídias Digitais da Fachhochschule, em Furtwangen - FHF1.

Não se pode negar a importância que os conceitos de cultura, habitus e gênero têm na compreensão das representações e identidades individuais e coletivas2. É consenso nas ciências humanas a idéia de que o seu objeto de estudo é cultural. Entre as muitas implicações de tal afirmação, pode-se dizer que os indivíduos, apesar de sua base biológica, têm seu comportamento marcado pelas condições sociais do meio. Isto coloca os cientistas sociais diante de um imenso leque de possibilidades que se expressa através de uma multiplicidade de situações e manifestações de comportamentos humanos. Sob esta ótica, a diversidade de práticas sociais constitui o elemento que dá unidade à espécie humana.

Por esta razão, antes de tratar diretamente do tema aqui explicitado, torna-se importante expor algumas características histórico-culturais do Brasil e da Alemanha. Esta breve exposição ajudará o leitor a colocar em perspectiva as diferenças culturais entre estes dois povos que, com certeza, interferem nas representações e práticas sociais relacionadas ao gênero nos cursos de tecnologia dos/ as jovens que participaram deste estudo.

1. Brasil e Alemanha: breve abordagem históricocultural3

Uma das muitas formas de apreensão do complexo universo composto pelas várias culturas humanas é a forma como as mesmas se relacionam com a concepção de tempo e espaço e como, a partir desta percepção, organizam a realização de suas tarefas cotidianas (HALL e HALL, 1990). Para algumas culturas o tempo é apreendido de forma linear, o que leva seus integrantes a se dedicarem a uma única atividade de cada vez. Esta seria a característica de um sistema monocrônico (Tempo M). Segundo Hall e Hall é difícil para os povos que têm a concepção monocrônica de tempo realizar diversas tarefas ao mesmo tempo4. Da mesma forma, estas culturas se caracterizam por uma rigidez com relação ao tempo que dificulta para os indivíduos comportamentos mais flexíveis quanto a horários e estabelecimentos de prazos. De acordo com estas análises, um exemplo de cultura monocrônica seria a alemã.

No entanto, pode-se perceber que outros povos se ocupam de diversas tarefas simultaneamente, isto é, conseguem fazer várias atividades ao mesmo tempo, o que as caracterizaria como um sistema policrônico (Tempo P). Nesta classificação o Brasil, juntamente com outras culturas latinas, seria um exemplo deste tipo de sistema.

Comparação entre sistemas monocrônicos e policrônicos:


Fonte: Adaptado a partir de HALL e HALL, p. 49/50.

 

O quadro anterior não deve ser tomado literalmente. Serve, no entanto, para que mais adiante ilumine considerações referentes à base empírica deste estudo. Em seguida serão apresentados alguns elementos característicos das culturas brasileira e alemã.

O resgate histórico do processo de colonização é fundamental para a análise da cultura brasileira. Inserido no contexto de expansão do capitalismo mercantilista5 europeu dos séculos XV e XVI, este processo colocou em contato os três grupos étnicos que serviram de base para a formação do povo brasileiro: portugueses, indígenas e africanos6.

Mesmo evitando reducionismos economicistas, não se pode deixar de considerar que foram razões econômicas as que trouxeram os portugueses para o Brasil e, mais tarde, os fizeram tentar se utilizar do trabalho escravo dos povos indígenas primeiramente e, frente ao insucesso de tal empreitada, posteriormente buscar a solução do problema da mãode- obra na exploração nas costas africanas para o comércio de escravos (TREVISAN, 2001).

Uma vez em território brasileiro, e frente às condições impostas pela distância da metrópole, os brancos europeus, apesar de seu status e domínio de colonizador, “que por isso podiam impor-se aos indígenas e negros africanos – foram flexíveis em adaptar-se a costumes e práticas destes para garantir seu próprio empreendimento” (TREVISAN, 2001, p. 30).

A miscigenação em larga escala que ocorreu durante todo o processo de colonização pode ser interpretada como uma faceta de tal flexibilidade que, segundo os estudiosos da área, é responsável pela formação da matriz principal do povo brasileiro7.

Contradizendo o mito da democracia racial – que vigora em vários estratos da sociedade brasileira – é importante ressaltar que este processo não se dá de forma harmônica, pois, principalmente em seu período inicial

a sociedade era, de fato, um mero conglomerado de gentes multiétnicas, oriundas da Europa, da África ou de nativos daqui mesmo, ativadas pela mais intensa mestiçagem, pelo genocídio mais brutal na dizimação dos povos tribais e pelo etnocídio radical na descaracterização cultural dos contingentes indígenas e africanos (RIBEIRO, 1995, p. 448).

A partir deste pano de fundo, forjou-se uma sociedade marcada por antagonismos e contradições, dentre as quais destaca-se a do senhor e do escravo, a qual – mesmo após o processo abolicionista – tem marcas profundas na identidade nacional.

Em meio a este contexto há que se ressaltar o caráter fundante desempenhado pela família, seja em seu papel econômico – na medida em que se constitui a unidade produtora em torno da qual se desenvolveu a economia brasileira durante boa parte da sua história – seja em seu papel de organizadora das relações sociais, já que em torno da mesma se estabeleceram os parâmetros de sociabilidade a partir de uma estrutura patriarcal. Esta define os papéis sociais desempenhados por homens e mulheres nesta mesma sociedade.

Aos homens coube, tradicionalmente, o papel de provedor – senhores dos destinos da família e de seus agregados. Às mulheres, os afazeres domésticos – sendo que também por força da tradição, ocupariam papel de subordinação em relação ao homem (CARVALHO, 1992). Deve-se ressaltar que embora os valores da família patriarcal sejam vigentes ainda hoje, em virtude de transformações econômicas, sociais e políticas seus pressupostos – também com relação a gênero – podem ser questionados e estão sujeitos a mudanças.

Este modelo das relações familiares pode ser estendido a outras esferas do agir inter-pessoal, tais como a política, a religiosa ou econômica. Logo, o patriarcalismo constitui-se também numa das bases de uma sociedade onde “os vínculos de parentesco, ou laços afetivos ou as relações de qualquer natureza com um senhor tornam-se suficientes para garantir privilégios numa sociedade hierarquizada”8 (TREVISAN, 2001, p. 32).

Tem-se então, como característica da cultura brasileira, o caráter singular e preponderante que as relações entre pessoas (protegidas pelas relações pessoais) têm sobre as relações entre indivíduos (sujeitos às leis). Isto porque, na busca por evitar conflitos, institui-se o estilo pessoal nas relações a fim de marcar posições hierárquicas que não se sustentariam numa estrutura social onde os indivíduos seriam considerados naturalmente iguais (DA MATTA, 1980).

Desta forma o Brasil se constitui numa sociedade híbrida não apenas do ponto de vista da miscigenação étnica, mas na própria cultura, visto que os brasileiros via de regra não gostam de reconhecer o conflito, mas utilizam recursos como o “você sabe com quem está falando?” para estabelecer as hierarquias e o poder, mantendo portanto, a desigualdade; utilizam o “jeitinho [brasileiro]” para contornar situações morosas e burocráticas visando obter uma solução pela via do favor e da simpatia (TREVISAN, 2001)9.

As características apontadas acima não esgotam o complexo universo da cultura brasileira, no entanto servem como base para uma discussão de seus desdobramentos na formação das identidades individuais. Com respeito ao gênero, ajudam a compreender as especificidades que marcam as relações entre homens e mulheres em diferentes dimensões da vida social, especialmente no mundo do trabalho e da tecnologia, objeto específico desta investigação.

Com relação ao povo alemão, há que se iniciar apontando para o caráter milenar de sua cultura, cujas origens remontam aos primórdios da Idade Média, ainda sob o reinado do imperador Carlos Magno. Esse povo é fruto da síntese de várias etnias, embora não seja mais possível perceber diferenças entre elas10.

A criação de seu Estado Nação – na segunda metade do século XIX – constituiu-se em um marco para a história da Alemanha, não apenas em termos políticos, mas também econômicos e culturais. A partir de 1871 e das várias vitórias sobre seus rivais:

(...) a Alemanha, viu-se quase que automaticamente envolvida num rápido processo de recuperação do tempo perdido e na tentativa de ultrapassar as grandes potências européias mais antigas; sob a pressão dessa rivalidade, encontrou-se na voragem de um acelerado processo de modernização que imprimiu um impulso decisivo aos grupos especializados da economia, às classes médias industriais e comerciais e à força de trabalho industrial (ELIAS apud TREVISAN, 2001, p. 40).

Do período da unificação – década de 1870 – até a Primeira Guerra Mundial, pode-se afirmar que a cultura alemã, principalmente no que tange à formação de valores, passou por uma espécie de deslocamento: dos ideais aristocráticos da nobreza para praticidade utilitarista da burguesia – de uma conduta que tinha por base a honra para outra que se ancorava na virtude.

No período entre guerras foram gestadas as condições para o surgimento e ascensão do nazifascismo. Nas palavras de Elias:

A repugnância sentida por muitos alemães quando, após o (...) desaparecimento [do Kaiser], se encontraram pela primeira vez diante da tarefa de decidir, sem o supremo comandante-chefe, sem suas ordens vindas de cima, por quem deveriam ser governados, não foi fruto somente de que o horror suscitado pelos “pobres”, os trabalhadores, também tinham agora o direito de participar no governo e de que, por conseguinte, homens de baixa categoria estavam exercendo funções governamentais. A reação desses alemães era, ao mesmo tempo, uma expressão do fato de que, de súbito uma figura central na cena social com quem a estrutura da personalidade deles, estava sintonizada já não estava mais ali. O seu lugar fora tomado por figuras que não correspondiam nem à estrutura da personalidade nem ao tipo de código de comportamento que eram os deles (ELIAS, apud TREVISAN, 2001, p. 42-43).

Muitos analistas explicam através deste contexto a ascensão de Hitler, do nazismo e o advento da Segunda Guerra. Toda esta conjuntura teria na sua origem “essa relativa dificuldade de conviver com conflitos parlamentares associada ao desejo de muitos alemães de um governante que centralizasse o poder, possuindo força e grandeza capaz de protegê-los de si mesmos e de seus inimigos” (TREVISAN, 2001, p. 43).

No entanto, tais sonhos e projetos se viram frustrados através dos eventos do final da Segunda Guerra: além da fragorosa derrota, viram seu território ser dividido em dois países, um deles – A Alemanha Oriental – sob regime socialista.

Já a Alemanha Ocidental passou por um rápido processo de reconstrução onde, no espaço de apenas algumas décadas, teve sua economia alçada ao grupo dos países mais ricos do mundo. Com a derrocada do socialismo real no leste europeu foi a protagonista do processo de reunificação da atual Alemanha.

Esta conjuntura histórica conturbada repercutiu profundamente sobre a cultura alemã. Um dos efeitos marcantes foi a ascensão do catolicismo que se traduziu inclusive como proposta política. A democracia cristã alemã apontava para a efetivação do modelo liberal. Destaque-se que neste momento a juventude alemã assume uma postura de negação dos valores das gerações anteriores. Neles os horrores do período nazista forjaram “um ethos muito acentuado de resistência à desigualdade, à opressão, à exploração e à guerra, e a favor de um novo tipo de decência entre os seres humanos” (ELIAS apud TREVISAN, 2001, p. 45).

Os antigos valores foram associados ao contexto nazista e por muitos são vistos como ultrapassados. No entanto, segundo os estudiosos da cultura alemã, tal fenômeno gerou uma certa carência na formação de sua identidade.

Faz-se necessário então, levantar tópicos específicos sobre alguns valores da cultura alemã: por exemplo, o indivíduo deve assumir suas responsabilidades perante o grupo. Assim “o homem deve ter a coragem de ser individual, de não recuar diante de suas responsabilidades e diante das decisões a tomar” (PATEAU, apud TREVISAN, p. 46).

Em suas práticas cotidianas, os alemães tendem a respeitar acordos estabelecidos. Seu estilo de comunicação é explícito e direto e a prática da discussão é amplamente utilizada para a construção de consensos.

Metódicos em suas tarefas, dedicam grandes parcelas de tempo na execução das mesmas, o que às vezes pode ser tomado como falta de criatividade. Exatidão, pontualidade e rigor são consideradas virtudes essenciais, principalmente no ambiente profissional, onde as relações devem ser impessoais e distantes. A privacidade é um valor extremamente importante. Seja na família ou nas amizades, o espaço pessoal sempre é respeitado. Os pesquisadores apontam que, em virtude de uma forte necessidade de adequação, os parâmetros para a ação estão centrados nas regras e não nas relações interpessoais (TREVISAN, 2001).

Conforme já foi mencionado, não se pretendeu esgotar através do levantamento de tais características o riquíssimo repertório das duas culturas abordadas. O objetivo foi apenas apresentar a moldura onde está inserida a base empírica deste estudo. A seguir passar-seá às considerações gerais sobre as pesquisas realizadas no Brasil e Alemanha, para depois fazermos comparações entre as representações de gênero de estudantes alemães e brasileiros.

2. Considerações gerais sobre as pesquisas11

Ambas as pesquisas partiram da idéia de que o número de mulheres nos cursos da área técnica é pequeno quando comparado ao número de homens. Entre as muitas indagações que estavam na origem deste estudo, as seguintes podem ser destacadas: Como se estabelecem as relações de gênero entre os estudantes e as estudantes dos cursos de tecnologia? Há diferenças de gênero em cursos tecnológicos de diferentes países?

A partir destas indagações, definiu-se a execução de pesquisa qualitativa, com os seguintes objetivos: 1. conhecer as concepções e representações de gênero entre estudantes (homens e mulheres) de cursos de tecnologia; 2. comparar os resultados das investigações realizadas no Brasil e Alemanha.

Os métodos de investigação foram os mesmos nos dois países, a etnometodologia, que consistiu em entrevistas abertas em grupo com pessoas que viveram experiências comuns. Participaram da pesquisa brasileira alunos do sétimo período dos cursos de Tecnologia em Móveis e Tecnologia em Artes Gráficas da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e da pesquisa alemã os alunos do curso de Mídias Digitais da Fchhochschule - Furtwangen (FHF).

Os alunos participantes desta pesquisa podem ser caracterizados, como jovens pertencentes à camada social média, solteiros em sua maioria e com alguma experiência profissional – ainda que somente em estágio12.

Este trabalho se orientou através de duas dimensões fundamentais: uma da cultura e outra de gênero como mostra o modelo a seguir:

A dimensão cultural da pesquisa pode ser observada pelas setas verticais. O campo superior representa o Brasil e o inferior a Alemanha. Já as relações de gênero aparecem representadas pelas setas horizontais, sendo o campo da esquerda o lado feminino e o campo da direita o lado masculino. A comparação foi realizada em quatro níveis:

- entre mulheres brasileiras e mulheres alemãs,
- entre homens brasileiros e homens alemães,
- entre mulheres brasileiras e homens brasileiros e,
- entre mulheres alemãs e homens alemães.

O projeto teve como finalidade chegar a estas comparações através da análise das informações obtidas nas entrevistas com os alunos e alunas, das quais foram consideradas as diferenças de atitudes, as diferenças culturais, bem como os diversos valores e normas que permeiam a sociedade em que estão inseridos.

3. Análise comparativa das representações de gênero entre estudantes brasileiros e alemães13

A abordagem intercultural trouxe uma riqueza para a temática sobre a construção do gênero no meio tecnológico e permitiu comparar questões pertinentes à diversidade cultural e as transformações e permanências nas identidades de gênero que estão ocorrendo.

Sabe-se que o processo de socialização diferenciado para meninos e meninas resulta em padrões de gênero dicotomizados que separa a vida social em duas esferas com características opostas. Apesar da realidade social ser muito mais rica e múltipla do que apenas modelos binários, a construção do masculino e feminino tem seguido esta dicotomia, o que traz problemas de ordem teórica para a adequada interpretação sobre as relações de gênero no mundo atual que é cada vez mais plural e multifacetado14. No entanto, esta dicotomia aparece na realidade social de maneira enfática, especialmente em se tratando do universo tecnológico. Estas influências relacionadas com a socialização são altamente funcionais como resultado de orientação, porque elas ordenam o mundo da vida. Os resultados desta pesquisa assim o confirmam em que pesem as diferenças culturais entre Brasil e Alemanha.

Uma afirmação comum entre os/as estudantes logo no início das entrevistas foi de que não percebiam discriminação ou relações de poder entre as moças e rapazes do Curso. Disseram, também, que não havia diferenças de tratamento entre eles e elas, portanto no curso e na profissão “era tudo a mesma coisa”. Apesar das evidências de diferenças de gênero reveladas pela pesquisa, nas representações dos alunos brasileiros e alemães essas diferenças não foram explicitadas conscientemente. Porém, na seqüência das entrevistas, as diferenças afloraram.

4. Habilidade técnica X dependência

O papel da família assim como as relações e experiências vividas neste âmbito foram fundamentais para a formação dos padrões de gênero entre as pessoas do universo investigado. Na Alemanha, tanto as moças quanto os rapazes admitem que desde tenra idade são direcionados diferentemente para interesses que os aproximam (no caso dos rapazes) ou afastam (no caso das moças) das habilidades técnicas.

De uma forma bem mais nítida que as mulheres, os homens podem procurar o motivo da sua aptidão técnica nas repetidas atividades lúdicas relacionadas com a mesma na infância e juventude. A ocupação nesta área fica relacionada com empolgação, e boas experiências com brinquedos são facilitadas aos meninos através de uma clara divisão dos papéis.

Como observação mais marcante para muitos participantes vale, neste caso, o papel de ídolo do pai, que representa soberania no manuseio da tecnologia (mesmo que domiciliar) e representa conseqüentemente um modelo para o domínio do próprio mundo frágil. A afinidade e o manuseio de artefatos de ponta, porém, pode também ser entendida como estratégia de compensação de conflitos internos e interpessoais. O controle da técnica muitas vezes se transforma em sinônimo de autocontrole.

Neste contexto, as meninas não se orientam da mesma forma. Aprendem com as mães estratégias duplas para a construção de identidades, que poderão a vir a ser mais ou menos bem sucedidas, visto que a cultura alemã é inflexível no que diz respeito ao papel de mãe.

Esta ambivalência (necessidade de conciliar sucesso profissional e tarefas domésticas pertinentes ao seu gênero), que aparece de forma recorrente entre as entrevistadas alemãs, não pode ser percebida entre as brasileiras. Tal silêncio pode ser interpretado de muitas formas, inclusive pela estrutura cultural brasileira que permite às mulheres se valerem do auxilio de babás e empregadas domésticas no exercício das tarefas do lar e no cuidado com os filhos (o que não é possível no caso das alemãs).

Assim, são transmitidos diversos princípios básicos de uma consciência de gênero relativamente complexa, em especial o fato de que podem existir competências técnicas nas mulheres, porém, estas não podem ser demonstradas ou vividas ou o podem somente dentro de um contexto limitado. No caso das mulheres, interesse explícito nesta área somente acontece quando se trata de uma exceção.

Não houve na pesquisa brasileira, falas que permitissem análises que ligassem processo de socialização e afinidades com a técnica. No entanto, esta relação, no Brasil, poderia ser inferida quando algumas informantes afirmam que os meninos teriam uma tendência “natural” com relação às máquinas. Isto poderia ser fruto do processo de socialização. O que aparece nas falas dos estudantes brasileiros, na maior parte das vezes indiretamente, é o seu papel forte na internalização de estereótipos de gênero de origem biológica. Assim, constroem-se identidades já orientadas para a ocupação de espaços públicos e privados, maior uso ou não da objetividade ou subjetividade, etc. de acordo com o sexo. Isto contribui para a manutenção da subordinação feminina.

O desenvolvimento do interesse técnico de forma desigual entre meninos e meninas tem sua continuidade nas escolas alemãs na medida em que as mesmas reforçam ainda mais os interesses masculinos para lidar com equipamentos e conhecimentos técnicos e os interesses femininos para apenas usarem esses equipamentos sem necessariamente compreenderem o seu funcionamento, nem desenvolverem interesse para esta compreensão.

No processo de socialização emerge a afinidade técnica dos homens nas atividades lúdicas, permitindo aos mesmos as experiências agradáveis, porque esse interesse (re-) vivido leva sucessivamente à formação de competências, que na sua totalidade se fundem em um modelo da assimilação da realidade e domínio do mundo. Este processo torna-se para os homens uma atividade simbólica, pela qual os mesmos se reconhecem.

Tais formas de socialização, primária e interfamiliar, continuam na escola ou durante a formação. Porém, aqui fica visível um deslocamento de ênfase: primeiro se exige das meninas menos interesse, entendimento e, conseqüentemente, empenho operacional nas matérias técnicas. Segundo, se espera que as meninas não precisem mostrar empenho verdadeiro, para ter sucesso na escola15. Permite-se a elas o conhecimento aprendido, porém não o entendimento básico. Esta compreensão androcêntrica aparece de forma variada. As experiências educativas em que esta diferenciação é vivida e percebida, de forma aberta e permanente, pelos outros estudantes colocam a pedra fundamental para um Manual de como ser dependente, de onde é provável que poucas meninas consigam fugir. O seguinte exemplo ilustra as dificuldades que as meninas têm que enfrentar em um ambiente de ensino dominado pelos homens. Uma participante lembra, como ela teve que enfrentar o professor: “eu era a única menina no curso de informática e quando eu pedi uma informação a ele, ele simplesmente tirou o teclado da minha mão e eu falei para ele que eu mesma queria fazer aquilo”.

Estas diferenças os/as acompanham pela vida estudantil e quando vão conviver em um mesmo Curso da área tecnológica percebem que os rapazes são mais interessados em desmontar e conhecer os aparelhos e computadores (no caso específico desta pesquisa) enquanto as moças não têm este interesse, mas apenas querem conhecer sua aplicabilidade para poderem deles usufruir. Por exemplo, no caso da Alemanha, eles estão mais ligados em programação e projetos, enquanto elas estão mais interessadas na criação. Eles dizem que elas não estão interessadas no funcionamento dos computadores e elas admitem que os rapazes são melhores técnicos do que elas. Por outro lado, os rapazes dizem que as moças são bem melhores no relacionamento com as pessoas.

Às mulheres é transmitida uma consciência de gênero complexa, o que se demonstra, como já referido, pela maneira, mais ou menos bem sucedida de viver duplas estratégias na construção de modelos de identidade. Estas incluem a convivência ambivalente com a própria competência, que quando existe, pode ser vivida somente de forma limitada. A falta de clareza sobre critérios de êxito para as mulheres e a assimilação de um entendimento básico androcêntrico, implicam em atribuições que exigem menos competência às meninas. Como elas têm menos chances de comprovar o contrário, são obrigadas à estratégia do silêncio. Aqui se encontra um elemento básico para induzi-las a serem dependentes, formando um contraste forte em relação às experiências prematuras dos meninos.

5. A transversalidade do gênero no curso e na profisão

De acordo com Scott, 1995, gênero é uma categoria de análise, através da qual se pode interpretar a vida social e suas diferentes dimensões e manifestações. A sociedade está perpassada pelo gênero e, como tal, não poderia deixar de ser também com as relações entre estudantes nem com as que se estabelecem no mundo do trabalho. Neste caso, costuma-se considerar gênero como um tema transversal das relações sociais.

No Brasil, os depoimentos das mulheres revelaram que elas consideram os homens mais firmes e discretos, observam ainda que eles simplificam as coisas o que agrega valor ao seu trabalho. Eles vão estudar cursos como engenharia porque se dão melhor em áreas técnicas e das ciências exatas. Interessam-se mais para trabalhar com computadores e por programação.

Elas disseram que na vida profissional os homens destacamse mais do que as mulheres. Na área de design, por exemplo, na qual há um número razoável de mulheres, os homens são os profissionais mais reconhecidos. Segundo elas, os homens são mais firmes em suas posições profissionais, são mais discretos, têm idéias “geniais” e eles não complicam os trabalhos, apesar de serem também mais desorganizados e nem sempre terem muito capricho.

A força física foi uma característica masculina bastante citada pelos rapazes (e moças) para apontar as diferenças entre homens e mulheres16. Outras diferenças entre moças e rapazes citadas por eles/elas: os homens têm mais facilidade para lidar com as ciências exatas, com trabalho mecânico, são mais agressivos no trabalho, como por exemplo, na apresentação de um projeto. Por outro lado, as mulheres são mais organizadas. De acordo com a opinião deles, as mulheres têm mais facilidade e mais tato para lidar com o público e trabalham melhor com decoração.

Uma limitação das mulheres de acordo com a percepção masculina foi com relação a conhecimentos técnicos “grande parte das mulheres não gostam de coisas muito minuciosas que têm muitos comandos... mulher vai achar que motor tem válvula de televisão”. Eles disseram que lidam com equipamentos técnicos, porém se ocorrer algum problema não tentam resolver e geralmente recorrem a seus colegas masculinos para pedir ajuda. Segundo eles, é muito difícil encontrar uma mulher que tome a iniciativa de solucionar sozinha este tipo de problema.

Esta percepção coincide com os resultados da pesquisa entre os jovens alemães que se referiram ao já citado Manual de como ser dependente que é construído no processo de socialização das meninas e de onde somente poucas delas conseguem fugir. E justamente porque elas não dispõem destes “pré-requisitos” são excluídas de cursos para os quais futuramente se exigirá conhecimentos mais profundos. Estes conhecimentos são presumidos nos meninos com uma certa evidência. As meninas logo cedo têm a experiência de que, no que se refere às matérias técnicas, terão dificuldades para assimilar e apreender esses conteúdos a partir da base17. Elas terão que desenvolvê-los e construí-los através da prática acadêmica.

No Brasil, uma situação análoga foi reconhecida pelas próprias meninas. As entrevistas revelaram a idéia de que as mulheres são observadas com desconfiança no que se refere ao domínio dos conteúdos específicos de sua área de atuação. No entanto, a análise das entrevistas não permite afirmar que enfrentarão as mesmas dificuldades apontadas pelas alemãs.

Os rapazes da UTFPR acreditam que o homem, pelo menos neste campo de atuação (Curso de Artes Gráficas e Desenho de Móveis), tem que ter uma interação positiva com a tecnologia, creditando o sucesso na profissão à busca e ao domínio de novos conhecimentos. Isto porque consideram moderno e inovador este ramo do mercado não estando, portanto ligado a padrões tradicionais estabelecidos. Como consideram que todas estas características são masculinas, é recorrente a idéia de que os homens têm um melhor desempenho profissional que as mulheres.

A maneira de ver o mundo é importante para melhor entender as diferenças entre os gêneros. Uma participante da pesquisa de FHF descreveu que no trabalho ela olha mais os contextos e também as pessoas com as quais lida. Não vê apenas a tarefa que deve ser cumprida, mas também o seu conjunto “com o que tem a ver a tarefa”.

Os jovens da UTFPR apontam que homens e mulheres possuem diferentes formas de reagir ao stress no ambiente de trabalho, marcadas pelo gênero: as mulheres exprimindo através do choro, os homens através do lúdico.Disseram que as meninas são muito detalhistas, “gostam de complicar as coisas...”. Para eles o ambiente de trabalho em que há muitas mulheres é mais tenso porque elas não conseguem separar questões profissionais de questões pessoais: “a mulher leva tudo pro lado sentimental, qualquer coisinha, se você falar atravessado, ela vai pro banheiro chorar, vai pro canto, tem enxaqueca...”. De acordo com as opiniões deles, “para os homens essas questões são resolvidas de forma mais simples: ficam putos, vão pra um bar, tomam uma cerveja e no dia seguinte está tudo bem”.

Tem-se aqui uma semelhança entre brasileiros e alemães: para ambos o espaço masculino é fechado às mulheres ou, no mínimo, procurase mostrar a superioridade masculina. No Brasil aparece nas entrevistas a idéia de que homens se sentem pouco à vontade em ambientes femininos. Por diferentes motivos a recíproca também é verdadeira.

As mulheres são vistas pelos rapazes em sua maioria como emotivas, sentimentais, sensíveis, delicadas, cuidadosas, mais subjetivas do que os homens. Estas características acarretam algumas conseqüências nas relações de trabalho que podem, por um lado, favorecer o desempenho das mulheres em algumas atividades e, por outro, prejudicar. Por exemplo, a sua sensibilidade e delicadeza são importantes no trabalho com o público, onde elas são mais eficientes. Disseram que esta capacidade de relacionamento faz com que as mulheres consigam galgar posições, ter mais carisma, para outros,

(...) no setor de criação, de concepção de arte, de design a mulher leva teoricamente uma certa vantagem até por questões psicológicas,... é tão da mulher ser lapidada pra ser mais aprazível... ela tem mais percepção pra coisinhas que estão acontecendo no trabalho... ela pode tomar isso como um novo ramo, um novo caminho para criação (...)

Outras qualidades apontadas como femininas e que favorecem o desempenho das mulheres no trabalho foram a organização e uma maior atenção a detalhes e a cores. São eficientes em trabalhos como controle de qualidade, de acabamento, por exemplo, e também no setor financeiro. De acordo com os estudantes brasileiros, elas têm também mais facilidade para trabalhar em redação e mídia.

Os jovens alemães reconhecem que também existem homens, “que possuem algo dos dois lados”. Há que se lembrar que, no caso alemão, esta expressão não traz em si nenhuma referência a comportamentos homossexuais ou a discriminação de gênero. Já no Brasil, tais preconceitos para com aqueles que optam pelos cursos de Desenho de Móveis e Artes Gráficas são recorrentes (note-se que, por serem consideradas “femininas”, estas áreas são alvo de preconceito dentro mesmo da UTFPR). Talvez, por isso, como mecanismo de defesa, os meninos afirmem a modernidade destes campos, o que levaria à quebra dos padrões tradicionais. No entanto, eles deixaram transparecer uma certa consciência de que serão considerados homossexuais devido à profissão que escolheram. Na Alemanha, as mulheres que optam pelos cursos da área tecnológica agem de acordo com padrões de comportamento tipicamente masculinos para poderem competir com seus colegas. Neste caso, são elas que terão de arcar com este tipo de preconceito de gênero.

Porém a existência de duas esferas de pensar basicamente diferentes e quase completamente incompatíveis não é questionada. Na representação dos/as estudantes brasileiros e alemães o modelo de duas culturas, baseado na divisão em uma esfera emocional e outra esfera racional, fica ratificado tanto pelos homens como pelas mulheres.

As alunas da FHF acreditam que os homens possuem uma tendência “natural” ao pensamento lógico. A eles é atribuída uma certa facilidade para pensar em estruturas, enquanto as mulheres preferem se concentrar em processos. Uma das participantes também vê nesta diferença o motivo para as dificuldades na matéria “Programar”, que é elementar para os cursos na área de Mídias Digitais. “Para tal coisa não tenho a visão lógica, para a programação”.

As chamadas estruturas de pensamento não são a conseqüência necessária de interesses técnicos marcados diferentemente para moças e rapazes, contudo são a sua base. Como critério para diferenciar as subjetividades dos estudantes femininos e masculinos na área de Mídias Digitais pode-se apontar um certo desinteresse básico por parte das mulheres.

Os meninos entretanto ocupam uma posição de descobridor, porque eles reconhecem as oportunidades de aproveitamento e aplicação dos computadores, enquanto as mulheres seriam cegas para tal fato, pois “o interesse é estimulado mais cedo (...), se começa com On-line Games, sei lá. E depois se pode, (...) que bacana, posso escrever um Script, então posso modificar no arquivo alguma coisa. Uma mulher nunca tem uma idéia dessas, de que isto é possível”.

A fala acima demonstra a desconfiança dos rapazes em relação à competência das moças. Isto também fica explícito quando atuam em grupos de trabalhos mistos, onde a idéia é de exploração feminina do maior conhecimento masculino na área técnica. No Brasil, ao contrário, a complementaridade parece ser a tônica nestas situações18.

Pela visão dos rapazes alemães, seu interesse por computadores é quase automático. Isto se acentua até atingir um posicionamento fatalista, e evidencia ainda mais a seletividade da própria percepção: “Não se consegue fugir daquilo”. O descobrimento e a ampliação do próprio interesse técnico acontece através de brincadeiras, e em um determinado ponto de transição, o acesso lúdico e infantil se transforma em um interesse sério e adulto: “A vontade de brincar acabou e o interesse na tecnologia aumentou mais”.

Tem-se aqui uma diferença com relação ao caso brasileiro: para estes estudantes o uso da tecnologia está ligado à expressão artística, o que representaria uma ruptura em relação a modelos tradicionais de comportamento, enquanto que, para os estudantes alemães, optar pelo curso de Mídias Digitais representa continuidade e reprodução de papéis e modelos tradicionalmente estabelecidos.

No entanto, a referida “propensão natural” não isenta os entrevistados de ambos os países de certos preconceitos de gênero. Um estudante brasileiro revelou explicitamente que as mulheres não interagem bem com aparelhos e artefatos tecnológicos, sendo este um dos fatores limitantes para sua atuação no mercado de trabalho. “Quem que vai lá abrir a máquina, mexer nas placas pra ver como é que tá, os contatos da placa, desmontar e montar de novo? É difícil as mulheres que fazem isso. Eu particularmente nunca vi nenhuma”. Apontam, no entanto, que existem exceções, já que na maior parte das vezes, na área de artes gráficas, restaria às mulheres o trabalho com redação e atendimento ao público.

No Curso de Tecnologia em Móveis, o fator limitante apontado para as moças nas seleções de estágio e nas poucas experiências no mercado de trabalho foi a já citada falta de força física, quando argumentos científicos foram acionados em diversas situações: “Está cientificamente comprovado que a mulher é fisicamente mais fraca que os homens”. Esta argumentação foi utilizada tanto pelas moças como pelos rapazes, apesar de algumas apontarem para o fato de que nem sempre a força física é necessária e quando o é, elas realmente “carregam móveis pesados pra baixo e pra cima”. Muitas vezes os próprios professores também duvidam da capacidade delas para exercerem esse trabalho19.

A insegurança profissional foi também apontada pelos rapazes como uma característica feminina que dificulta sua afirmação na profissão. Trouxeram exemplos de colegas de curso que não se impõem na defesa de seus projetos e opiniões, não defendem suas idéias com a mesma firmeza e agressividade que os colegas rapazes e não ousam criar nada além do que os professores orientam “(...) tudo quadradinho, bonitinho, bem resolvido, mas é aquilo. Não vai ter diferença... são mais tranqüilas, mais serenas... é um trabalho assim, assim,... sem muita gana”. Eles apontaram suas colegas de curso como mais disciplinadas e estudiosas do que eles “são bem mais dedicadas,... são mais cdf [exageradamente estudiosas] se preocupam com mais antecedência com os trabalhos... a gente faz mais em cima da hora (...)”.Na Alemanha, isto também seria verdade e poderia ser explicado pelo grau de resistência que as mulheres têm de enfrentar nos cursos da área tecnológica.

Constata-se que existe uma tendência das mulheres alemãs em subestimar a elas próprias e a outras mulheres, em relação às suas competências técnicas, enquanto os homens se superestimam. “Existem muitas que acham que não são tão boas assim e os meninos imaginam que são mega-bons”. A percepção da competência das mulheres pelos homens não está baseada de forma alguma em capacidades reais, mas sim em falsificações, clichês e preconceitos.

A competência ou é negada às mulheres ou elas são submetidas a uma prova minuciosa. Nos homens, a competência é considerada simples e automaticamente um pré-requisito. Tanto no Brasil como na Alemanha, aos homens são atribuídas capacidades de autodeterminação e solução objetiva e criativa de problemas, mesmo que os alemães estejam mais ligados à programação. No Brasil, as mulheres seriam responsáveis por soluções menos concretas, teóricas e óbvias20. No caso alemão, são inclusive mais práticas e criativas, gerando suspeitas nos homens. Tal desconfiança não foi detectada na pesquisa brasileira.

As estudantes alemãs têm a impressão de ter que se afirmar não somente perante os seus colegas, mas também perante os seus professores. Isto não é apenas uma observação marginal, mas é fortemente percebido pelas estudantes: “Deve-se mostrar talento ou dedicação para também ter, digamos, o direito de poder estar aqui”. Independente de desempenhos concretos, as mulheres no início dos estudos devem se submeter a um ritual de apreciação, cujas regras obedecem à tradição de campos técnicos patriarcais. As estudantes brasileiras sentem a necessidade de se autoafirmar perante a UTFPR, uma instituição marcadamente masculina.

As mulheres vivem então o seu gênero de forma mais marcante que os homens, o que não é fruto de uma maior consciência do mesmo, mas simplesmente por terem mais oportunidades, mesmo que involuntárias, para isto. Isto não ocorre no caso brasileiro, embora apareça a idéia de que as mulheres devem se esforçar para estarem num espaço reconhecido como masculino.

Mesmo que as mulheres considerem a sua matriz de gênero como extremamente inadequada e inaceitável, elas tentam, no entanto, cumprir as exigências impostas ao seu papel. A absorção destes comportamentos deve ser realizada na forma de submissão a modelos de ação que são masculinos. Aqui se tem a mais importante experiência específica do gênero em relação aos estudos: as mulheres assumem inconscientemente exemplos de interpretação e critérios de relevância masculinos. “As mulheres, na verdade, não querem se ‘adaptar’. Percebem, porém, que assumem traços masculinos”.

Há, contudo exceções à regra, ou seja, homens que se interessam pela criação e mulheres que se interessam por programação. Segundo os alemães, o primeiro caso não é problemático porque é considerado uma competência complementar. O segundo caso é mais complexo. Quando mulheres “penetram” nos domínios masculinos e aprendem uma “profissão masculina”, tal fato ainda hoje provoca irritações. Não se fala abertamente sobre isto, mas elas são manifestadas em comentários sutis. Competências de mulheres que são perceptíveis explicitamente são imediatamente limitadas.

O método utilizado é a atribuição da pluralidade da competência e do seu deslocamento. Sem dúvida, a competência técnica é reconhecida, quando, por exemplo, uma mulher é encarregada da regência de um curso. Simultaneamente se supõe, que mulheres também utilizam a sua competência “natural” feminina = social, apresentando ao mesmo tempo uma “tarefa de educação”. Assim se efetua um nivelamento, que tem como conseqüência o fato de que as mulheres, ao todo, parecem ser menos competentes.

No caso brasileiro, a discriminação para com a mulher surgiu com relação à preferência pelos rapazes para estágio ou colocação no mercado de trabalho. Vários casos foram citados por eles e por elas de que anúncios solicitando estágios não especificavam o sexo, porém no momento da seleção dos candidatos, mesmo quando a moça tinha melhor currículo ou competência, quem conseguia a contratação era sempre o rapaz. Os próprios rapazes reconheceram que para a mulher “se dar bem profissionalmente ela tem que ser muito mais competente do que os homens”.

Segundo eles, as mulheres estão hoje conquistando muitos espaços no mercado de trabalho, mas esta conquista ainda é muito mais difícil para elas do que para os homens “ela briga duas vezes pra chegar e se impor. A imposição do homem é muito mais simples”.

Há uma consciência entre os rapazes de que a sociedade está passando por um processo de transição, saindo de uma conjuntura em que as mulheres viviam em situações de submissão, onde os homens tinham muitos direitos que não eram estendidos a elas. Esta influência histórica ainda está presente entre ambos os sexos, como aponta um estudante brasileiro que afirma “(...) o sentimento [ de superioridade masculina] ainda está embutido na sociedade (...) tanto dos homens quanto das mulheres (...) existe muita mulher machista (...)”.

A fala anterior parece demonstrar que, se por um lado, os estudantes alemães parecem ter um maior sentido para suas experiências de socialização na formação de suas capacidades específicas, por outro, os brasileiros parecem reconhecer melhor o contexto histórico onde suas aptidões profissionais estão sendo formadas, são capazes de apontar tendências a transformações no mercado (que parecem ser pensadas como positivas).

De qualquer forma, as entrevistadas admitem a possibilidade de, com o tempo, as mulheres alcançarem reconhecimento nos ambientes masculinos. A conquista do espaço se daria, segundo elas, pela demonstração de sua competência ou pelo uso da diferença como estratégia de aproximação, onde as características femininas cativariam a afetividade masculina “... eles vão conhecendo, vão vendo como é o teu trabalho, aí começam a respeitar você, não só como profissional, mas também como pessoa; daí você conquistou o teu espaço, entendeu?”.

Esta alegação não significa que tenha havido alguma mudança nas relações de dominação de gênero. O que houve foi uma adaptação a uma situação igualmente repressiva, como na Alemanha. A diferença é que lá as estudantes adotam o comportamento masculino para imporem a sua competência, enquanto que aqui, algumas recorrem às suas qualidades femininas, como por exemplo “sedução”, para conquistarem seu espaço profissional. Por outro lado, houve também relatos de brasileiras que apontaram para o temor de uma certa “masculinização”, na medida em que o desempenho de determinadas atividades que exigem força física colocaria em xeque sua feminilidade. Vê-se assim que há situações que ainda sofrem pressões dos estereótipos tradicionais.

6. O homem provedor: semelhanças e diferenças de gênero nos dois países pesquisados

Com relação ao papel masculino na sociedade, os homens alemães e brasileiros concordam com o fato de que é responsabilidade masculina o trabalho e o sustento da família. Esta representação foi expressa por eles de maneira diferente, porém este é um papel que, sem dúvida alguma, faz parte da construção da identidade masculina em ambos os países.

Entre os rapazes alemães a argumentação gira em torno do dogma da obrigação para a responsabilidade. Porque eles se vêem no “papel do provedor”, eles se sentem em desvantagem perante as mulheres nas suas possibilidades de escolha. Um típico comentário é o seguinte: “Aqui nós temos outra vez outras obrigações. Nós temos que representar o papel daquele que sustenta. Por este motivo nós temos que fazer as coisas”. Este modo de pensar traz conseqüências para o relacionamento entre homens e mulheres. Isto pode ser representado pela seguinte metáfora extraída da discussão de um dos grupos de estudantes masculinos que estavam por concluir os seus estudos:

(…) este ‘tem que’ aparece muitas vezes. ‘Tem que’ significa uma obrigação. Vocês não querem, vocês devem. Então, eu também devo. Ou seja, então de fora vêm uma pressão para cima de nós, ou seja, emprego, carreira, qualquer outra coisa, isto sempre aparece, este tem que, que de fora vem uma certa pressão, eu tenho que fazer aquilo agora, para que eu o consiga de alguma forma. […] Como homem você tem um motivo de dizer, ‘ok, eu tenho que acelerar. Eu tenho que conseguir alguma coisa’. Ou eu preciso me erguer primeiro e depois, este tem que consta na frase de todos aqui. Por este motivo, provavelmente já respondemos. Esta obrigação que vem de fora. Você é um homem. Você tem que fazer. Então, refletir conscientemente sobre isto, provavelmente ninguém ainda fez. Nós sempre o fizemos, porque somos homem.

Esta “obrigação” foi apresentada como uma carga pesada através da qual eles devem direcionar as suas vidas, não conseguindo compatibilizar tarefas profissionais com tarefas familiares. Por esta razão a maioria deles não tem planos que incluam uma união estável. Observa-se neste depoimento a rigidez apresentada como característica da maneira de ser dos almeães21.

Ao contrário dos rapazes, as mulheres alemãs buscam exemplos positivos em sua própria rede social que demonstrem ser possível conciliar evolução profissional com a formação de uma família. Assim, permanecer no curso e seguir carreira tecnológica, na Alemanha, se subordinam às condições inerentes ao universo feminino. Tome-se, por exemplo, o caso da gravidez. Quando a mesma ocorre, as mulheres dificilmente poderão permanecer em suas atividades profissionais (por um período que pode chegar a dois anos), ficando sua atividade profissional em segundo plano. Note-se que no Brasil o assunto sequer foi mencionado.

Os homens não conseguem adicionar a educação de filhos com o trabalho, “assim não se consegue trabalhar direito, ou sofre o emprego ou os filhos”. Percebe-se aqui a dificuldade de conciliar várias atividades ao mesmo tempo, que, de acordo com a literatura consultada, é própria de culturas monocrônicas22.

Os rapazes alemães disseram que para as mulheres a carreira se define de uma forma diferente. O destaque não é “acelerar”, senão a possibilidade de ampliar o próprio horizonte dos conhecimentos e, eventualmente, ainda curtir seus resultados. Aqui se mostra novamente, que para as mulheres a profissão, assim como o estudo, tem uma função que serve para a auto-estima, que se expressa na vontade de aprender, na própria evolução e ampliação de suas perspectivas. Ou seja, enquanto os homens “têm que” se apressar em ter uma profissão e um emprego (e esta pressa é algo que está introjetado em suas mentes), as mulheres podem ir mais devagar e usufruir os conhecimentos adquiridos, sem a mesma pressão que se impõe aos homens.

Os rapazes do UTFPR também deram ênfase ao papel de provedor que lhes é imposto desde a mais tenra idade. Citaram casos familiares em que aprenderam com o exemplo de seus pais quais são suas obrigações. Para muitos, este é o seu projeto de vida. Diferentemente dos alemães, os rapazes brasileiros sonham em um dia ter um trabalho (para isto estão se preparando), ter uma família e poder sustentá-la sozinhos.

(...) o homem...sempre foi ter que cuidar de uma família e hoje em dia não é muito diferente disso não... têm que ter essa responsabilidade (...)

(...)

É um anseio meu de realização profissional conseguir atingir um cargo, um nível profissional, um patamar de poder sustentar minha família de uma maneira satisfatória, que eu possa dar o estudo, a casa, momentos de lazer para a família... acho que seria uma realização pessoal (...).

Alguns admitiram que suas futuras esposas poderão trabalhar (se quiserem), mas consideram que é mais importante que elas cuidem da família. Por outro lado, acham também que hoje em dia é praticamente impossível não precisar contar com a “ajuda” financeira da mulher, mas em suas representações esta não é a solução ideal.”O problema disso é que as mulheres estão se afastando da família. Os filhos não estão sendo bem criados e crescidos”. No caso das representações dos estudantes brasileiros foi possível perceber que não há a mesma rigidez acentuada pelos alemães, quanto às pressões para desempenharem o papel de provedor. Pode-se alegar que há uma maior flexibilidade em sua maneira de ser, porém não se pode esquecer das especificidades encontradas na organização familiar brasileira que criam outras possibilidades para os homens.

Alguns estudantes comentaram, inclusive, que os padrões relativos ao papel de provedor estão mudando, e a forma tradicional não precisa necessariamente ser reproduzida. Segundo estes, “depende muito da cabeça de cada um”. Neste caso, se a pessoa está trabalhando e tiver filhos, vai ter que entrar num acordo com o parceiro para saber quem cuidará da criança. “Se eu for casado e nós dois trabalhando (...) Eu acho que um dos dois vai ter que largar o emprego (...) ou trabalhar meio período pra ajudar”. Porém foram poucos os que admitiram fazer o trabalho doméstico.

Vale lembrar que os possíveis conflitos oriundos deste impasse podem ser solucionados com o auxílio de empregadas domésticas e babás, no cumprimento das tarefas domésticas, especialmente em grupos correspondentes às camadas médias (CARVALHO, 1992). Nas camadas populares, as mulheres que trabalham fora de casa contam com a ajuda de outras mulheres de seu grupo de relações pessoais (mãe, sogra, irmã, cunhada, filhas mais velhas, vizinhas, etc.) para cuidarem de seus filhos (CARVALHO e CRAVO, 1988). Convém salientar que este é um arranjo pouco comum entre mulheres na Alemanha e que no Brasil, contribui para a reprodução do padrão tradicional de gênero em que o cuidado dos filhos e da casa é tarefa feminina.

7. Competência profisional e desigualdades de gênero

Com relação à conquista do mercado de trabalho pelas mulheres, as opiniões dos rapazes brasileiros foi diferente do que se encontrou nos resultados da pesquisa em FHF. Pelas exigências crescentes no mundo do trabalho e por causa da redução dos postos de emprego, as diferenças entre os sexos na perspectiva dos/das participantes são niveladas, pois ambos devem igualmente se empenhar ou “se virar” para conquistar uma colocação no mercado.

De qualquer forma, há muito tempo as tendências de individualização têm influenciado a geração pesquisada em ambos os países, tanto no currículo como no planejamento.

Uma observação dos relacionamentos entre os sexos na transição para a profissão no caso da Alemanha, resulta que, atualmente se trata de alianças e não mais de diferenças. Isto explica, por que pelo menos no nível retórico, nem os rapazes nem as moças consideram que as diferenças entre eles sejam importantes para o trabalho. Ambos têm que trabalhar igual. Diferenças típicas por sexo são minimizadas retoricamente ou banalizadas, tanto quanto se pode. Por causa da necessidade de se auto-afirmar, acontece um nivelamento das diferenças entre os sexos, porque “(...) na verdade importa, o quanto se é bom ou ruim”.

As falas apontam para um encobrimento dos sexos (tendência a não enxergar as diferenças), para a busca de resultados – o que leva à formação de alianças que nivelam as diferenças já que o que importa é a competência. E, no Brasil, o quadro se repete ou também está ligado ao discurso do politicamente correto, onde a alegada “modernidade” do curso dificulta a exteriorização de desigualdades tradicionais de gênero?

A competição e as dificuldades de encontrar um espaço no mercado de trabalho estão gerando entre os rapazes brasileiros opiniões ambíguas e contraditórias. Percebe-se uma preocupação em não demonstrar um pensamento machista, porém muitas vezes ouviu-se frases como: “... acredito que tá certo que elas têm que trabalhar também, não é só a gente... Mas elas deviam ficar nos cargos menores (...) deixar os cargos mais altos pro marido receber mais”. Ou afirmações como esta: “com a revolução industrial resolveram inundar o mercado [de trabalho] com mulher, questão de mão-de-obra barata...”. Segundo eles, muitas mulheres querem trabalhar e não percebem que recebem rendimento menor do que os homens pelo mesmo cargo.

As moças brasileiras têm plena consciência das dificuldades que irão enfrentar no competitivo mercado de trabalho e da desvantagem que levam pelo fato de serem mulheres. Com relação à busca por estágios no curso elas já sentem a discriminação quando são preteridas para a contratação dos colegas. “Muitas vezes a gente leva o curriculum para tratar de estágio e eles não te chamam e você não sabe porque, você chega de manhã, fica pensando se está faltando alguma coisa ou se é porque você é mulher, e a gente nem sabe porque na verdade a gente é eliminada primeiro”.

Também apontaram que há casos em que realizam o mesmo trabalho dos colegas e ganham menos. Apesar de a lei no Brasil não permitir este tipo de discriminação, tudo indica que nem sempre ela é cumprida. Algumas entrevistadas acreditam que o fato delas não serem reconhecidas como profissionais competentes na área técnica (o que não significa que não o sejam) pode ser um dos elementos que contribui para as diferenças de remuneração entre homens e mulheres “(...) o menino é o que mais ganhava, talvez por ele saber mexer com o programa (...) acho que pelo fato do domínio desta ferramenta (...)”.

O pagamento de menor valor para as mulheres como remuneração pelo mesmo trabalho realizado por um homem foi apontado por todos os entrevistados da UTFPR. Esta questão não surgiu em nenhum momento no artigo sobre os/as estudantes da Alemanha.

8. Gênero e diversidade cultural

A construção cultural do Brasil e da Alemanha se dá a partir de parâmetros diferentes. As análises e reflexões propostas até aqui também podem ser avaliadas dentro deste contexto, uma vez que o mesmo serve de pano de fundo para formação das identidades individuais.

Assim, algumas destas características podem estar ligadas às concepções que estas sociedades têm de tempo e espaço. Neste sentido, é possível relacionar as falas que apontam a incapacidade dos estudantes alemães de lidarem com vida profissional e constituição de uma família simultaneamente com a tendência monocrônica da cultura alemã.

Os rapazes, dentro do seu contexto cultural, sentem a necessidade de estabelecer projetos de vida de longo prazo. Uma vez eleitas suas metas, seguem escrupulosamente os programas estabelecidos. Assim, se optam pela vida profissional, tendem a estabelecer relacionamentos passageiros e transitórios, evitando as ligações mais estáveis e duradouras.

Este conjunto de características associado aos papéis masculinos na Alemanha, também pode ser interpretado à luz do seu processo sóciohistórico. Os rapazes sentem que devem ocupar com sucesso o seu lugar dentro da cadeia produtiva. O modelo liberal adotado pelo País reforça comportamentos individualistas, abrindo poucas possibilidades para outras conformações identitárias.

Tal configuração não foge ao modelo geral vivenciado no ocidente que reserva o mundo público para os homens e o privado para as mulheres. No que se refere às estudantes alemãs, a construção de suas identidades se dá dentro de um horizonte de possibilidades estabelecidas de antemão para o seu gênero.

É compreensível, então, que as mulheres encontrem dificuldades para conciliar carreira e vida familiar, já que terão de superar, entre outras coisas, o aspecto monocrônico da sua cultura a fim de poder estabelecer estratégias duplas para a construção de identidades como profissionais e como mães.

No entanto, quando são forçadas a superar as já citadas dificuldades na busca de formação para a vida profissional, se valeriam das características gerais da cultura alemã, tais como disciplina, aplicação, exatidão, pontualidade para serem aceitas num ambiente eminentemente masculino. Uma vez conquistadas tais competências, teriam condições de igualdade no mercado, já que este procura se orientar por princípios liberais. Neste contexto, o gênero fica em segundo plano, valendo mais a competência.

Como já apontado anteriormente, a cultura alemã apresenta um caráter relativamente unívoco no que se refere a estruturas e modelos de comportamento e, pelo que foi apresentado pela pesquisa na Alemanha, os papéis de gênero não fogem a esta conformação.

No tocante ao Brasil, as várias matrizes culturais podem apontar um caminho para a compreensão da maior flexibilidade dos comportamentos como um todo. Esta maleabilidade se revela no caráter policrônico da cultura brasileira. Isto fica evidente nas falas dos rapazes que procuram sucesso profissional exatamente para poderem constituir família e nelas desempenharem o papel de provedor.

Outro dado importante para compreensão dos papéis de gênero entre os estudantes brasileiros é a construção histórica da família na qual a autoridade paterna é vista como modelo de referência para a formação de identidades. Embora o mesmo não seja o único, tudo indica que é o ponto norteador das representações de gênero coletadas na pesquisa brasileira entre os rapazes. Isto aparece no caráter tradicional que eles apontaram para instituições como a família e o trabalho, mesmo que seja aparentemente contraditório com a visão de modernidade que os brasileiros atribuíram ao curso e à profissão que escolheram. Aqui se ressalta o caráter ambíguo da cultura brasileira23.

Com relação às mulheres, num primeiro momento, pode-se ressaltar que sua presença crescente nos cursos da área tecnológica significaria uma mudança com relação a este modelo. No entanto, esta visão progressista em relação ao papel da mulher pode ser relativizada pelo fato de que a inclusão da mesma no mercado de trabalho não a exclui, necessariamente, do papel de mãe, nem da dupla jornada de trabalho inerente a ele – embora tenha havido um silêncio das informantes sobre como vêem as relações entre família e trabalho.

9. Para finalizar...

A perspectiva comparativa é eficaz para se compreender as semelhanças e diferenças a respeito das representações de gênero nos cursos da área tecnológica entre os/as estudantes do Brasil e da Alemanha dentro de um contexto de diversidade cultural. Esta pesquisa revelou que há muitos pontos em comum entre os dois países, porém há também divergências. Ambas estão relacionadas às características culturais dos países envolvidos. Com relação a gênero e suas interações com o domínio da técnica, tanto os/as brasileiros/as quanto os/as alemães/ãs consideram que os homens têm melhor desempenho técnico quando comparados às mulheres. O processo de socialização dos meninos nos dois países influiu de maneira significativa para marcar esta diferença que pode ser interpretada como uma desvantagem para as mulheres em ambientes onde o conhecimento técnico seja fundamental. No caso da Alemanha, pode-se dizer que o preconceito com relação às mulheres é mais acentuado porque elas são consideradas incompetentes tecnicamente e não são aceitas neste domínio. No caso brasileiro, a rigidez não é tão visível, e os rapazes admitem outras possibilidades para as mulheres, revelando que elas têm competência para outras áreas para as quais eles nem sempre possuem.

Por outro lado, no mercado de trabalho alemão, há uma maior igualdade entre as chances de trabalho e a remuneração de homens e mulheres. Com a competição acirrada e as dificuldades de emprego cada vez maiores, a pesquisa na FHF revelou que na Alemanha importa mais a competência do trabalhador do que o sexo. Na verdade, esta questão não está resolvida porque há ainda muita polêmica em torno das mudanças e permanências de padrões tradicionais de gênero neste âmbito. No Brasil, a discriminação da mulher no mercado de trabalho em áreas técnicas é explícita não só com relação à busca de emprego, mas também com relação à remuneração.

Os resultados da pesquisa no Brasil permitem dizer que os brasileiros têm planos diferentes dos alemães com relação a futuro e vida familiar. Percebe-se que entre os alemães o individualismo está mais presente e se manifesta de maneira clara e visível, através das perspectivas de vida, mas também quanto a crítica às pressões a que estão sujeitos para reproduzirem um padrão masculino que consideram pesado e de muita pressão. Por esta razão não manifestaram desejo de constituir família, pois isto para eles significa uma carga a mais a enfrentar na vida. Por isso não pensam em uniões estáveis, revelando-se, quanto a este aspecto, o caráter monocrônico da cultura alemã.

No Brasil, os depoimentos sobre a vida futura quanto ao trabalho e à família foram diferentes. Esta diferença tem relação direta com a diversidade cultural entre os dois países. A família no Brasil é um valor que está presente de uma maneira muito forte praticamente em toda a população e o trabalho representa a possibilidade de ter uma vida familiar de acordo com as expectativas sociais (CARVALHO, 1992). Os planos são pensados com vista a este valor cultural e as construções de gênero estão diretamente ligadas a este projeto. A correlação entre família e trabalho como algo desejável para os jovens pode ser interpretada como um traço cultural policrônico, mais presente no comportamento dos brasileiros.

Esta pesquisa revelou ainda que os padrões tradicionais de gênero estão em processo de transformação e, como todo o processo de mudança possui contradições e ambigüidades que estão presentes nos depoimentos dos entrevistados. Ora a igualdade de gênero é vivenciada e as diferenças são sequer percebidas, ora a desigualdade e o preconceito brotam de maneira forte e rígida a ponto de revelar comportamentos discriminatórios e preconceituosos. Estas oscilações nas representações sobre gênero entre a igualdade/desigualdade, o velho e o novo, a tradição e a modernidade estão presentes entre os estudantes de ambos os países pesquisados.

Na área tecnológica ainda há muito que mudar. O aumento do número de mulheres nestes cursos é importante para tal transformação. Porém, o fator quantitativo por si só não tem alterado as relações desiguais de gênero nos cursos tecnológicos e muito menos no mercado de trabalho. Para que haja mudança em direção à eqüidade de gênero, é necessário, entre outras práticas, modificar também o processo de socialização de meninos e meninas para que ambos cheguem aos cursos técnicos com as mesmas habilidades e as mesmas chances.

Além disso, é preciso que uma mudança cultural mais profunda ocorra em ambas as sociedades a fim de que sejam criadas condições para a construção de uma perspectiva crítica ao sistema social mais amplo, que “escraviza” igualmente homens e mulheres na medida em que impõe a subordinação ao conhecimento tecnológico instrumental como única forma de realização humana.

Referências

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CARVALHO, M. G. As vicissitudes da família na sociedade moderna: estudo sobre o casamento e relações familiares. Tese de doutorado em Antropologia Social. USP, 2002.

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DA MATTA, R. Você sabe com quem está falando? Um ensaio sobre a distinção entre indivíduo e pessoa no Brasil. In: Carnavais, malandros e heróis. Rio de Janeiro: Zahar, 1980.

______. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

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MUNDER, Irmtraud e CARVALHO, Marilia Gomes de et al. “Mujeres y estudios técnicos, ¿conceptos compatibles? Tentativa de una comparación intercultural entre Alemania y Brasil”. V CONGRESO IBEROAMÉRICANO “CIENCIA, TECNOLOGÍA Y GÉNERO”, 2004, Cidade do México, In: Cadernos de Gênero e Tecnologia, no. 1. Curitiba: Ed. CEFET-PR, 2005.

PATEAU, J. Aproche comparative interculturelle: étude d’enterprises française et alemandes. These de Doctorat. UNIVERSITE DE PARIS X NANTERRE – Études Germaniques, 1994.

PRADO JR, Caio. A formação do Brasil contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 1971.

RIBEIRO, Darci. O povo brasileiro – a formação e o sentido do Brasil. 2a ed. São Paulo: Cia das Letras, 1995.

SCOTT, Joan. “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”. In Educação e realidade: gênero e educação. Porto Alegre. v. 20, n. 2, jul/dez, 1995.

TREVISAN, Lino. Interculturalidade no ambiente empresarial: relações entre brasileiros e estrangeiros na Volkswagen / Audi de São José dos Pinhais – PR. Dissertação de Mestrado. PPGTE/CEFET-PR, 2001.

NOTAS

1
Ver os artigos de CARVALHO et alii e SELKE nesta edição.

2
Para efeito de formação de base teórica referente a tais conceitos, reporta-se ao já referido texto de Carvalho et al, desta mesma edição.

3
As informações contidas neste item representam pinceladas superficiais que ajudam a compreender algumas diferenças históricas e culturais entre Brasil e Alemanha. Não se pretendeu absolutamente aprofundar a questão nem tampouco esgotar o tema.

4
Sobre esta questão ver HALL E HALL, 1990, PATEAU, 1994 e TREVISAN, 2001.

5
No que tange às condições econômicas, é importante ressaltar que o Brasil sempre ocupou um papel de subordinação em relação às potencias econômicas estrangeiras, fossem elas Portugal, no período de colonização, ou Inglaterra e Estados Unidos no período de independência política. Este fato, unido a uma série de outros fatores sócio-históricos, deram origem a sérias disparidades e desigualdades sociais. Tais condições tiveram graves repercussões no que se refere à formação da identidade do povo brasileiro, sempre disposto a valorizar artigos e produtos culturais vindos de fora em detrimento de suas próprias produções. Sobre o tema ver PRADO JR, 1971.

6
Sobre a formação e o sentido do povo brasileiro ver RIBEIRO, 1995.

7
Apesar das contribuições destas matrizes citadas, bem como de outras que se integraram a elas mais tarde (europeus não ibéricos, asiáticos e árabes entre outros), há que se ressaltar o caráter único do povo brasileiro, que sendo muito mais que uma soma de elementos étnicos, constitui-se em um novo ser, uma nova etnia, cuja diversidade é sua principal marca (RIBEIRO, 1995).

8
A relação patriarcal não foi a única que se estabeleceu nesta nova formação social (ver CORREA, 1982), porém foi a formação dominante que constituiu a base para outras relações sociais que marcaram profundamente a sociedade brasileira.

9
Baseado em DA MATTA, 1980 e 1986.

10
As informações sobre a cultura alemã apresentadas neste artigo foram obtidas através de consulta às seguintes obras: HALL e HALL, 1990, PATEAU, 1994 e TREVISAN, 2001.

11
Os textos de CARVALHO, M.G et al e SELKE, S., que estão nesta mesma publicação, trazem maiores detalhes sobre a contextualização da investigação, seus suportes teóricos, a metodologia detalhada da pesquisa e os resultados em sua íntegra. Como o presente artigo tem como objetivo fazer uma comparação entre seus resultados, julgou-se desnecessário trazer novamente os detalhes já apresentados.

12
Maiores informações sobre os participantes da pesquisa no Brasil podem ser obtidas no quadro de caracterização no texto de CARVALHO et al, nesta edição.

13
Uma versão preliminar das análises que são aqui apresentadas podem ser encontradas em Carvalho (2006).

14
Hoje em dia não é mais possível pensarmos em apenas um modelo para homens e mulheres, constituídos como realidades opostas. Os grupos existentes e as situações vividas geram uma pluralidade de papéis para eles e elas. Compreender as relações de gênero leva a considerações sobre esta multiplicidade e também sobre as relações de poder que perpassam o universo de interações entre homens e mulheres, homens e homens, além de mulheres e mulheres (SCOTT,1995).

15
Louro corrobora esta idéia quando analisa as atitudes dos/as professores/as em sala de aula que incentivam os meninos a um comportamento criativo e às atividades técnicas e cobram das meninas um comportamento disciplinado e passivo, deixando-as, algumas vezes, sem a oportunidade de desenvolver a criatividade naquelas áreas (LOURO, 2001).

16
A questão da força física está presente nos depoimentos dos/as brasileiros/as e não aparece entre os/as alemães/ãs por uma especificidade dos cursos pesquisados. O Curso de Mídias Digitais não exige praticamente nenhuma atividade onde seja necessária a força física, enquanto que no Curso de Tecnologia em Móveis, muitas vezes esta característica é necessária.

17
Na Alemanha as mulheres encaram o curso como uma possibilidade de aprender. No Brasil isso não aparece.

18
Note-se que os alunos alemães estão se referindo a grupos de estudo, enquanto que os brasileiros a equipes de trabalho na instituição e nos estágios.

19
Tais argumentos, que apelam para a força física como fator limitante para a atuação da mulher no mercado de trabalho, não levam em consideração que, muitas das tarefas ditas femininas, exigem uma considerável força física, como por exemplo, carregar crianças pesadas no braço durante longos períodos de tempo e longas distâncias....

20
Note-se que a não obviedade pode ser sinônimo de criatividade, o que parece que as mulheres não percebem.

21
Ver HALL E HALL, 1990, PATEAU, 1994 e TREVISAN, 2001. 22 HALL et HALL, op. cit. PATEAU, op. cit. e TREVISAN, op. cit.

22
HALL et HALL, op. cit. PATEAU, op. cit. e TREVISAN, op. cit.

23
Conforme Da Matta, ops. cits.

 

* Mestre em Ciências Sociais (Antropologia), pela PUCSP, doutora em Antropologia Social pela USP e pós-doutora em Relações Interculturais pela Université de Technologie de Compiègne – França. Coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Relações de Gênero e Tecnologia - GeTec/ PPGTE e professora do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia - PPGTE, da UTFPR. (mariliagdecarvalho@gmail.com)

** Mestre em Tecnologia pelo Programa de Pós-Graduação em Tecnologia (PPGTE), da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Professora da Rede Pública do Estado do Paraná. (samarahistoria@yahoo.com.br)

*** Mestre em Tecnologia pelo Programa de Pós-Graduação em Tecnologia (PPGTE), da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Professor da Rede Pública do Estado do Paraná. (prof-valter@hotmail.com)

Novas Tecnologias Reprodutivas Conceptivas: o paradoxo da vida e da morte
New Reproductive Technologies for Conception: the paradox of life and death

Marlene Tamanini*

 

Resumo

Analisam-se nesse texto algumas das várias questões críticas, que podem ser encontradas no uso das novas Tecnologias Reprodutivas Conceptivas. Ressaltam-se as posições feministas no que se refere às mesmas, e ao apresentá-las e contrapô-las com duas situações ocorridas com as mães e com as crianças, elege-se um leque de disposições valorativas que problematizam o uso indiscriminado das práticas de reprodução humana em laboratório. Aponta-se para a necessidade de construir um entendimento compreensivo que atenda a ampliação de outros fatores, como aqueles associados à abertura para o risco da parte dos médicos e casais e a instrumentalização das dimensões subjetivas e simbólicas que influenciam na projeção de um sentido para a vida, por meio da busca pelo filho por meio de tecnologia. Palavras-chave: reprodução, instrumentalização, riscos.

Abstract

This text analyzes several critical issues that emerge around the use of new reproductive technologies for conception. Particular emphasis is given to feminist positions, which are presented and counterposed in two different situations regarding mothers and children. This is carried out through a value framework that problematizes the indiscriminate use of laboratory practices for human reproduction. Attention is drawn to the need to develop a comprehensive understanding of factors such as the risks assumed by doctors and couples, and the instrumentalization of subjective and symbolic dimensions that influence the meanings given to life in the search to conceive a child through technological means.

Keywords: reproduction, instrumentalization, risks.

Quando confrontados com a experiência da infertilidade1, homens e mulheres vivendo em comum, não importando se heterossexuais ou homossexuais, são mobilizados a buscar uma solução para a ausência de filhos. Ainda que os padrões que sancionam a elegibilidade sejam diferentes em se tratando de uns e de outros2. Na experiência do limite, da pressão e da resistência exteriorizam sua disponibilidade de solução, no momento em que se encontram com o mundo de sua vida e a proposta biomédica/tecnológica. O problema é que nem sempre a conhecem, e ao exporem sua tamanha necessidade desencadeiam desejos de solução e possibilidades de intervenções tais, que se torna difícil concretizar qualquer tentativa de dissuasão vinda de fora dessa relação. Agrava-se a vulnerabilidade ao risco quando, em suas vivências, os casais, ao carregarem os sentidos da imediatez e das estratégias intencionadas, como seguir o caminho proposto pelo médic@3 para alçarem a posse de uma experiência duradoura que é a busca de conviver com um filho, se deparam com situações paradoxais e inusitadas e acabam por autorizar instâncias exteriores a tomarem decisões por eles. Ou ainda, são colocados em situações tais, que já não conseguem dizer nada, a não ser sofrerem as conseqüências dos atos desencadeados às vezes por eles e, na maioria das vezes, pela ambição de sucesso que pode se dar em condições em que as decisões sobre a prática é realizada somente a partir da clinica e dos seus profissionais, com pouca ou minorizada decisão do casal e da mulher.

A reprodução assistida, por sua vez, já é oferecida no contexto de um quadro de aliados que acumula recursos sociais, econômicos e tecnocientíficos, amalgamados aos modelos da maternidade e da paternidade biológicas que, por sua vez, articulam conteúdos cognitivos e sociais, e conectam linguagens performativas, sob critérios capazes de invocar a eficácia, o pragmatismo e o desejo.

Grande parte dessas questões foram explicitadas pelo movimento feminista, Estado, Igreja, juristas, médic@, cientistas, demógraf@s, filósof@s e pela sociedade civil. A vertente teórica mais influente que as orientou em relação a concepção, o aborto e as técnicas conceptivas na América Latina, provém das mais distintas correntes da crítica feminista e se fundamenta nos campos da saúde reprodutiva, dos direitos reprodutivos e da bioética, analisados pela ótica das relações sociais de sexo e de gênero.

Permaneceram, porém, em aberto, questões sobre as circunstâncias que justificam abandonar a autonomia sexual e propor uma assistência médica com ou não fecundação, e abriu-se algum caminho para visualizar quais são os limites da responsabilidade médica em casos nos quais há riscos para a mulher e para as crianças, problemas que serão apresentados na segunda parte desse texto.

Mapeando posições feministas

Para mapear as posições assumidas pelo movimento feminista, consideram-se aspectos desenvolvidos por teóric@s e militantes no Brasil e na França, que são um pouco representantes de posturas encontradas em várias pensador@s, também em outras partes do mundo.

Segundo Laborie4, pode-se identificar dois tipos de posicionamentos entre as feministas francesas. Um primeiro tipo, aquelas que se opõem as tecnologias reprodutivas por razões de princípio. Para estas, as novas tecnologias reprodutivas conceptivas (NTRc) supõem o aumento do controle masculino sobre um território até então feminino - a maternidade. A abordagem técnica da gravidez parte do modelo masculino de produção de milhões de espermatozóides; para tanto as mulheres são submetidas a tratamento hormonal, o que pode resultar na produção em série de seres vivos por meio de numerosos embriões congelados e estocados. Segundo esse grupo, as NTRc introduzem uma desestabilização da maternidade, que até então era certa e unívoca, tornando-a agora disseminada e plural. Dentre elas, identificamse àquelas que constroem críticas aos meios publicitários de divulgação das técnicas e à realidade escondida no desenvolvimento das NTRc.

As de segundo tipo contrapõem-se às primeiras, afirmando que ao invés de opor obstáculos aos métodos da procriação artificial, as mulheres deveriam reivindicar seu controle. Para elas, a questão básica é a da liberdade das mulheres. Segundo Oliveira5, trata-se de uma posição biofundamentalista, que pode ser classificada como bioliberal; as mulheres só poderiam garantir sua liberdade e a sua autonomia se controlassem essas tecnologias.

Oliveira6 afirma ser esta a posição defendida desde 1992 pela Rede Internacional sobre Perspectivas Feministas para a Bioética (FAB – Feminist Approaches to Bioethics), que congrega mulheres e organizações feministas de 100 países. Essa rede se pauta por uma postura de embate nos meios acadêmicos da bioética e pela luta por uma legislação capaz de coibir os abusos incorporando uma visão de combate à opressão de gênero. Suas posições se fundamentam principalmente, nas vitórias feministas dos anos 70 como: o direito à homossexualidade, à maternidade celibatária, às lutas contra a ideologia normativa do casal e da família.

Essas feministas argumentam que as NTRc excluem certas mulheres e promovem a família nuclear heterossexual como modelo ideal de ambiente para uma criança, enquanto que as do primeiro tipo insistem no aspecto experimental das intervenções praticadas no corpo das mulheres e nos riscos advindos para a sua saúde.

Bataille7 em seu estudo sobre as atitudes feministas face à procriação medicalmente assistida, como é chamada na França, identifica uma primeira posição que é desfavorável ao seu uso. Ao conversar com este grupo de mulheres militantes, ele observa que há um sentimento de medo e um receio, diante de todas as intervenções médicas sobre o processo de fecundação. Do mesmo modo que o verificado por Laborie, ele encontra nelas, uma denuncia sobre o desejo de dominação dos processos de fecundação. Elas criticam como os médicos enquanto homens, representantes do masculino, dominam o corpo das mulheres. Colocam em causa o conjunto cultural que favorece a pesquisa, o conhecimento e o progresso, que afasta mais e mais o indivíduo de sua natureza. Para elas o eugenismo é uma das ameaças implícitas dessas práticas, e é resultado de dois elementos de denunciação: os médicos – homens, de um lado e o desenvolvimento científico com seu desejo de regrar a maternidade de outro.

A reprodução assistida é, para essas mulheres, o lugar em que a lógica masculina e científica tende a desapropriá-las de sua capacidade fecundante. Essa posição crítica, segundo Bataille8, busca proteger a maternidade das mulheres, e reenvia às correntes feministas que levam à uma separação radical entre o mundo das mulheres e o mundo dos homens.

A maternidade valorizada por elas está fora das relações de dominação que combatem e fora dos procedimentos científicos que desnaturalizam esse momento privilegiado na vida de uma mulher. Para esse grupo, só as mulheres têm a capacidade de valorizar seu poder fecundante e de lutar contra a tendência cientificista da humanidade. Ao rejeitar todos os aspectos do conhecimento médico que se insinua entre a mãe e a criança, elas valorizam a expressão natural da maternidade, poder esse existente em sociedades tradicionais.

Nos estudos de Bataille, há um segundo grupo de feministas que percebe o conflito entre homens e mulheres com menor violência. A rejeição a essas técnicas médicas se fundamenta em uma crítica do conhecimento científico. A maternidade para elas não é necessariamente uma luta de poder entre homens e mulheres. Essas mulheres, que são elas mesmas cientistas, denunciam o desejo de dirigir os princípios da fecundação que têm os homens, mas também as mulheres. É o próprio desejo de regrar esses processos, que eram antes de domínio feminino, e a satisfação aí auferida que é criticada. Tanto homens como mulheres são englobados nessa critica, porque, tanto uns, quanto outros, participam ativamente da ilusão e das possibilidades de regrar os fundamentos da natureza. Elas denunciam radicalmente o duplo fenômeno da vitimização, no qual as mulheres não são meros objetos, embora se submetam a um modelo científico que se permite todos os excessos sobre o seu corpo. Esse modelo critica diretamente a falta de meios permitidos às mulheres que procuram gerir sua esterilidade. Elas constatam o empirismo da ciência e sua notoriedade em termos de prestígio simbólico e, ao mesmo tempo, o desatino dos casais confrontados com o problema da infertilidade. Perde-se, segundo elas, o diálogo entre os casais e estabelece-se o princípio da solução imediata, que os leva a buscar todas as formas de tratamentos tecnológicos, acompanhados de todo desespero humano que isto possa produzir9.

O foco de sua posição privilegia as condições deploráveis nas quais se transmite a informação sobre o estado desses conhecimentos. O casal, segundo elas, não tem tempo para pensar nas dificuldades que encontra em sua existência. Apenas tem a informação de que há uma solução para seu problema doloroso e vai buscá-la. Além do mais, a esterilidade do indivíduo passa a ser a esterilidade do casal. A solução para essas mulheres feministas é apelar para a comunidade científica, exigindo-lhe mais sabedoria e respeito, mais transparência e honestidade.

A denúncia dos desmandos da ciência sublinha o fato de que os homens são, eles também, em graus diversos, vítimas dessa ausência de humanidade dentro da aplicação dos conhecimentos médicos.

Um terceiro grupo recusa o radicalismo e assume um feminismo negociado. Desejam uma atitude ponderada entre lembrar o intenso momento de atividade e de solidariedade que reinava no feminismo, no que tangia as relações entre mulheres e a não-adesão a nenhuma corrente feminista. Elas se situam no limite das reações possíveis e reenviam diretamente a todas as correntes de participação e compreensão da luta feminista. Não colocam em causa a legitimidade do combate feminista. Apenas transgridem as divisões internas e matizam a luta com outra dimensão, que não é o resultado de um não-conhecimento do feminismo ou de uma hesitação, mas o resultado de uma ação estratégica.

Em relação à reprodução assistida, elas se propõem a denunciar pontos precisos, mais do que dar um sentimento geral de aceitação ou recusa. Criticam a ausência de reflexão feminista e constatam que falta maturidade e realismo no desejo de ter filhos das mulheres. Ao invés de criticar as mulheres que se lançam nesses procedimentos e o setor médico que os propõe, elas constatam que o movimento das mulheres não tem levado a fundo à reflexão sobre o tema. Esse grupo aponta uma diferença entre o desejo de gravidez das mulheres e o desejo de ter filhos do casal. Exprime a vontade de não separar as mulheres da dimensão relacional do seu desejo, notadamente da relação com o masculino.

Em princípio, as mulheres deste grupo estão de acordo com a rapidez das descobertas da ciência médica. Para elas, é grotesco colocar em causa o masculino e se mobilizar contra as técnicas empregando esse argumento, sem levar em conta um trabalho real sobre a demanda das mulheres que a elas se submetem. O aspecto tecnológico não é um problema em si. O problema também não reside na circulação de informação, mas na ausência de comunicação, e o feminismo tem a vocação de ajudar a comunicação entre os indivíduos.

Segundo Bataille10, para esse grupo é ainda inútil se engajar desesperadamente nos princípios de diferenciação entre homens e mulheres, baseados unicamente nos fundamentos biológicos. Elas não se ancoram de maneira definitiva e inelutável nos princípios das diferenças entre homens e mulheres, sobre a solitária base biológica dada e imutável, nem se opõem, nem rejeitam o conhecimento nesse domínio. No aspecto prático, parece que as mulheres aceitam correr riscos. Elas valorizam o mundo da experiência, guardam-se de reações defensivas, e fazem-se passar por inconscientes.

No quarto tipo agrupam-se as mulheres que valorizam o conhecimento e o progresso. É o grupo constituído por aquelas que vieram das lutas políticas, mulheres que tinham um passado no feminismo igualitário, algumas com reconhecimento dentro da extrema esquerda ou no partido comunista ou ainda dentro do partido socialista. Elas consideram essencial a preservação das relações do casal que tem o desejo de ter filhos, embora não permitam que a discussão sobre o que significam para a mulher seja minimizada.

Para elas, se as técnicas se engajam na solução da dor ou na ultrapassagem dos limites biológicos, isso é um verdadeiro progresso e uma verdadeira libertação. A reflexão que fazem sobre os processos de medicalização da maternidade as incita a pensar que a reprodução assistida pode ser considerada uma expressão do progresso e encorajam as mulheres a mobilizar as tecnologias que permitam melhor controlar sua fecundidade ou a condição de sua gravidez. Entretanto, segundo esse grupo, não há por que fazer dessas técnicas a ponta de lança de novas práticas sociais, embora, uma mulher sozinha, querendo um filho, deverá poder aceder as possibilidades para tê-lo. Por outro lado, recusam-se a ver a medicina se transformar na medicina do desejo. Trata-se de remediar uma demanda lúcida, que é complexa e ambivalente. Elas lembram como as mulheres se beneficiaram do progresso, do conhecimento e da tecnologia. Mas, especialmente, lembram a que ponto os jovens médicos homens foram solidários e às vezes mesmo se engajaram na causa das mulheres. Elas se opõem à barriga de aluguel e denunciam explicitamente a exploração econômica entre as mulheres que deriva dessa prática, principalmente do comércio do útero e de óvulos.

Para um quinto grupo, a denúncia é um debate inútil; segundo elas, se a criança é feita por um homem, dois homens, uma mulher ou duas mulheres, ou sem homem, não importa; o que importa é a sociedade na qual a criança será criada. Elas constatam que as mulheres são ainda hoje em dia submissas à sua biologia, e que as relações sociais são as bases do sistema de filiação que ainda favorece os homens. Elas não reclamam de que as crianças sejam feitas por meio de técnicas sofisticadas que substituem a capacidade fecundante das mulheres. Mas refutam caracterizar as mulheres, antes de tudo, pela sua especificidade biológica. Criticam o conteúdo ideológico do desejo de ter crianças e lutam contra a medicina do desejo como redutora da identidade das mulheres. Interditam o corpo médico de ser ele próprio o censor, que decide a validade de uma demanda. São as estruturas sociais onde se apóia o desejo, que são criticadas, e não o desejo em si mesmo.

Essas posições apresentam o quadro de por onde andaram algumas das questões suscitadas pelo contexto pragmático das NTRc. É preciso dizer, porém, que passados alguns anos desde esses e outros estudos, e verificada a complexidade das demandas e das decisões possíveis no campo. Hoje, podem ser identificados novos desafios juntamente à exigência de algumas novas definições que envolvem as práticas sociais. Particularmente, as que dizem respeito às provocações e as experiências advindas de um fundamento tão essencializado, como é o desejo pelo filho do próprio sangue, e a consideração de que uma mulher só é feliz se for mãe, por parte da biomedicina e de muitos setores da sociedade em geral.

O feminismo tem colocado como centro das discussões os direitos sexuais e reprodutivos, principalmente, no que diz respeito a autonomia, a liberdade de escolha e a ausência de riscos. No Brasil, as discussões sobre a necessidade de uma manifestação legislativa para esse campo, também vêm se configurando e exigindo ponderações. Principalmente, diante dos subterfúgios utilizados por quem pretende legislar, podendo este ato ao mesmo tempo que significa proteção aos direitos da mulher invadir absurdamente os mesmos direitos, bem como a sua autonomia. Também porque há um desfocamento evidente dos temas ligados ao contexto das críticas e das denúncias que se originalmente eram criticadas no contexto do tratamento, agora segundo Diniz e Costa (2005), são recortadas por parâmetros morais quando buscadas por casais homossexuais.

As questões apontadas até aqui são aquelas que de certa forma já ganharam visibilidade. Quando se adentra, porém, na experiência vivida por casais verifica-se uma dinâmica que faz interagir abertura para o risco e a construção de desejos que os tornam cada vez mais vulneráveis na busca de recursos tecnológicos para a solução do seu sofrimento, fazendo-os até mesmo vivenciarem situações de morte, conforme apresentamos a seguir.

Os paradoxos

Muitos são os problemas enfrentados pelos casais e médic@s durante o processo de tratamento para engravidar. Desde a escolha do modo de medicalizar, o tempo que será investido e o dinheiro necessário, até o aparentemente, mais pontual dos conflitos, que começa com o uso da medicação.

E, se por um lado, em situações não incomuns, os casais relatam como estabelecem limites aos procedimentos médicos, especialmente, quando interferem sobre a quantidade de medicação utilizada por eles em cada ciclo, a partir dos sintomas e das queixas das mulheres reveladas pelas reações em seu corpo. De outro, eles também problematizam a responsabilidade do médic@ nas decisões que dizem respeito ao foro íntimo da sua reprodução. Especialmente quando se trata da superovulação e da quantidade de embriões a serem transferidos. Dizem, claramente que, se problemas acontecem por causa da impossibilidade de se saber antes do procedimento, como o corpo irá reagir em relação à medicação, o que, em sua avaliação, confirma como tudo isso é ainda experimental, por outro lado, falta uma postura ética e responsável na hora de decidir sobre a quantidade de embriões a serem transferidos.

O problema sobre o que fazer com o número dos embriões, quando ele é superior a quatro, situação que permitiria a transferência em sua totalidade, segundo a orientação do Conselho Federal de Medicina, embora haja uma tendência mundial de transferir somente dois, constituise em uma decisão que envolve questões éticas e risco de vida para mulheres e crianças.

Essas questões ainda que antigas, nem sempre são levadas a sério antes de começar o tratamento, o que exige, na hora da coleta dos óvulos, uma decisão para a qual os casais não estão preparados. Ou melhor, trata-se de uma decisão de risco, porque, quanto menos embriões são feitos e transferidos menor a chance de sucesso naquele ciclo. Ao mesmo tempo, fazer todos os embriões possibilitados pelos gametas implica em criopreservação, visto que o limite de até quatro embriões para a transferência já é um número bastante elevado, ainda que em muitas situações sejam transferidos bem mais. E, se nesse caso, o resultado não for a nidação de um único embrião, o que nem sempre ocorre, haverá que se administrar uma série de imprevistos, sofrimentos e até mortes, conforme pode-se acompanhar nos relatados que se seguem. Especialmente, se a solução proposta for a redução embrionária que em geral, joga com princípios éticos e religiosos dos envolvidos.

Nidação de três embriões

Ela - Eu fiquei uma cera porque eu achei que eu não fosse conseguir levar a gravidez para frente. Ninguém achava.

Ele - Nem o médico. Ele dizia para mim, vamos tentar, mas é difícil. Ela é muito pequena.

Proposta médica de redução embrionária: o paradoxo para quem havia buscado tanto.

Em relação ao que foi nos proposto, em relação à retirada [...] com mais de 15 dias tinha que fazer ultra-som. Era uma bolinha, só tinha um coraçãozinho batendo. Era só uma bola, parecia um ovo, mas tinha o coração batendo. Então não adianta dizer que não tem vida. Para mim, se eu perdesse nessa fase, naturalmente eu já iria sentir. Eu iria considerar como perda de um filho. Porque eu vi o coração, tinha coração, tinha vida ali dentro. Isso ia ser outro processo, a minha cabeça iria ficar como se tivesse perdido um filho.

Perguntados sobre se sentiam como um aborto, responderam:

Ele - Não só soava como um assassinato. Isso era mais do que o aborto. Eu não ia poder encarar.

Ela - Eu dizia para ele, como é que naquele dia em diante eu iria comprar roupinhas. Montar o quarto, eu não iria mais ter alegria para isso. Nós paramos, os três dias que nós paramos, foram os três piores dias da minha vida. A gente parou completamente. A gente ligava para a mãe e eu dizia, olha, tchau, as crianças estão dando tchau para a mãe. Eu não falava mais neles, nesses dias que eu precisava decidir, minha mãe diz que eu parei e eu não olhava mais para minha barriga. Eu não tocava na minha barriga, eu não conversava mais com eles, eu parei, eu simplesmente parei. Aí, quando a gente decidiu. Eu me lembro muito bem, nós viemos do médico, eu não dormi a noite inteira, eu chorei a noite inteira. Aí de manhã eu fui tomar um banho. E eu decidi, eu não vou tirar. Só que eu já tinha decidido, e ele já tinha decidido. Mas os dois não conversávamos, acho que era porque um tinha medo de que o outro quisesse tirar. Eu só chorava e ele ficava na dele. Sempre preocupado, só que ninguém conversava. Aí nesse dia tomando banho eu decidi que não ia tirar. Ai quando nós vimos a doutora entrando na garagem do prédio, ele disse que ele não queria tirar. E que nós iríamos correr o risco, mesmo se nascesse um excepcional. Um aborto seria algo não programado. No nosso caso nós estaríamos programando.

Ele - Era pior do que o aborto, para nós. Para mim isso era um assassinato.

Ela - Para mim o aborto não deixa de ser assassinato.

Ele - Mas nesse caso havia uma diferença, éramos nós que estávamos decidindo. Para mim isso significava bem mais do que um aborto. Existe essa diferença. O aborto vem de um caso não programado, no nosso caso seria algo programado.

A culpa e a experiência traumática.

Ela - Era desejado já de anos e de repente a gente precisava dizer, vamos tirar um. Qual deles? Hoje estava dizendo para ele, qual deles nós teríamos tirado? Ontem de madrugada estava olhando para eles e pensei nisso. De vez em quando eu penso nisso. Eu digo para mim mesma, qual deles que não teria nascido ? Isso ainda me perturba.

Marlene: por que ?

Ela - Eu não sei. Muita coisa ainda me perturba.

Marlene: perguntei, isso te perturba, por que você teve que se colocar a possibilidade da escolha ?

Ela - Eu acho que sim... A gente olha assim, fica dizendo, mas como é que eu tive coragem.... Embora a gente saiba que qualquer um corre esse risco. Pensar fora é uma coisa, depois que está aqui dentro da gente é outra. O médico pode até te alertar, dizendo, olha, se tiver três ou quatro, você pode ter que tirar, mas depois que está aqui dentro é muito difícil.

Aqui dentro é diferente, é teu; aí fica bem mais complicado. Antes tu queres tanto que se falam em tirar tudo, dizes tudo bem, tudo bem. Tanto que quando ele ligou eu fiquei tão atarantada que eu disse, não, se for para salvar dois a gente faz, eu vou falar com o (nome). Tem a certeza. Depois, quando desliguei o telefone, me dei conta. E disse, meu Deus, é meu filho, como é que eu vou tirar meu filho. É quem, qual deles?

Riscos de vida e saúde para a mãe

...Quando completou a 27ª semana, que eu comecei a tomar a injeção, eu chorava. E porque, eu dizia, não agüento mais . E eu não agüentava, porque era muita dor. Os dois meninos estavam de cabeça para baixo, com os pés nas costas. Então quando eles se mexiam eu tinha uma bola aqui, eu tinha outra bola aqui, tinha uma bola nas costas. Eu não tinha posição para dormir, eu dormia sentada, quando eu conseguia dormir. Então eu dizia, eu não agüento mais. Só que ao mesmo tempo eu não queria tirar, porque eu pensava: vou agüentar mais um pouco. Eu achava assim, mais uma semana, se eu conseguir amadurece um pouco mais. Só que, quando chegou no limite, eu fiquei com problemas cardíacos. A doutora me internou, eu fiquei internada mais de vinte dias. Então ela fez um ultra-som e resolveram naquele dia fazer a cesárea. Porque aí eu já vinha perdendo líquido. Foi no dia do aniversário da médica, foi no dia do aniversário do meu pai. Eles nasceram nesse dia turbulento. Agora tem um monte de aniversários.

Ele - No último mês ela foi para maternidade, ficou internada lá. Ela teve uma gravidez complicadíssima, ela não dormiu direito nos últimos sete meses.

Ela - Eu tive complicações cardíacas, respiratórias, eu não sabia se viria tudo bem. Depois passei para o problema da UTI.

O casal assume toda a responsabilidade sobre esta decisão e não se dá conta que houve um a priori que foi desrespeitado em relação ao número de embriões transferidos.

Marlene: Vocês acham que tem algum problema moral ou ético envolvido nesse tipo de procedimento ?

Ele - Acho que tem por parte do médic@ em esclarecer tudo que pode vir a acontecer.

Ela - Só isso eu não sei . Morais ?

Ele - É. Mas no nosso caso eles não nos impuseram nada, eles mostraram os dois lados. Eu queria saber quais eram as porcentagens. Eles não tinham. Então não tinha nem sobre o que pensar.

Marlene – isso implicou numa decisão individual de vocês.

Ele - Individual não.........

Ela - A minha opinião era não tirar; a decisão dele também era para não tirar.

Ele - A decisão era do casal, não era individual.

Marlene – Sim, é nesse sentido que eu usei o termo individual.

Ele - Sim, é isso. Eles nos passaram a bomba, a bomba está aqui, eles nos disseram, e agora o que vocês vão fazer?

Ela - É, nos passaram a bomba. Eu acho que a responsabilidade era nossa mesmo, acho que não era deles. De jeito nenhum, a responsabilidade é nossa. Nós fomos procurar eles por problemas nossos, então a responsabilidade era nossa. São coisas nossas que estavam em jogo. Realmente éramos nós que deveríamos decidir, eles não poderiam chegar e dizer: vamos tirar. Nós e que deveríamos resolver se íamos tirar.

Ele - Em momento algum eles nos disseram: tem que tirar. Então o que ele disse foi, olha se tiver que tirar um, para salvar dois ...

Ela - Mas eu acho que a decisão era nossa mesmo, eles não tinham como decidir. A não ser que fossem quíntuplos, então realmente eles poderiam chegar e dizer: olha, não dá. Tem que tirar, eu tenho certeza que ele diria se fossem. Quatro, eu já li várias reportagem sobre isso.

Ele - E eu nem sei se no final isso ainda seria assim. Eu não sei se fossem quatro, se o casal ainda tiraria. Acho que a gente ainda tentaria o risco. Acho que, bem pensado, a gente ainda passaria o risco de perder os...

Ela - Quatro eu não sei. Sobre isso eu não sei. Essa decisão seria ainda muito complicada.

Ele - Porque as estatísticas ainda jogariam com o pouco que elas têm.

Ela - Inclusive, quando eu fiz o ultra-som, que eu e o (nome), a doutora fomos juntos e ele disse que eram três.

Ele disse: não conta para ninguém que são três. Nós não contamos nem para os nossos pais.

Marlene: Por que ?

Ele - Porque na cabeça dele já passou a possibilidade de ter que tirar.

Ela - Claro que nós contaríamos para nossos pais.

Marlene: Vocês acham que é justo que o casal decida sobre isso, ou isso deve ser legislado?

Ele - Eu acho que o casal tem que decidir. Porque, se fosse legislado, provavelmente eles teriam tirado sem que ela nem soubesse.

Ela - Eu acho que deveria ser legislado, abrindo também um termo de compromisso da parte do casal. O casal teria que ter o direito de optar entre fazer ou não. Assumindo um termo de responsabilidade. É a mesma coisa quando uma pessoa faz uma cirurgia em que existe um risco. Quando corre o risco de vida a família não tem que autorizar. Ao meu ver seria a mesma situação.

Ele - Eu acho que neste caso a última palavra é do casal. Porque até os médicos poderiam fazer. Eles podem te levar lá para fazer um exame e tirar. Eles podem dizer que vão tirar o material para ver como estão os fetos e retiram um a partir do momento que tivesse uma legislação. E, por isso, eu acho que a última palavra é do casal.

Ela - É como eu disse, quando tu vais fazer uma cirurgia de risco, a família não tem que assumir um termo de responsabilidade? É a mesma coisa. A legislação diz isso. Se tu és contrária àquilo, então tu vais arcar com todas as responsabilidades. Então deveria ter um termo que tu assinarias arcando com todas as responsabilidades. Como todo e qualquer risco que porventura tu viesses a ter naquela gravidez. E assinar que tu és e que tu não vais tirar e pronto. Não existem casos por aí de pessoas que são contra transfusão sangüínea? Então eu acho que seria a mesma coisa. E agora também daria o direito para quem quisesse fazer o que achasse melhor. Eu fui à frente, graças a Deus, eu consegui. Mas muitas pessoas não têm como fazer isso. Eles sabem que não tem como por pré-eclampsia. Se já tem um quadro de pré-eclampsia. O médico tinha medo de pré-eclampsia.

É sempre bom lembrar que todo esse relato não existiria se os fatos tivessem sido evitados, simplesmente transferindo menos embriões. Dos três projetos que tramitavam no Congresso Nacional até 1999, um deles11 propunha a diminuição de quatro embriões para três, na ocasião da transferência, bem como a exclusão de penalidade para a redução embrionária em caso de risco de vida para a mãe. Posteriormente, o projeto do PL1184/2003, da relatora deputada Perpétua Almeida, apresentado no Senado em junho de 2003, propõe transferência de embriões somente a fresco e em número de até dois embriões. Sobre a redução embrionária, ou ela não é mencionada ou é proibida tanto no projeto PL120/2003, do deputado Roberto Pessoa, de março de 2003, quando no PL2061/2003, do deputado Maninha, de setembro de 2003.

Para o CFM, a redução embrionária é um aborto, o profissional pode ter seu registro cassado caso se comprove a denúncia. Segundo Diniz12: diferente de outros países, que optaram por não delimitar na lei o número de embriões a serem transferidos por ciclo, no Brasil essa vem sendo uma questão fundamental, impossível de ser resolvida senão por meio da imposição de uma lei. Devido à legislação nacional proibitiva em relação ao aborto – a interrupção de gravidez é considerada crime com penalidades previstas em lei, exceto em casos de risco de vida materna e de gravidez resultante de estupro e se executado nos três primeiros meses de gestação –, o tema da transferência embrionária e seu correlato, a redução embrionária, tornaram-se pauta preferencial de discussões.

PROBLEMAS E PRÁTICAS: LEGISLAÇÃO, EMBRIÃO, CRIANÇA E FILHO

Segundo Diniz13, o problema da redução embrionária esteve presente desde o início do processo normativo brasileiro, mesmo se alguns projetos considerem a possibilidade de redução embrionária, somente em casos em que não há outro jeito de salvar a vida da gestante. Segundo ela, a medicalização da redução embrionária foi uma saída eficaz durante os primeiros tempos da medicina reprodutiva no Brasil. Considerava-se a indicação da redução embrionária, e não havia punições para quem a praticasse. Para justificá-la, apelava-se às legislações de outros países, especialmente às recomendações do Warnock Report14, nas quais não estava estipulado o limite máximo de embriões a serem transferidos por ciclo e não se deliberava sobre a redução embrionária. Hoje todos os projetos que circulam na Câmara Federal e no Senado partem do princípio da intocabilidade da vida do embrião.

De acordo com Diniz15, a gravidez multigemelar e a redução embrionária têm sido analisadas à luz da legislação nacional sobre o aborto e não são tratadas como questões básicas de saúde da mulher ou ainda como restrições científicas e técnicas. Trata-se de um silêncio que une os representantes dos interesses da medicina reprodutiva e os das comunidades religiosas, em uma harmonia difícil de ser desfeita, pela dificuldade em se perceber as possíveis diferenças entre eles.

O resultado disso, segundo a autora, é que não se discute a relação entre o número de embriões a serem transferidos em cada ciclo em cada situação, nem o risco de gravidez múltipla, nem a questão da proibição de redução embrionária e nem as questões que dizem respeito à saúde da mulher, fases interdependentes das técnicas reprodutivas.

A premissa de que o embrião é um filho impede, do ponto de vista social e psicológico, qualquer interrupção de gravidez. Esse sentimento transforma qualquer ato que tente preservar a saúde da mulher em crime. O casal do extenso relato esteve amparado por toda uma rede de orientação e por ponderações da parte dos médicos envolvidos com o processo, desde a inseminação até o diagnóstico de trigêmeos. A equipe médica estudava a possibilidade de uma redução embrionária, embora, nesse caso, deixaram a decisão para o casal, que durante muito tempo sofreu a angústia de não saber como proceder, principalmente porque eram contra o que consideravam um aborto.

O marido diz: aí, marcaram uma reunião para conversar, para mostrar como é que era feito. Mas nós não deixamos ter uma reunião, eu liguei para lá e disse: não é preciso fazer uma reunião para nós resolvermos. Nós resolvemos que ou teríamos os três ou não teríamos nenhum. Nós corremos o risco, corremos o risco de perder todos ou de ter todos; preferimos arriscar.

Embora estejamos falando durante todo o tempo em casal, e nesse caso o marido tenha sido extremamente participante, segundo o relato da esposa.

Ela - Eu fiquei sete meses e meio em casa. Eu não podia fazer nada, no início eu ainda conseguia sair para comprar alguma coisinha. Mas muitas coisas ele comprou sozinho, e ele inclusive era superbabão comigo. Quando ele chegava em casa, eu só ouvia barulho de sacolas, ele sempre vinha com um monte de coisas. E ele me ajudou muito, porque um mexendo, todo mundo já diz que é horrível, imagina três. Várias noites, às 3 horas da manhã, ficava ele andando comigo dentro de casa para ver se eles se ajeitavam. Ele sempre esteve muito presente. Ele abriu mão de um monte de coisas para ficar comigo.

É preciso lembrar que foi ele também a marcar uma consulta em reprodução assistida, sem que ela soubesse, porque ela relata que “depois da primeira experiência”, ....

Aí a minha cabeça não funcionou mais. Tanto que eu levei mais dois anos, quase três, para me convencer a ir a Porto Alegre conversar com o médico.

Ele - Convencer não, eu marquei a consulta e só avisei dois dias antes da gente ir.

Ela – É, ele marcou e disse: olha, nós vamos. Me deu uma enxaqueca tão brava, e eu fui com enxaqueca e tudo. Foi tudo muito rápido, quando eu vi eu já estava num processo no qual não havia mais retorno.

Ele - Eu marquei mais para não interferir na parte dela de medo, na parte emocional dela, porque aí ela já começava pensar antes. Eu, no caso, acho que até ela não engravidou naturalmente por bloqueio, ela tinha medo.

Também foi para ele a comunicação médica sobre a transferência de cinco embriões. Ela tinha seis embriões de oito óvulos, um dos embriões parou de crescer antes da transferência. Essas falas dão indícios de uma decisão entre homens sobre as mulheres, mesmo que às vezes sejam os homens que marcam as consultas com médicas mulheres. Não está em jogo aqui o sexo do médic@ mas a visão da ciência que é veiculada. De todo modo, é uma decisão sobre o processo reprodutivo de suas esposas que faz pensar nas desigualdades de gênero imbricadas nessas práticas.

Mesmo se, nesse caso, o casal tenha sido envolvido na angústia, e no sofrimento sobre a continuidade da gravidez. Será no corpo da mulher que se desenvolverão as crianças e que também ocorrerão todos os riscos e as situações-limite entre a vida e a morte. As mulheres parecem estar sempre de acordo, mas, ainda assim, esse seu concordar merece uma análise mais profunda sobre o quanto não estariam apenas atendendo a uma demanda configurada no casamento com sua função na relação social de fazer filhos. Ou, o quanto elas estariam atendendo a demandas psíquicas que não são suas, mas dos seus pais, dos amigos, do marido, do conjunto de relações que as engendram, ou o quanto a própria infertilidade é sintoma de uma negação a maternidade.

O casal em questão justificava a sua decisão, no ato da entrevista, olhando para as crianças e dizendo que se perguntavam todos os dias qual delas teriam “matado”. Agora, diante das crianças, é impossível livrar-se da culpa, pelo fato de terem ventilado a possibilidade de tirar um dos embriões, mesmo se independente de sua vontade. A redução era apresentada pelos médicos, envolvidos no acompanhamento desse desfecho, como uma necessidade, para não correr o risco de perder todos os embriões, ou até mesmo de ocorrer a morte da mãe. O que, nesse caso, só não aconteceu porque esta mulher estava amparada, o tempo inteiro, pela cunhada que é médica e obteve acesso rápido ao hospital e à UTI nas situações em que apresentou paradas cardíacas e respiratórias.

Considerar a vida humana sagrada desde a sua concepção impossibilita discutir mais amplamente as questões que dizem respeito aos muitos riscos que as mulheres estão correndo, principalmente, quando se trata dessas situações extremas, geradas no interior dos processos de reprodução assistida.

E substituir embrião por criança, ou o interesse da criança colocado na realidade embrião, também cria situações-limites em relação aos riscos à mãe. É justo que os pais submetam crianças a situações tão graves? A redução embrionária não seria uma questão de bom senso e de responsabilidade também para com a vida das crianças, diante do risco extremo de morte a que elas foram colocadas, ao longo do processo de gestação e posteriormente ao seu nascimento? Ou melhor, é lícito deixar que a transferência embrionária continue ocorrendo sobre os critérios da busca de gemelaridade, como foi o caso, ou de sucesso, como é na maioria das práticas? O depoimento a seguir sobre o que ocorreu com as crianças, revela uma situação que poderia ter sido completamente evitada se a transferência de embriões tivesse sido menor. Isso seria o desejável, ou com uma decisão sobre a redução embrionária, embora, como conseqüência já de um processo de medicalização do excesso de nidação. Entenda-se que não estamos fazendo apologia a redução embrionária, mas, uma vez que são transferidos tantos embriões, essa opção está entre outras possíveis, e, precisa ser considerada pelos envolvidos.

Problemas com as crianças.

Ele - As crianças ficaram 25 dias na UTI. As crianças nasceram com 7 meses e meio. Esse primeiro aí do colchão nasceu com 1,230 kg, não, um 1,280 ; outro com 1,630 e 1,360, ela. Além disso, ela deu azar que no primeiro dia em que eu fui levá-la na UTI para ela conhecer as crianças, eles não deixam a gente entrar junto. E ela foi sozinha. E o... do meio fez a parada respiratória na frente dela. Na hora, então, ele teve que ser entubado. Ele nasceu maior, mas ele teve que ser entubado, ele teve uma série de problemas. Ele pegou uma bactéria, voltou; ele incomodou bastante. Ela - Os outros dois não, eles só ficaram para ganhar peso. Ele, pelo peso dele, não foi para incubadora, quando cheguei, ele estava no bercinho. Aí eu fui direto nele e comecei a conversar com ele e ele parou. Para mim foi horrível. Ele simplesmente olhou para mim e parou, ficou com o olho aberto, parado. Aí começou alarmezinho, todo o mundo correu. As pessoas disseram: não se preocupe, que é assim mesmo. Não te preocupa que foi só uma apnéia, me diziam.Eu chorava desesperada, tinha toda essa ansiedade, esse medo, a gente não sabia se ia dar certo ou não. Em agosto, eu comecei com contração; num domingo, 2h da manhã, nós fomos para a maternidade. Eu e ele e a irmã dele, eu não sabia se eu ficava lá ou não. Felizmente deu tudo certo, eu voltei para casa. Mas eu fiquei com aquele medo sempre. Eu e ele às vezes chamávamos a irmã dele (médica)..., lá vinha ela. Então tudo era bem ou de modo complicado. E até chegar na 28ª semana, quando eu ia começar a tomar a injeção para amadurecer o pulmão deles, para eles terem chance de ir à frente também. Se não, eles nasceram com sete meses e meio também, contrariando todas as expectativas, porque eles achavam que eu não iria segurar.

Outra situação-limite que acompanhei nos últimos tempos16, ela com 26 anos, ele com 28, já faziam tratamento para engravidar há algum tempo, quando resolveram fazer reprodução assistida via fertilização in vitro, na verdade quando estavam decidindo, eles me procuraram para conversar. Situação que é sempre delicada, o que me impede aqui de entrar em maiores detalhes. Mas, o fato é que decidiram, fazer fertilização, mesmo com todas as orientações sobre outras possibilidades e conselhos de casais que já haviam realizado ICSI. Soube, posteriormente, que estavam grávidos de três bebês. Três meninas, contrariando as expectativas da família que queria meninos. A gravidez foi levada até o sexto mês sem grandes problemas, mas, a partir daí, a médica recomendou que a mãe fizesse repouso absoluto porque apresentava contrações e dilatação. Diante da insistência da mãe em voltar para casa, a médica não esclareceu a necessidade de ficar no hospital, o que o casal passou a considerar um erro posteriormente. Os bebês nasceram prematuros, vindo a falecer uma das crianças, uma semana após o nascimento; todas elas foram submetidas a dias de internação e de UTI neonatal. A mãe ficou se deslocando para o hospital que estava a 80 Km de sua casa, e o pai em alto grau de angústia e stress acompanhava quando podia. A situação era limite, todas as crianças estavam com risco de vida. A mãe e o pai, e a cidade inteira estava na torcida sobre o resultado desse parto, embora, seja segredo de todos, a forma como os bebês foram concebidos.

Conversei com o casal algumas vezes, e a maior preocupação da mãe era: “será que meus filhos terão problemas no futuro com isso tudo?”

Em um dia de angústia, durante uma conversa o pai disse: “se a gente soubesse que isso iria acontecer, não teria transferido tudo, mas a gente queria um filho. A médica não orientou”.

Em relação ao fato de a mãe não ter permanecido no hospital, o casal avalia posteriormente, como o início de sucessivos erros médicos.

Alison - [...] É essa foi outra falha da médica. Foi outra falha grandíssima porque assim, oh. Ela tem experiência, ela convive com isso no dia-a-dia. A Aline já estava com estas contrações. Então ela queria internar a Aline, mas a Aline não queria ficar lá.

Aline - Era tão longe [...], tu sabes, ficar internada não é como na casa da gente.

Alison - Só que assim, ela não fez uma pressão, oh tens que ficar aqui porque estás correndo um risco. Ela não chegou a fazer um pouco de pressão. Ela não esclarece, ela não diz. Porque se ela dissesse: olha Aline, tens que ficar aqui. Ela é bem querida, tem jeitinho atende super bem, mas é insegura para decidir. Ela fica não sei...

Aline - É claro que ia querer ficar na minha casa. Quem é que quer ficar no hospital?!

Alison - Mas ela precisava considerar que tu tinhas que fazer 80 quilômetros. Eram três bebês.

Aline – O que eu sentia nela era muita tranqüilidade. Com essa gravidez de trigêmeos. Ela passava isso pra gente. Ela previa mais ou menos quando eu ia ganhar [...]; ela dizia que eu ganhar em março. E dizia que eu tinha que me cuidar até janeiro, e que depois de janeiro o que acontecesse não daria mais tanto trabalho. Mas deu o primeiro de janeiro eu ganhei. E o trabalho? Deu pouco trabalho? Um trabalho que ninguém esperava.

Alison – Não é trabalho isso [...] é o que a gente sofreu ai. Meu eu ainda, tem dias que ainda a gente tá bem. Outros, outros [...] e chora.

No presente como no relato anterior, apresenta-se muita culpa. Quando perguntei sobre se sentiam algum tipo de culpa pelo que aconteceu, Aline respondeu imediatamente: “A sim. Eu me culpei bastante”. Alison seguiu dizendo: “ Mas, tudo isso, Aline, não foi um erro nosso. É claro a gente tem culpa em parte. Mas a maior culpa vem da médica. Ela não podia ter feito isso.

Quando perguntei se haviam falado com a médica sobre o ocorrido, Alison diz: “Não adianta, isso foi uma coisa que passou, só se for para evitar que faça com os outros.

E Aline segue: “Mas é impossível ela não saber disso, ela deve se tocar disso; será que ela se toca disso?

Em alguns momentos da entrevista, coloca-se a discussão sobre o natural e o artificial do processo. De um lado porque fazer filhos dentro da relação sexual é considerado “mais natural”. De outro, porque no caso deste casal, por causa da morte de uma das meninas, eles sentem como se tivessem ferido a ordem natural das coisas.

Alison diz:
Não é uma coisa natural; é uma coisa programada. É uma coisa muito artificial. É muito artificial. Se bem que é como eu já disse pra ti, se a gente tivesse que fazer de novo a gente faria. Porque um filho para um casal é uma coisa inexplicável. O benefício que traz para o casal. Mas é muito medicamento; é medicamento muito pesado.

Perguntei se filho concebido através da relação sexual poderia ser considerado natural?

A que Alison respondeu:” É, o processo é bem mais natural. Uma coisa de Deus, assim. Acrescentei: e agora tu achas que tu feristes o plano dele? Uma norma de Deus?

Ele responde: “É uma coisa assim, uma coisa que não é o certo da natureza, uma coisa normal.” E acrescenta: “Talvez eu esteja falando isso porque a gente perdeu um neném, talvez se a gente não tivesse perdido o neném eu não diria isso” .

Perguntei: Mas tu pensas que a perda do neném é castigo divino?

Alison - “Eu não sei, hoje em dia a gente não tem certeza de nada. Ninguém dá uma explicação pra nada hoje em dia”.

Aline diz: “Mas às vezes precisa fazer repouso, eu fiz repouso”.

Ele volta ao tema da responsabilidade médica. “Só que o que ela passava para a Aline era bem natural, nada artificial. Ela recomendava o repouso”.

Aline - Decerto ela achava que eu ia trabalhar. Talvez pensasse que eu ia abastecer, limpar carro. Depois que eu engravidei, não fiz nunca mais nada disso. Eu ficava no caixa, sentadinha.

Alison - Ela ia na casa da mãe tomava o café com horários bem controlados.

Aline – De repente, se eu tivesse feito um pouco mais de repouso, talvez eu tivesse conseguido sustentar mais um mês. É isso que eu fico me culpando às vezes. Parece que eu não fiz repouso suficiente. Mas isso era algo normal da natureza. Eu encarei com naturalidade. Ela falava com tranqüilidade, com naturalidade sobre o repouso. Ela nunca nos pressionou para fazer repouso.

Alison - Tá assumindo uma culpa que nem é nossa.

Aline - Ela poderia ter dito para ficar no hospital.

Alison - Ela tem uma carga horária muito puxada. É assim, oh a gente chegava lá. Ela não tinha tempo. Ela não almoçava, chegava o pessoal da tarde e ela atendia a uma hora. A gente chegava às 10 horas; ia ser atendido a 1 hora. Ela não almoçava. Estava chegando o pessoal da tarde, e nós estávamos lá e já estava chegando o pessoal da tarde. Ai que tá; ela não tinha tempo para dar uma atenção pra gente. Pra fazer a gente ver como é o negócio, o negócio todo. Ela quer abraçar tudo de uma vez só. A fama né. Ela falou que a clínica dela era a que mais dava certo, né Aline. Que o maior índice de sucesso era o dela. Ela mexe com um monte de coisas, mexe com o nosso emocional, com hospital, com UTI, com neonatal, leito superlotado.

Um ponto bastante sofrido foi a referência constante sobre a bebê que havia morrido. Ela já tinha nome; eles se referiam a ela, sempre pelo nome, como alguém que havia partido antes da hora, e como um vazio deixado na relação com as duas bebês que sobreviveram.

Quando perguntei: E quando vocês olham para as duas vocês lembram da outra. Ele respondeu com a voz entrecortada “quase sempre”, comentário que foi seguido pelo choro.

Tentei quebrar a situação e disse: isso te machuca? Ele chora e diz: bastante (silêncio), e acrescenta: “ eu a visito no cemitério”. Aline acrescenta: eu não vou.

Ele pondera: “Nesse pedaço a Aline é mais forte. Daí assim oh. É difícil, e eu sempre choro” .

Aline completa: “Talvez com o tempo”.

Eu pergunto e como é conviver com a vida e com a morte?

Alison diz: “A gente fica revoltado ao mesmo tempo; vem a alegria total. Mas a médica jamais poderia ter colocado cinco embriões. Jamais. A gente também não deve falar muito, Marlene, porque assim oh.....porque graças a Deus a gente tem as duas. A gente tem as duas.

Ponderei que talvez poderia ter havido outras escolhas. Perguntei se a médica os tinha consultado sobre a transferência dos embriões. Quando ela resolveu pôr os cinco embriões o que ela disse? Ela perguntou?

Aline respondeu – “Ela disse que achava melhor colocar todos”.

Perguntei: Ela disse logo assim, é melhor colocar todos?

Aline responde: “Ela disse que não eram bons”.

Perguntei sobre quem deveria decidir em relação a quantidade de embriões a serem transferidos. Aline respondeu imediatamente: “O médico”.

Ponderei: “Mas ela decidiu” .

Aline disse: “Ela decidiu errado, ela colocou cinco. Ela tinha que colocar dois, no máximo.”

Alison completa: Ela jamais deveria ter posto cinco. Ela devia por dois.

Insisto: Ela deveria ter perguntado?

Alison responde: Ela até perguntou [...]; ela queria colocar quatro. Mas, aí, ela disse que os cinco estavam prontos e que ia por os cinco. Aline lembra: “ela disse que não tinham qualidade17.

E segue dizendo: “Alison, mas olha, antes de qualquer coisa a gente tinha que ter feito essa conversa. Antes de iniciar o tratamento. Antes de tudo. Se a gente tivesse tido essa conversa que a gente teve hoje. Jamais ia por cinco”.

Alison retruca: “Com a carga horária que ela tem. Ela não tem condições nunca de ter uma conversa. É que com o ritmo que ela tem é impossível dispor de meia hora para explicar. Ela atende telefone, atende mil pessoas18.

O discurso sobre a qualidade do material é utilizado pelos médicos sempre, e é imprescindível tanto para manter as expectativas de sucesso quanto para preparar o casal, quando o médico acha que não dará certo. Fala-se no número de folículos, na qualidade dos óvulos e espermatozóides, na qualidade dos embriões. Alerta-se para o fato de que esses elementos são fundamentais para se obter um bebê. Esse comportamento, na maioria dos casos, impede que o casal se rebele contra outros fatores, como a tecnologia, o medicamento, as condições da clínica e do laboratório, o conhecimento médico, que jogam igualmente papel fundamental em relação aos resultados, se positivos, ou não19.

Nesse caso ganha outra ordem de conteúdo, possibilita uma decisão sobre transferência de embriões em maior número.

Em relação a este vivido em geral (são muitas as questões aqui), o marido parece estar sempre mais lúcido sobre os critérios do agir médico e assume durante a entrevista uma atitude de analítica e orientativa em relação a sua companheira.

Ele diz: “É que é assim, Aline, ela quer sucesso em tudo o que ela faz. Ela vai estar sempre do lado certo. Ela quer garantir sucesso em tudo o que ela faz. E para garantir sucesso ela usa até a última, até a última. Ela usa todos os cartuchos que ela tem. Entendeu. Tu vês ela colocou cinco embriões”.

Volta-se para mim e diz:” Pela idade da Aline, pelo organismo dela”.

Se volta para Aline e diz: “Estava tudo perfeito, né Aline.

E segue: “Pelo que ela tinha, ela conhece o organismo das pessoas, ela é uma médica. Sei lá, ela não precisava ter colocado cinco. Se a Aline tivesse 35 ou 40 anos. Se uma pessoa está perto dessa idade, aí tudo bem colocar os cinco. Também, não sei também. Mas no caso da Aline a taxa de sucesso era talvez até então. Eu sempre dizia para Aline que vai dar certo, não tinha porque não dar. Eu dizia, tu és uma pessoa nova, uma pessoa que não tem problemas de saúde. Mas, também, não deu outra né [...] e foi [...].

Seguindo o relato das complicações que viveram, Aline diz: “Eu tive complicação. Eu tive hiperestimulação. Com a medicação eu tive ascite depois da transferência”.

Alison completa: “Mas olha ela não conversou nada. Nada sobre o que estamos falando agora. Nada. ...A gente não foi nada informado. Sobre nada. Nunca teve esse diálogo”.

Perceba-se que o casal está elaborando sua compreensão diante do ocorrido na situação de entrevista

Perguntados sobre o que teriam feito caso tivessem sido informados ele responde: “Seria importante porque a gente sabia que algum risco sempre se corre porque não é uma coisa natural. É uma coisa artificial. Desde o medicamento, a fertilização dos óvulos, a fecundação ali, etc. Só que isso deve ser feito com dois embriões. Jamais com cinco”.

Ela - Eu nada sabia sobre a hiperestimulação.

Ele - Ela podia ter diminuído a dosagem de remédio, já que a Aline é uma pessoa nova. Não dá tanto remédio porque a Aline tinha caixas de remédios; ela enchia.

O fato acima dá conta de relatar a experiência prática dos casais, e coloca a questão de que é preciso considerar a rotina tão intensa de cuidados, exigida pelos bebês, e pela manutenção do segredo sobre sua concepção, o que torna muito difícil administrar o cotidiano após o nascimento de tantos bebês de uma vez.

Nesse caso, marcados pela morte de um deles. Como conciliar trabalho, recursos econômicos e atenção prioritária aos bebês. Além disso, existe a questão do interesse da criança que têm também suas conseqüências práticas, jurídicas e institucionais. Nesse caso parece tratar-se da necessidade de focar com maior rigor os exageros quanto ao número de embriões transferidos, uma vez que uma decisão posterior, seja para reduzir ou para administrar culpas, é bem mais exigente em termos de mediações sociais, familiares, psicológicas, emocionais e afetivas, para citar algumas. Sem pensar nas questões relativas ao relacionamento do casal pós-nascimento e ao sustento de tantos filhos de uma só vez.

Estou de acordo de que há um crescente consenso no sentido de que é preciso regulamentar as tecnologias reprodutivas no Brasil, tanto no que diz respeito ao acesso, quanto ao seu uso profissional. No entanto, além da incorporação dos debates sobre pesquisas científicas com embriões e da alocação de recursos para o exercício da reprodução assistida nos serviços públicos, conforme já apontando por Diniz20. Há necessidade de regrar as condutas que passam por dentro dessas práticas nos consultórios e que não dizem respeito a um quadro legal coletivo, mas que se configuram de um jeito nas clínicas privadas e de outro nos serviços do SUS, embora em ambos possam comprometer a integridade e a dignidade das decisões. Condutas que são envoltas em subjetividades e iguais periculosidades, mesmo que sobre elas seja difícil legislar, mas, se possível fosse, pouco ou nada adiantaria, porque ainda passam pelos entendimentos da subjetividade médica sobre a vida. Muitas são as falas que fazem pensar sobre isso, e, talvez só a publicização e a discussão coletiva permita uma atenção maior por parte da sociedade em relação ao que está acontecendo.

Deste modo, nos limites de um artigo, queremos pontuar que o uso das NTRc, em razão do desejo de ter filho pode ser uma falácia que opera a busca de identidade e sentido, por parte do sujeito feminino e para o desenvolvimento da pesquisa e da experimentação científico-tecnológica, que não responde ao desejo de nenhuma mulher. É lícito perguntar-se sobre o destino psíquico de uma criança gerada em tais condições? O filho, nesse caso, não seria apenas um capital narcísico, e a supervalorização genética e genealógica não estaria apenas colaborando para isso?

Quando se apresentam os aspectos ligados aos riscos, está-se, ao mesmo tempo, diante do desafio de se colocar dentro e fora da crítica feminista. Dentro, para se analisar o que significam os interesses políticos, mercadológicos, a relação custo-benefício, as condições de desinformação dos casais que procuram essas tecnologias, e do próprio desconhecimento médico sobre essas formas de tratar. Tomar em conta o dever da concepção que está sendo reforçado no interior dos processos da busca pela paternidade, através do filho biológico/genético, e da maternidade essencializada, faz pensar o modo como os seres humanos estão escolhendo viver. A ampliação do consumo dessas técnicas se transforma rapidamente na única solução para a esterilidade, tornando-se socialmente impositivas, apesar dos seus altos custos, de seus impactos sobre a saúde e de uma taxa de êxitos proporcionalmente limitada.

Estar fora da critica feminista permite pensar os novos significados dos riscos, construídos pelos envolvidos, aliados, conforme afirmam Douglas e Wildavsky21, ao fato de que as escolhas das nossas instituições e de como queremos viver, levam a medos comuns, assim como a um acordo implícito sobre o que não devemos temer. No caso das novas tecnologias reprodutivas, isso parece ser um dos aspecto importante, associado ao substrato cultural de gênero que ainda valoriza em demasia o papel da maternidade como vínculo de reconhecimento social, com todas as espécies de mitos que nele podem estar embutidos.

Logo, as escolhas estão “empapadas” pelo processo sociocultural que, segundo Douglas e Wildavsky22, dificilmente tem uma relação direta com o caráter objetivo dos riscos. Os interesses das instituições médico-hospitalares, dos laboratórios e das clínicas, são apontados como espaços de vinculação com a nova construção da engenharia genética e são ligados à lógica do mercado, do consumo e da transferência biotecnológica. A associação de todos os atos reprodutivos permite também visualizar os aspectos que se constituem em novidades radicais no modo de conhecer e atuar contemporâneos e que, de alguma maneira, indicam a necessidade de revisar os valores fundantes da ação humana, como eles se coadunam, rearticulando o processo sociocultural ao processo sociotécnico, e como se interagem entre si23. No limite, as reais possibilidades da vida humana estariam sendo transformadas, para que se possa até mesmo gerar um mundo de criaturas híbridas, como descrito por Haraway24.

O desafio que persiste para a consolidação conceitual e prática dos direitos reprodutivos estabelece-se no questionamento do forte legado dessa base (individualista e liberal) da modernidade, que iguala, ontologicamente, o dizer não à maternidade imposta, com o dizer sim à maternidade tecnológica, a naturalização das diferenças sociais e a remodelação cultural da natureza25.

Essa paradoxal situação afirma o individualismo e o conservadorismo no contexto das altas tecnologias. O retorno à “ficção biológica” e à procriação pode reforçar, em certa medida, de uma parte, as tendências etnicistas, inclusas as racistas, por causa das discriminações; de outra parte, o individualismo, próprio das sociedades industrializadas, o que leva em si, oculta a reivindicação da realização de velhos fantasmas, tanto por parte dos casais que demandam um filho biológico, como por parte dos cientistas e médicos que baseiam sua ação, na ética querer do casal e na ajuda à natureza26, em condições desiguais de gênero.

Portanto, não é suficiente a crítica à sociedade de risco como uma sociedade auto-crítica. As práticas de denúncias do risco trazem um conflito fundamental que a caracteriza e que se coloca no bojo do velho ordenamento industrial, como apropriação da natureza. Tal conflito, segundo Beck27, se refere as contradições ideológicas, culturais, econômicas e políticas, agrupadas e perfiladas, umas frente às outras, em torno da dicotomia “seguro inseguro”. A questão muito bem colocada pelo autor é: ou se combate a imprevisibilidade e a desordem produzida pelo modelo da racionalidade teleológica com os procedimentos da velha sociedade industrial (más técnicas, mercados, Estado), ou se começa aqui uma maneira de pensar e atuar distinta, que aceita a ambivalência com todas as conseqüências de grande alcance para o conjunto e domínios da ação social.

Essa perspectiva só é possível, segundo Beck, quando se abandona a ótica da ordem, a visão unidimensional da racionalização ocidental e passa-se a se preocupar com a própria reflexão científica, colocando no centro do social o ambíguo, o incerto, o contingente e o contextual, assumindo uma postura reflexiva. O mesmo em certa medida, nos sugere Dhavernas28, ao refletir sobre as dificuldades que tem em romper com antigas concepções e aproveitar das “novas realidades” para eliminar de uma vez todas as noções de continuidade. A perenidade existente dentro dos modelos espontâneos é sentida como necessária, cuja evidência, no que se refere à maternidade, não é desprezível no pensamento patriarcal. Lugar da fala de onde o feminino é associado à desordem e ao caos, e o maternal representa a permanência e a imutabilidade. Ambos coexistem, por sua vez, dentro da essência atribuída às mulheres, e à medida que nos posicionamos contra outras possibilidades, poderíamos, segundo ela, estar mantendo todas as dicotomias, com suas essencializações sobre o corpo.

O problema é que ao meu ver, mesmo que pensemos uma série de escolhas colocadas a disposição para os indivíduos; mesmo que a resposta, apropriada ou não, seja construída a partir do horizonte compartilhado da realidade; e ainda que consideremos os intercâmbios com pessoas e objetos no contexto da prática diária, como condição necessária do que pode ser dito, e dos significados implicados na consciência prática29, ainda assim, apropriar-se da realidade externa é um caminho de realidade mediada, onde o corpo encontra-se em risco constante, inclusive nos ambientes mais familiares.

Desse modo, somente os sistemas de confiança sem as mediações legais não respondem às necessidades subjetivas das mulheres e, embora organizem grandes áreas do ambiente material e social, não é possível para a maioria delas a oportunidade de escolha e a certeza do funcionamento apropriado. Além disso, há que se ter em conta que os direitos têm sido interpretados como atributos dos indivíduos, faltando, por vezes, as responsabilidades recíprocas para uma sociedade justa. Isto implica também em segurança, o que não significa apenas estar livre de doenças, mas de abusos, dentre eles, a ausência de coação.

Portanto, nos ataques politicamente engajados feitos a vários empirismos, reducionismos ou outras versões da autoridade científica, a questão não deveria ser relativismo e sim posição30. Segundo Haraway, conhecimentos locais também têm de estar em tensão com as estruturações produtivas que obrigam traduções e trocas desiguais, materiais e semióticas, e obrigam a encarar o lugar particular como um mapa de tensões, ressonâncias, transformações, resistências e cumplicidades. Buscar, portanto, as interfaces, as metáforas e as maneiras de entendimento e de intervenção nos padrões de objetivação do mundo. No interior desse processo encontra-se modos de apreciar simultaneamente ambos o aspecto concreto, “real”, e o de simiose e produção no que chamamos de conhecimento científico. Desse ponto de vista, segundo Haraway, é preciso assumir uma postura a favor de políticas e epistemologias de alocação, posicionamento e situação, nas quais parcialidade e não universalidade é condição para ser ouvido nas propostas a favor do conhecimento racional. Esse conhecimento racional feminista não tem a pretensão do descompromisso, de pertencer a todos lugares e, portanto, a nenhum, de estar livre da interpretação, da representação, de ser inteiramente autocontido ou inteiramente formidável.

O conhecimento racional é um processo de interpretação crítica contínuo entre “campos” de intérpretes e decodificadores; é uma conversa sensível ao poder. Faz-se necessária uma postura de decodificação e transcodificação, mais tradição e crítica. O único modo de encontrar uma visão mais ampla é estar em algum lugar em particular. Saberes localizados requerem que o objeto do conhecimento seja visto como um ator e agente, não como uma tela, um terreno ou um recurso, e, finalmente, nunca como um escravo do senhor que encerra a dialética apenas na sua agência e em sua autoridade de conhecimento objetivo. Nesse sentido, para além da confiança em sistemas peritos, conforme proposto por Giddens, coloca-se o problema de quem os controla. A ciência nos últimos anos vê-se obrigada a ampliar o grau de diálogo com diferentes setores da sociedade, além de aumentar o número de rachaduras internas, demonstrando suas próprias contradições. A noção de riscos aceitáveis, riscos reduzidos a um ponto satisfatório pelo sistema perito, na prática não pode garantir que todas as mulheres sairão ilesas das experiências. Há que se tomar, portanto, uma postura de maior amadurecimento do significado social e ético dessas intervenções e sobre suas possibilidades de mudar de modo irremediável a singularidade humana (dos homens e mulheres das gerações futuras).

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NOTAS

1
A infertilidade, seja masculina ou feminina, define-se como a impossibilidade de um dos cônjuges para gerar um filho.

2
DINIZ, Déborah; COSTA, Rosely Gomes, 2005.

3
O arroba será utilizado em relação ao médico/a para neutralizar o sexo e focar o campo da biomedicina que neste caso interage com suas representações, seu simbólico e sua prática o que no meu estudo, independe do gênero do profissional.

4
LABORIE, 1993.

5
Disponível em: . acesso em: 29 jun..2000 .

6
IDEM.

7
BATAILLE, 1990.

8
BATAILLE, 1990.

9
Sobre a justificativa do desespero humano em particular das mulheres, ver FRANKLIN, Marilyn, 1990 e 1995.

10
BATAILLE, 1990.

11
Senado Federal - Projeto de lei do Senado, n. 90, 1999: 23. Autoria: Senador Lúcio Alcântara. Relatoria; Senador Roberto Requião. O relato completo, segundo Diniz (2000), encontra-se nas atas da Comissão de Constituição, Cidadania e Justiça no Senado Federal, Secretaria Geral da Mesa. Serviço de Comissões. Reunião Ordinária da Comissão de Cidadania e Justiça. 12/04/2000.

12
Diniz, 2000, p.14-15.

13
Diniz, 2000.

14
Warnock, Mary. Report of the Committee of Inquiry into Human Fertilisation and Embryology. Department of Health & Social Security. July 1984:5

15
Diniz, 2000.

16
Entrevista realizada em julho de 2004, casal acompanhado sempre que posso.

17
É interessante observar que também em entrevistas anteriores, essa fala sobre o embrião, que não é bom, ou o óvulo que não tem boa qualidade, ou o espermatozóide que não funciona, apareceu o tempo todo. Nunca é responsabilidade da equipe médica, ou do biólogo, ou do material utilizado, ou da tecnologia; nunca são os meios de cultura, ou a infra-estrutura da clinica. Jamais se discute os fatores externos, as células dos corpos;óvulo e espermatozóide, ou externos ao embrião (TAMANINI, 2003).

18
Há relatos dos casais sobre o agir médico que vai desde o atender telefones, fazer compras até de carros durante a consulta, dentre outras situações, em outras entrevistas, discussão que se encontra em TAMANINI, 2003.

19
TAMANINI, 2004.

20
DINIZ, 2000.

21
DOUGLAS; WILDAVSKY apud GUIVANT 1998.

22
DOUGLAS; WILDAVSKY,1983.

23
ROTÂNIA, 1999.

24
HARAWAY,1995.

25
AVILA,1997.

26
TAMANINI,2004.

27
BECK,1996.

28
DHAVERNAS,2002.

29
PHARO,2001.

30
HARAWAY, 1995.

 
* Doutora em Ciências Humanas, professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Paraná, membro do grupo de pesquisa Estudos de Gênero e do grupo Trabalho e Sociedade.
Representações de gênero, sexualidade e corpo na mídia
Representations of gender, sexuality and body on the media

Jane Felipe*

Resumo

O presente artigo pretende analisar as representações de gênero, sexualidade e corpo veiculadas pela mídia impressa e televisiva, a partir dos Estudos Feministas e dos Estudos Culturais, na perspectiva pós-estruturalista de análise. Trata-se, portanto, de discutir tais conceitos como construções sociais e históricas, analisando o papel da mídia brasileira na subjetivação dos corpos infanto-juvenis, especialmente no que diz respeito à erotização.

Palavras-chave: gênero, sexualidade, mídia.

Abstract

The main objective of the present article is to analyze representations of gender, sexuality and body propagated by the printed media and television from the theoretical and methodological reference in the Cultural Studies and Female Studies, especially brands associated with post-structuralist approach. This article also intends to argue how these concepts, understood as social and historical constructions, analyzing the paper of the Brazilian media in the subjectivation of the children’s and youthful’s bodies, especially about erotization.

Keywords: gender, sexuality, media.

O presente artigo pretende analisar as representações de gênero, sexualidade e corpo veiculadas pela mídia impressa e televisiva, a partir dos Estudos Feministas e dos Estudos Culturais, na perspectiva pósestruturalista de análise. Trata-se, portanto, de discutir tais conceitos como construções sociais e históricas, analisando o papel da mídia brasileira na subjetivação dos corpos infanto-juvenis, especialmente no que diz respeito à erotização. Pretendo ainda discutir o processo de ‘pedofilização’ como prática social contemporânea, bem como compartilhar algumas pesquisas desenvolvidas sobre essa temática no campo da educação.

Especificando o campo conceitual

Os Estudos Culturais concebem a cultura como um campo de luta e contestação por meio do qual os indivíduos que formam os diversos grupos sociais, cada qual com suas peculiaridades e singularidades, vão se constituindo e produzindo sentidos.

Atualmente, é possível verificar que as pesquisas desenvolvidas no campo dos Estudos Culturais se apresentam bastante diversificadas e múltiplas questões têm sido abordadas: desde aquelas que dizem respeito às práticas escolares e pedagógicas propriamente ditas, até as que se voltam para a discussão acerca das produções desenvolvidas em outras instâncias culturais como é o caso de programas de rádio e televisão, propagandas, filmes, novelas, jornais, revistas, entre tantas outras que poderiam ser mencionadas.

Os Estudos Feministas, por sua vez, trouxeram para o âmbito acadêmico a discussão de temas antes tidos como secundários, tais como família, sexualidade e trabalho doméstico, até então considerados pouco importantes no cenário teórico (MEYER, 2003b). Além disso, estudiosas feministas (SCOTT, 1995; LOURO, 1997, 1999, 2004) têm procurado compreender gênero como uma categoria relacional. Sendo assim, os estudos e as pesquisas recentes em torno dessa temática procuram articulá-la com outras categorias tais como geração, raça, etnia, classe social, entre outras. Cabe ressaltar que a abordagem pósestruturalista possui um caráter bastante produtivo para as pesquisas que lidam com essas categorias, trazendo a possibilidade de discutir as relações de poder existentes na sociedade. Na análise pós-estruturalista não há o intuito de “procurar” e “descobrir” verdades fundantes que poderiam estar escondidas em algum lugar1. Tal processo, por sua vez, remete ao conceito de representação, que reúne tanto práticas de significação lingüística e cultural como sistemas simbólicos por meio dos quais os significados podem ser construídos. Tais significados, por exemplo, auxiliam meninos e meninas a compreenderem as experiências vivenciadas e, a partir daí, escolherem o que devem ser e fazer, delineando assim suas identidades (MEYER, 2003b).

Cabe, portanto, destacar que o conceito de identidade deve aqui ser tomado algo impresso pela cultura, na medida em que as identidades são nomeadas a partir de um determinado contexto, e de expectativas que se criam em torno delas, como por exemplo ser homem ou mulher, ser homo ou heterossexual.

Desta forma, é possível afirmar que nossas identidades são constituídas culturalmente e estão fortemente vinculadas às práticas sociais. Para Stuart Hall (1997, p. 33) toda prática social depende e tem relação com o significado: “consequentemente, a cultura é uma das condições constitutivas de existência dessa prática, que toda prática social tem uma dimensão cultural” e ainda, que ela tem um caráter discursivo.

Em relação à infância, a construção das identidades articula-se aos discursos a respeito da criança que são veiculados e sustentados por diversos artefatos culturais. Dentre tais artefatos, a mídia vem ocupando lugar de destaque nos últimos tempos, na medida em que veicula uma gama enorme de informações sobre os mais variados assuntos. Tais informações mostram desde modos de ser criança até do que devem gostar e como devem proceder.

Shirley Steinberg e Joe Kincheloe (2001, p. 14) argumentam que existem novas áreas de aprendizado que podem ser chamadas de Pedagogias Culturais. Tais pedagogias incluem a escola, mas vão além dela, abrangendo uma variedade de locais, “onde o poder é organizado e difundido, incluindose bibliotecas, TVs, cinemas, jornais, revistas, brinquedos, propagandas, videogames, livros, esportes, etc.”

Mídia e produção de conhecimento

A velocidade com que surgem novas tecnologias têm possibilitado a emergência de outras instituições culturais que, de uma forma ou de outra, acabam por educar e auxiliar na construção de identidades de meninos e meninas, jovens e adultos. Neste sentido, a mídia se tornou, nas últimas décadas, uma poderosa instância de produção do conhecimento. Como afirma Rosa Fischer (1999, p. 18)

Se considerarmos que a mídia, hoje, é responsável por um imenso volume de trocas simbólicas e materiais em dimensões globais, abre-se para a educação um novo conjunto de problemas, numa dinâmica social que exige não só medidas urgentes por parte das políticas públicas educacionais, mas igualmente uma reflexão mais acurada sobre as relações entre educação e cultura (...).

Os discursos veiculados pela mídia acionam poderosos efeitos de verdade, que podem contribuir significativamente para a construção das identidades dos sujeitos. Neste sentido, podemos afirmar que a mídia, especialmente a televisiva, pode ser considerada como um espaço educativo, uma vez que produz conhecimentos a respeito da vida, do mundo que nos cerca, de como devemos ser ou nos comportar, do que devemos gostar.

Rosa Fischer (2001, p. 18) argumenta ainda que a televisão contribui decisivamente na constituição e formação dos sujeitos contemporâneos. Ela chama a atenção para o fato de que a “(...) a presença da TV na vida cotidiana tem importantes repercussões nas práticas escolares, na medida em que crianças, jovens e adultos de todas as camadas sociais empreendem modos de ser e estar no mundo também nesse espaço da cultura”.

Bianca Guizzo (2005), em sua dissertação de mestrado, menciona a pesquisa feita por um canal de TV à cabo2, mostrando que 81% das crianças entrevistadas assistem à televisão mais de 3 horas por dia. Sobre tal fascínio das crianças pela TV, Steinberg e Kincheloe (2001, p. 42) ressaltam que a cultura infantil tem, muitas vezes, de providenciar uma fuga bem-vinda de tão dura realidade – não é de surpreender que o tempo gasto assistindo TV seja tão longo entre as crianças pobres e sem posses.

Associado à televisão há outras tecnologias (como videogames, por exemplo), que são dominadas com muita competência pelas crianças e adolescentes. Tais artefatos culturais – com destaque especial para a televisão – apresentam-se como importantíssimos instrumentos de formação, principalmente das novas gerações (GUIZZO, 2005).

Importante mencionar que, em seus primórdios – década de 50 do século XX – a televisão brasileira veiculava, fundamentalmente, programas destinados aos adultos. Programas infantis que se baseavam nos clássicos da literatura universal (Cinderela, Chapeuzinho Vermelho, Os Três Porquinhos, entre outros) foram os primeiros a incluir a criança como espectadora no mundo televisivo (PEREIRA, 2002).

Nos anos 60, as crianças deixaram de ser meras espectadoras e passaram a ser também protagonistas de algumas programações transmitidas pela TV, especialmente como personagem de espetáculos artísticos e culturais.

Já na década de 80, a inclusão das crianças na mídia sofreu algumas alterações, pois programas como o Xou da Xuxa (transmitido pela TV Globo de 1986 a 1995) promoviam gincanas e brincadeiras com a participação dos “baixinhos”. No âmbito desses programas, havia também a exibição de variados produtos infantis. A partir daí, no intervalo de programas desse tipo, as propagandas televisivas infantis passaram a ganhar maior destaque. Em tais propagandas as crianças eram interpeladas a comprar desde guloseimas (bolachas recheadas, chocolates, etc.) até roupas e acessórios que levavam o nome de apresentadoras desses programas infantis (Xuxa, Angélica e Mara Maravilha) ou dos personagens protagonistas (He-man, por exemplo) dos desenhos animados transmitidos durante a programação de tais programas. Conforme destacam Steinberg e Kincheloe (2001, p. 24; 2004), “corporações que fazem propagandas de toda a parafernália para crianças consumirem promovem uma teologia de consumo que efetivamente promete redenção e felicidade através do ato de consumo” (grifos dos autores).

Vale lembrar que de algumas décadas para cá, especialmente a partir da década de 50 do século XX, as crianças passaram a ocupar um lugar de visibilidade, inclusive sendo potencializadas como ávidas consumidoras (STEINBERG, 1997, 2001; BUCKINGHAM, 2002). Conforme ressalta Rita Pereira (2002, p. 84),

(...) a criança não é mais colocada como dependente do adulto, seja no âmbito mais amplo da esfera econômicopolítica, seja no plano mais restrito da vida familiar e escolar, mesmo porque o lugar que o mercado concedeu para a criança tem sua história intimamente ligada às transformações das relações entre adultos e crianças. Olhada inicialmente como filho do cliente que se relacionava com o mercado a partir do uso de bens materiais e culturais que se ofereciam a ela à margem da sua opinião, a criança é elevada ao status de cliente, isto é, um sujeito que compra, gasta, consome e, sobretudo, é muito exigente (grifos da autora).

Tal visibilidade que as crianças vêm ganhando nos últimos tempos é fruto de importantes transformações - sociais, culturais, econômicas e políticas -, conforme procurei mostrar em trabalhos anteriores (FELIPE, 1999, 2000, 2002)3.

Cabe lembrar ainda que embora os anúncios televisivos, e de forma mais abrangente a publicidade, tenham assumido definitivamente as crianças consumidoras, especialmente a partir das décadas de 70 e 80 do século XX, suas imagens, antes disso, já estavam presentes na publicidade. Elas eram visibilizadas em propagandas que ofereciam produtos tipicamente do mundo adulto como, por exemplo, automóveis, sabão em pó, bancos, seguros, etc. (PEREIRA, 2002). Atualmente, além de estarem presentes nas propagandas voltadas que anunciam produtos voltados especificamente a elas - picolés, brinquedos, jogos, filmes, videogames, roupas, calçados, entre outros -, as crianças também aparecem como protagonistas de anúncios voltados para os adultos (bancos, carros, seguros, computadores, etc). Em geral, são representadas como espertas, independentes e capazes (de manipular as tecnologias digitais, por exemplo). É possível afirmar que, em razão da TV ser um dos meios de comunicação mais utilizados pelas crianças, as propagandas televisivas nela veiculadas certamente produzem não só necessidades de consumo, mas acionam formas de subjetivação.

A mídia televisiva tem ocupado, desta forma, um lugar importante na vida não só das crianças, mas também dos adultos, na medida em que ela está presente em grande parte dos lares – ao contrário da Internet, por exemplo, cujo acesso é privilégio apenas de uma minoria privilegiada, em se tratando da realidade brasileira. A televisão, ao mesmo tempo em que é considerada um espaço de diversão, mostra-se também como um poderoso espaço educativo.

Sexualidades em discurso e corpos infantis erotizados

As análises advindas das contribuições de Michel Foucault (1989, 1992, 1993) sobre o uso do corpo e seus prazeres ao longo da história, as relações de poder-saber e o governo dos corpos, podem ser muito produtivas para se pensar alguns temas ligados à sexualidade, bem como perceber e analisar como os sujeitos têm sido posicionados pelos diferentes discursos – médico, psicológico, jurídico, religioso e educacional.

A sexualidade, por sua vez, tem sido colocada como central à nossa existência, sendo remetida em geral a um discurso essencialista e universal. No entanto, Jeffrey Weeks (1999) observa que a sexualidade, embora tenha como suporte o corpo biológico, deve ser vista como uma construção social, uma invenção histórica, pois o sentido e a importância a ela atribuída são criadas em situações sociais concretas. A sexualidade remete, portanto, a uma série de crenças, comportamentos, relações e identidades sociais historicamente construídas.

Na contemporaneidade os corpos podem ser entendidos como possíveis mensageiros, produzidos na pluralidade de culturas e práticas educativas. Segundo Graciema da Rosa (2004, p. 7), o corpo pode ser visto como “um hipertexto, cenário, mapa, sinalizador, território de protesto e de criação. Subterfúgios e dribles ... acessórios, adornos, decorações”.

Embora colocados em discurso de forma tão intensa nas últimas décadas, os corpos têm sido minuciosamente vigiados e controlados, especialmente no que se refere à sexualidade (FELIPE, 2005).

É importante observar o quanto determinados temas diretamente ligados ao exercício do corpo e seus prazeres, tais como violência sexual, pedofilia, estupro, homossexualidade, bissexualidade, permanecem praticamente intocados, em certos casos, quase inquestionáveis. A pedofilia, por exemplo, tem sido associada a uma prática eminentemente masculina, havendo poucos estudos e estatísticas sobre tal comportamento entre mulheres (GREEN, 2001). Os discursos que idealizam e glorificam a mulher-mãe têm dificultado a discussão mais corajosa de entendermos a maternidade também como aprisionamento. Autoras como Elisabeth Badinter (1985), Erica Burman (1999), Aminatta Forna (1999) e Dagmar Meyer (2000) analisam o quanto a suposta completude das mulheres por meio da maternidade tem sido construída historicamente, colocando-as como acima de qualquer suspeita, reforçando assim as concepções de que determinados comportamentos sexuais só podem ser praticados apenas por homens, em suas sexualidades “desenfreadas” e “animalescas”. Tais conceitos se conectam, portanto, às concepções e expectativas presentes em torno do exercício das masculinidades e feminilidades.

No âmbito escolar ou mesmo nos cursos de formação docente, esses temas são, quase sempre, ignorados. Em geral, quando ocorrem tais discussões em torno da sexualidade, estas se dão a partir de uma matriz biologicista, ou pelo viés da doença, da morte e da moral, principalmente depois do advento da AIDS.

Os resultados de algumas pesquisas têm permitido perceber o quanto as crianças estão sendo subjetivadas na construção de suas identidades de gênero e sexuais por um crescente apelo ao erotismo (GUIZZO, 2005; GUERRA, 2005).

O uso dos corpos infantis, especialmente os corpos femininos, visibilizados como desejáveis, têm sido uma constante na mídia brasileira, seja através da publicidade impressa ou televisiva, seja através de outdoors ou mesmo programas de TV (novelas, minisséries, etc). Esse processo de erotização crescente dos corpos infantis, que venho chamando de ‘pedofilização’, pode acionar algumas reflexões a respeito da interessante contradição existente nas sociedades contemporâneas, em especial na sociedade brasileira, pois ao mesmo tempo em que se lançam campanhas de combate à pedofilia (UNESCO, 1999; BRASIL, 2004), na tentativa de preservar a integridade física e emocional das crianças, propaga-se, no cenário brasileiro, uma espécie de pedofilia consentida, amplamente aceita e difundida principalmente pelos veículos de comunicação de massa, posicionando os corpos infantis como objetos de desejo e de consumo (WALKERDINE, 1999, FELIPE e GUIZZO, 2003). Em geral, a sociedade nem se dá conta do quanto ela própria está produzindo novas identidades sexuais e de gênero, a partir da objetificação de seus corpos.

A partir da perspectiva da análise cultural, seria interessante aprofundarmos as discussões em torno das representações de criança, infância e sua respectiva educação e de que forma tais representações têm sido veiculadas e objetificadas pela mídia (televisiva e impressa), especialmente no que se refere às questões de gênero e sexualidade, bem como seus possíveis efeitos para a formação das identidades infantis. Cabe ainda ressaltar a importância de estabelecermos, no âmbito da formação docente (inicial e continuada), um amplo debate sobre esses temas, levantando subsídios para a elaboração de propostas pedagógicas (como recomenda os Parâmetros Curriculares Nacionais), que levem em consideração a temática de gênero, sexualidade, em seus diversos atravessamentos (classe social, raça, etnia, geração, religião, entre outros). Tais discussões são indispensáveis para pensarmos sobre a grave situação de violência/abuso e exploração sexual infanto-juvenil.

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NOTAS

1
Para um maior aprofundamento de tais questões ver, por exemplo, Cheek (2000).

2
Trata-se de pesquisa desenvolvida pela Cartoon Network, canal de TV a cabo destinado ao público infanto-juvenil. A pesquisa foi feita com 1503 meninas e meninos de 6 a 11 anos das classes A, B e C de São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Belo Horizonte (VEIGA, 2003). Ver reportagem divulgada na Revista Época, em 03 de novembro de 2003.

3
Refiro-me à pesquisa Infância, sexualidade e gênero: a ‘pedofilização’ da sociedade e o consumo dos corpos infantis, cujo início se deu em agosto de 2002, com término em dezembro de 200

 
* Mestre em Educação pela Universidade Federal Fluminense – RJ e doutora em Educação pela Universidade Federal do rio Grande do Sul UFRGS. Professora do Departamento de Estudos Especializados da Faculdade de Educação da UFRGS e coordenadora do GEERGE - Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero, vinculado ao PPGEDU/FACED/UFRGS. (nana_felipe@yahoo.com.br)
MUDANÇAS SOCIAIS E GÊNERO : VIVÊNCIAS DE ATUALIZAÇÃO DE MODELOS DE MASCULINIDADE EM DUAS COM UNIDADES DE PERNAMBUCO
Gender and social changes: experiences on models of masculinities updates in two distinct communities from Pernambuco State

Karla Galvão Adrião*
Pedro Nascimento**

Resumo

Este artigo reflete sobre a transformação social no cotidiano de homens, de duas comunidades de baixa renda distintas – uma na região metropolitana do Recife/PE, e a outra no litoral sul do estado. O objetivo é apresentar o diálogo entre duas pesquisas realizadas com homens adultos destas duas populações, marcados por experimentarem situações de mudanças sociais em suas formas tradicionais de vida: para os homens da primeira comunidade, a vivência do desemprego, e para os da segunda, a de um processo de implementação de novas tecnologias aliadas ao trabalho pesqueiro. O estudo basear-se-á na relação analítica entre gênero e atualização de modelos de masculinidades.

Palavras-chave: Gênero, transformação social, masculinidades.

Abstract

This article reveals about the social change on men’s daily life in two distinct low budget communities, one in Recife’s metropolitan region and the other on the south coast of Pernambuco state. The main point is to present a dialogue between two researches made with adult men from this two communities, who have experienced social changes on their traditional forms of living: for the men in the first community, the fact of unemployment, and for those in the second, the process of implementing new technologies engaged on the fishing activities. The article is based on the analytic relation between gender and models of masculinities updates.

Keywords: Gender, social changes, masculinities.

Este trabalho busca refletir sobre a transformação social no cotidiano de duas comunidades distintas, através da relação analítica entre gênero e atualização de modelos de masculinidades. O objetivo principal é o de apresentar alguns resultados de duas pesquisas realizadas com homens adultos de duas populações diferentes, porém marcadas por experimentarem situações de mudanças sociais em suas formas tradicionais de vida. Uma dessas populações é formada por homens residentes no bairro de Alberto Maia, município de Camaragibe, na região metropolitana do Recife-PE, uma comunidade de baixa renda. A outra é constituída por pescadores do litoral sul de Pernambuco, envolvidos em processo de implementação de novas tecnologias aliadas ao trabalho pesqueiro, a partir de um projeto de difusão tecnológica do governo do Estado (PEditec)1.

Dentre as várias questões que foram discutidas em cada população, trataremos aqui especificamente de explicitar qual o modelo de masculinidade partilhado (CONNELL, 1997; VALE DE ALMEIDA, 1995 e1996) por cada população e as estratégias utilizadas frente às mudanças vivenciadas por aqueles homens para se apresentarem como indivíduos que partilham deste modelo.

Para o desenvolvimento da investigação, utilizamos a observação participante e a realização de entrevistas com informantes-chaves2. Com relação à primeira comunidade, os informantes são moradores de uma área específica, conhecida como Invasão. Estes homens dos quais falaremos são os mais pobres da comunidade. Poucos têm trabalho regular, sendo que a grande maioria vive de biscates e um número significativo não trabalha. A opção por esta população punha em evidência as questões ligadas mais especificamente à dimensão do trabalho em suas vidas, muito embora, vários outros temas tenham sido postos em pauta.

Na segunda, os homens investigados são pescadores da colônia Z- 12 que se situa em Porto de Galinhas, abarcando também a comunidade de Serrambi, litoral sul de Pernambuco. Através da colônia foi firmada uma parceria com o então chamado ‘Banco do Nordeste’ e o governo do Estado na época da pesquisa, para implementação do Programa Estadual de difusão tecnológica (PEditec). Este tinha por objetivo trazer incrementos tecnológicos ao trabalho artesanal em todo o Estado, através de microprojetos específicos. Em nosso caso, optamos por trabalhar com o programa de pesca marítima, investigando como foco central a questão das mudanças provocadas pelo impacto tecnológico. Neste projeto, técnicos da Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE participaram, e tinham como meta transmitir o conhecimento sobre o uso dos aparelhos eletrônicos: rádio VHF, GPS (Global Position System - Sistema de Posicionamento por Satélite) e Ecossonda (sonda para visualizar o ‘fundo do mar’) aos pescadores. Junto a esses equipamentos, os pescadores recebiam barcos de pesca mais possantes. Várias dimensões do mundo da pesca artesanal foram discutidas, porém interessa-nos aqui tarzer o debate sobre o universo do trabalho pesquisro, a introdução de novas tecnologias e os processos de atualização dos modelos de masculinidade.

O Gênero, os homens e as masculinidades

Para o desenvolvimento dessas pesquisas, procuramos explicitar quais eram os modelos de gênero segundo o qual homens e mulheres se orientavam em sua vida cotidiana. Esta forma de reflexão da masculinidade a partir do reconhecimento da existência de um modelo ideal ganhou força a partir de alguns autores que têm sido fundamentais para o avanço dos estudos nesse campo.

Os elementos destes modelos de masculinidade percebidos se coadunam basicamente com os estereótipos cristalizados culturalmente do “macho” (SAFFIOTI, 1987), para pensarmos em termos latinos, que são também, em nível mais geral, os valores mediterrâneos (PERISTIANY, 1971; BRANDES 1985). Tereza Valdes e Olavarria (1998, p. 14-15), referindose ao que é ser homem em Santiago do Chile, remetem à existência de um modelo semelhante, segundo o qual o homem tem autoridade, sobretudo no lar; é autônomo e livre frente a outros homens; tem força e coragem e não expressa suas emoções, tampouco chora; é o provedor do lar e é heterossexual. É possível pensar este modelo estendido a grande parte da América Latina, de acordo com os estudos de Norma Fuller (1998) no Peru, Mara Viveros (1998) na Colômbia, para citar alguns.

Para os objetivos deste trabalho não nos deteremos em apresentar detalhadamente como as características do modelo de masculinidade se apresentam para a população como um todo. O importante a ser considerado é que esta referência geral está presente na maioria dos homens. Isto não quer dizer, em absoluto, que todos eles se apresentam da mesma forma, mas referese à forma que temos utilizado para pensar sua presença através da noção de atualização. Chamamos de atualização o fato de que, mesmo quando os homens estão questionando ou criticando determinados elementos da masculinidade, é a esse modelo geral que eles estão se referindo, ao mesmo tempo em que sua vida cotidiana é marcada pela variação, ruptura, descontinuidade, etc.

As questões que nos foram colocadas e que viabilizaram esta investigação remetem a questionamentos mais gerais, que têm orientado as discussões em nível acadêmico e político nas últimas décadas no que se refere aos avanços dos estudos de gênero. No entanto, a problematização desses níveis implica em muitas do que apenas reafirmar que o gênero se constitui numa construção histórica e culturalmente datada. Não que isto seja uma questão menor. Suas implicações são fundamentais para que seja possível avançar, e muitos autores já se propuseram a traçar seu histórico sob vários prismas (BARBIERI, 1991; HEILBORN, 1992; SCOTT, 1993; VALE DE ALMEIDA, 1995; CORRÊA, 1996; FONSECA, 1996, para citar apenas alguns).

Referimo-nos à necessidade de incorporarmos a percepção de que, por ser constituído dessa forma, o gênero ultrapassa os sujeitos específicos que orienta e, para ser satisfatoriamente utilizado teoricamente, precisa romper com a associação inequívoca entre o masculino e o feminino e os sujeitos associados a um ou a outro. Nossa reflexão se apresenta como mais uma contribuição a este processo, mas ao mesmo ao e perde na noção de que o estudo sobre os homens prescinde do que se construiu ao longo desses anos de estudos sobre as mulheres e depois sobre o gênero (FONSECA, 1996). Pretendemos, assim, contribuir aos estudos de gênero na sua busca de superar a reificação no feminino (LEAL & BOFF, 1996). Para isto, partilhamos de alguns postulados de autores como Connell (1987 e 1997) em seu chamado à percepção de que não existe uma só masculinidade, mas sim, uma masculinidade hegemônica, que seria a masculinidade padrão, considerada normal e esperada/idealizada nas sociedades ocidentais; e que seria ‘branca, heterossexual e dominante’. Acompanhemos as palavras do autor:

Em vez de tentarmos definir a masculinidade como um objeto (um caráter de tipo natural, uma conduta-padrão, uma norma), necessitamos nos centrar nos processos e relações por meio dos quais homens e mulheres levam vidas envolvidas no gênero. A masculinidade (...) é ao mesmo tempo a posição nas relações de gênero, as práticas pelas quais os homens e as mulheres se comprometem com essa posição de gênero, e os efeitos destas práticas na experiência corporal, na personalidade e na cultura (CONNELL, 1997, p. 35)3.

Esta formulação se afina com um outro passo, igualmente importante, que precisa ser dado, no sentido de considerar o gênero não como sendo apenas o estudo das relações entre homens e mulheres, mas inseri-lo numa perspectiva semelhante à de Marilyn Strathern (apud VALE DE ALMEIDA, 1995, p. 129), segundo a qual gênero “são as categorizações de pessoas, artefatos, eventos, seqüências etc., que se baseiam numa imagética sexual, nos modos como o caráter distintivo das características macho e fêmea concretizam as idéias das pessoas acerca da natureza das relações sociais”.

Deste modo, os significados relacionados ao gênero, acabam por se constituir numa dicotomia fundamental e princípio classificatório a partir de uma simbólica de divisão do mundo em masculino e feminino (VALE DE ALMEIDA, 1996), a qual foi ricamente sistematizado por Bourdieu (1995). O padrão geral da masculinidade seria a masculinidade hegemônica, a partir da qual – sendo buscada, questionada ou negada – as outras possibilidades de exercício da masculinidade, se constituiriam: “a masculinidade hegemônica é um modelo ideal que, não sendo atingível (...) por nenhum homem, exerce sobre todos os homens e sobre as mulheres um efeito controlador (VALE DE ALMEIDA, idem, p. 163).

Com relação à questão do trabalho na definição da identidade masculina, será importante a noção defendida por Cinthya Sarti (1996, p. 66) para quem “o trabalho é muito mais do que o instrumento da sobrevivência material, mas constitui o substrato da identidade masculina, forjando um jeito de ser homem. É condição de sua autonomia moral, ou seja, da afirmação positiva de si, que lhe permite dizer: eu sou”. Disto decorre a importância de remeter os dispositivos de formação da masculinidade que estamos investigando à discussão sobre honra, enquanto direito ao orgulho de si mesmo, como bem definiu Pitt-Rivers (1971, pg. 13), associando-a também à pobreza, onde a honra vincula-se à virtude moral e não à posição social (SARTI, idem, p. 119).

Sobre os processos tecnológicos e sua relação com a constituição das subjetividades, relacionamos neste trabalho a interface entre o mundo do trabalho, sua importância para a conformação das masculinidades, e a relação com novos significados atrelados a este espaço intersubjetivo. Busca-se avaliar o impacto de novas tecnologias na construção do conhecimento dos indivíduos, ou seja, como estes reconstroem o impacto de novos significados introduzidos ao mundo do trabalho. Consideramos que a recepção dos novos artefatos tecnológicos não se dá de forma passiva. Ela implica reelaborações, incorporações e resistências dos grupos sociais dentro dos quais essas transformações atuam. São construções que se baseiam em referenciações sóciolingüísticas, onde processos de introdução de novos signos são acoplados, em espaços de ancoragem a antigos significados (MONDADA,1994).

Tendo estes elementos como orientação de nossa análise, apresentaremos as características das comunidades investigadas e alguns resultados a que chegamos.

Masculinidade e pobreza em Camaragibe

A população de Camaragibe que foi estudada pertence a uma área conhecida como “invasão”. Esta corresponde a uma área com cerca de 1500 famílias, ocupada nas últimas duas décadas e formada atualmente, como grande parte da população do bairro, por famílias oriundas do interior do Estado, de antigas zonas canavieiras e de demais partes da região Metropolitana do Recife (RMR). Pensando a Invasão como uma área geográfica específica, ela própria é configurada de modo diverso por seus habitantes. Enquanto que para os moradores de outras áreas ela é percebida como um todo negativo, às vezes chamado de “a favela” e apontada como o lugar mais violento do bairro, onde se concentram os “maconheiros” e “as almas sebosas”4, ela tem seu trecho mais próximo à “rua” como sendo mais valorizado. À medida que se vai afastando, em direção ao seu final e se aproximando do trecho de mata atlântica ainda restante, é considerado mais violento e, assim, menos valorizado.

No que diz respeito ao trabalho, muitos homens encontram-se desempregados. Não apenas no sentido de enfrentar a intermitência do mercado, mas por estarem identificados por períodos longos sem trabalharem (de um a sete anos ou mais) e muitos deles não procurarem biscates para fazerem, adequandose à condição de “sustentados por” alguém, ou seja, a esposa, a mãe ou irmãos.

Apesar da diversidade de experiências, é possível identificar uma referência geral ao que consideram ser homem. Referência para os valores, os comportamentos, os sentimentos, as posturas que devem servir de orientação para estes homens. Por outro lado, será possível, quando observado o cotidiano desses homens, perceber que “a forma culturalmente exaltada de masculinidade só corresponde às características de um pequeno número de homens” (VALE DE ALMEIDA, 1995, p. 150).

Segundo o modelo hegemônico de masculinidade apresentado, além de ter uma esposa e uma casa, emancipando-se dos pais, um homem só se realiza completamente quando é também pai, mesmo que isso não seja planejado na maioria das vezes (SCOTT, 1990, p. 45). Ainda de acordo com este modelo, o homem é o provedor “de teto, alimento e respeito” (SARTI, 1996, p. 38). As expressões “não deixar faltar as coisas em casa”, “cumprir com as obrigações”, “dar conta das coisas da casa” surgem em suas falas de modo extremamente recorrente. Há uma relação direta entre ser homem e ser capaz de suprir as necessidades materiais da família. O homem deve ser capaz de dar tudo que a família precisa sem que a mulher trabalhe fora de casa. Quando a possibilidade de trabalho feminino extradoméstico é considerada, sempre é pensada como um complemento, quando o rendimento do homem não é suficiente.

O trabalho feminino fora do lar ao ser, a princípio, negado e, depois, apontado como um recurso de segunda ordem, um complemento ao trabalho masculino, informa acerca das expectativas que estes homens têm das mulheres enquanto donas de casa, mas remete também a uma referência mais geral, em que as mulheres se inserem, qual seja a de que as mulheres são potencialmente infiéis e o trabalho extradoméstico acentuaria essa expectativa.

Ao mesmo tempo em que consideram a possibilidade de traição, sua compreensão de homem enquanto “controlador” da mulher impele à crença de que é possível impedir sua concretização. Este seria mais um desafio. Manter sob controle os impulsos femininos de traição. Por outro lado, este temor pode ser pensado também como não sendo apenas resultado da infidelidade feminina, mas a percepção de que o homem – todos os homens – não tem controle sobre a sexualidade, tem muitas relações sexuais e necessariamente com mulheres diferentes e duvidam de que “exista um homem que não tenha tido uma mulher fora”.

Existe o hábito de divulgar-se para todos os amigos as mulheres que arranjam fora. Estas descrições sempre beiram os limites da realidade, configurando-se em “torneios de virilidade” (NASCIMENTO, 1995, p. 50; ver também VALE DE ALMEIDA, 1995, p. 187), verdadeiras disputas nas quais está em questão apresentar-se como o que teve o maior número de relações numa só noite, o que tem o maior número de mulheres, além de serem estas tidas como as mais maravilhosas. E assim está indiretamente posta a idéia do homem como provedor mais uma vez, tanto de pão quanto de respeito, pois o fato de a mulher trair é pensado enquanto decorrência de o homem não “cumprir com suas obrigações” – todas elas.

Certa vez ouvimos um homem provocar um colega na rua: “mulher com fome bota chifre. E com menino, pior ainda”. E depois comentar com um outro que estava a seu lado: “a minha não bota porque tudo que eu ganho é pra dentro de casa. Ela pode botar chifre, mas é de barriga cheia”. O problema para o homem ter mais de uma mulher não estaria nunca dado pelas mesmas questões que a mulher. Quando se censura um homem por ter outra mulher ou outra família, esta crítica é referida ao fato de ele ter condições de prover satisfatoriamente os dois lares. Se um segundo lar leva-o a “faltar com as coisas em casa”, este será desaprovado, mas se é capaz de sustentar os dois, isto pode ser visto como um elemento a mais na definição do ser homem. Ele pode mostrar aos demais que é “tão homem” que pode sustentar mais do que uma mulher.

O único medo admitido direta ou indiretamente é o de ser traído. Tão certo quanto o fato de que o homem pode e deve ter várias mulheres, é o temor que, embora referido aos outros, não é menos presente, que a mulher traia, posto que isto não é dado pelo homem, mas seria constituinte da “índole feminina”. Ao homem caberia sempre buscar minimizar os riscos deste evento apenas em relação a sua esposa/companheira/namorada, pois é o domínio que o ameaçaria. Das mulheres que, segundo seu julgamento, não são ‘sérias’ já se espera que traiam. Mesmo em caso de ser traído pela esposa, este não é um fato que de todo desonre. Dependerá do tipo de atitude que se tome frente ao fato. Neste caso, o controle pode retornar às mãos do homem. Se for traído e separar-se da esposa, ainda assim. Às vezes, procura-se construir a noção de que a traição feminina não traz mesmo nenhum ‘prejuízo’ ao homem em termos morais, desde que se tome esta decisão acertada frente ao caso.

O grande problema parece estar naqueles que, sabendo-se traídos, mantém a relação ou, então, nos que se separam e depois ‘aceitam’a mulher de volta. São os chamados “cornos mansos”, a pior coisa que um homem pode ser, ou seja, a situação que denota perda total de controle sobre a mulher (SCOTT, 1990, p. 41), a perda da autonomia.

A despeito da existência desta masculinidade hegemônica, constituemse no dia a dia situações que demonstram a existência de distintas formas de vivência das masculinidades, isto é, outras masculinidades que não se acoplem ao conceito de uma hegemonia de constituição. É importante pontuar novamente que a masculinidade hegemônica é um modelo cultural ideal que exerce sobre todos os homens e sobre as mulheres um efeito controlador, mas ao mesmo tempo não é “atingível – na prática e de forma consciente e inalterada – por nenhum homem” (VALE DE ALMEIDA, 1996, p. 163).

Muitos dos homens que percebiam a função de provedor do lar como a mais importante de um homem não tinham condições de cumprila totalmente às vezes, nem parcialmente, outras. Trabalhando fora, suas esposas muitas vezes ganham mais que eles e afirmam estas que, quando começam a ganhar algum dinheiro, alguns dos maridos deixam de trabalhar e esperam pelo seu dinheiro. Além desta ‘divisão’, nem sempre igualitária, do orçamento doméstico, devido ao grande número de desempregados, muitos lares são sustentados pelas esposas, mães ou outro parente. Embora muitos vivam de biscates, outros já não o fazem, nem procuram emprego, mas isto não implicou num redimensionamento das atividades domésticas. Um deles, sem trabalhar já há mais de cinco anos, afirmou que sua esposa sai de casa para trabalhar às cinco horas da manhã e deixa a sua comida já pronta, enquanto ele fica os dias entre os bares e a TV. Em outro momento, radicaliza esta situação, usando um recurso diferente quando a força não funciona. Certa vez, sua esposa reclamou em um bar porque seu proprietário tinha vendido fiado a seu marido sem sua autorização. Depois que ela se foi, disse malandramente; “tá botando bocão por que? Não é pra me sustentar que ela trabalha?”.

Mas nem todos falam nem sentem da mesma maneira. O “botar bocão” não é sempre passível de ser ironizado. Um destes homens desempregados afirmava: “o que eu não gosto é que ela fica querendo botar bocão, mandar em mim”. Um outro, também desempregado, falava do mesmo incômodo e da impotência frente à situação: “eu acho que mulher quando trabalha fora passa a querer dominar o homem. A minha, quando trabalhava, chegava em casa, tava as coisas feitas, os meninos tomado banho... Aí eu tinha tomado uma dose... ela vinha me dar um beijo e dizia: tu tava bebendo... e ficava querendo me controlar”.

Controle sobre as próprias vontades, um imperativo da masculinidade, já não pode ser atualizado por muitos. O próprio casamento, ou o fato de poder anunciar aos amigos que têm uma mulher depende de outras circunstâncias. Um dos informantes, vivendo sozinho e sobrevivendo de biscates falou, referindo-se a uma namorada que diz ter em um loteamento vizinho a Alberto Maia: “ela quer morar comigo, mas eu não levo ela pra casa porque sozinho eu já passo fome, imagina com uma mulher?!”.

Frente à infidelidade feminina, como vimos, a atitude mais coerente do homem é abandonar a esposa. Ser traído só é um mal maior do que o fato de não tomar esta atitude ao saber-se assim. São os “cornos mansos” que são vistos com perplexidade por alguns: “eu conheço um cara que mora aqui perto que todo mundo sabe que a mulher deixou ele para morar com outro cara e passou uns tempos vivendo com ele e até arrumou um filho dele. Quando ele deixou ela, ela voltou pro marido. Ele aceitou ela e ainda ta criando o menino”. É por esta razão que, mesmo que a ex-mulher queira voltar, eles dizem só aceitariam se pudessem ir morar em outro local, pois continuando a morar em Alberto Maia, aconteceria o mesmo que aconteceu a um outro amigo, que muitas vezes serve de motivo de risos para os demais, seja por sua constante embriaguez, seja porque quando está embriagado, traz à tona o segredo que a todo custo ele tenta esconder: o fato de ser casado com a mesma mulher que já o abandonou e morou com outro no mesmo bairro por mais de um ano, tendo depois voltado pra ele.

Frente à impossibilidade de vivenciarem em seu cotidiano várias características do modelo, os homens se utilizam de diferentes estratégias para atualizarem o mesmo em suas vidas. Os bares aparecem como espaço privilegiado para a definição e a atualização de um certo modelo de masculinidade. Por sua característica de informalidade, ele comporta elementos que problematizam algumas das características mais marcantes da masculinidade hegemônica ao permitir aos homens a emersão dos sentimentos e a visualização de suas fragilidades, em grande medida, favorecidas pelo consumo do álcool. Do mesmo modo, o fato de colocar homens distintos, sob vários pontos de vista, segregados das mulheres em um mesmo espaço, faz com que se visualize as assimetrias internas às masculinidades. Não é apenas em relação a este outro ausente – a mulher – que o homem se diferencia e identifica, mas entre os próprios homens há códigos que definem o que é ser mais ou menos homem (VALE DE ALMEIDA, 1996, p. 163). Pensamos os bares enquanto palco por entendermos que os homens encontram aí um espaço para o aprendizado das masculinidades, as quais se constituem num processo social frágil, autovigiado e disputado (VALE DE ALMEIDA, idem; LEAL & BOFF, 1996). Nele se delimitam que conversas, posturas e atitudes podem informar sobre o que é ser homem, bem como manter-se assim (NASCIMENTO, 1995).

Imaginar os bares como espaços estratégicos à elaboração de imagens de masculinidades, talvez pareça simples já que se pode pensá-los como espaços propícios a isto, devido a sua informalidade. O bar permitiria uma redefinição de certos valores em que a esperteza e o domínio de uma certa retórica já contribuiria para, de algum modo, reinstalar uma masculinidade sempre ameaçada a ser reposta (LEAL & BOFF, idem). Mas como pensar a realização deste feito em outros contextos, aparentemente mais austeros e rigorosos, onde a incapacidade de cumprir as demandas é mais diretamente cobrada e imputada como falha?

Vejamos como essas questões estão presentes no contexto dos arranjos familiares que se formam em casos de impossibilidade de provimento do lar pelos homens. Mesmo sendo inegável a existência de um débito considerado tanto pelos próprios homens, quanto pelos demais, quando esta tarefa não é cumprida, é possível ver que, ainda assim, são construídas estratégias de reversão deste contexto, fazendo-se emergir sentidos diversos. Aqui entram a figura da mãe transferindo autonomia ao filho; uma redefinição do tempo, em que a atual situação é vista como uma fase; até os casos em que o infortúnio assume sentido de vantagem. São os casos em que os homens passam a tirar proveito do trabalho feminino, configurando sua situação de despossuído como esperteza. Por fim, todas estas elaborações são perpassadas por uma tentativa insistente de construção de imagens positivas através dos mais diversos tipos de discursos. A elaboração de um elogio de si dá-se, seja através da idealização do passado, remetendo ao que são considerados grandes feitos na esfera sexual, afetiva ou conjugal e profissional; a associação de sua imagem a “pessoas de bem”, amigos e pessoas ricas. Consideramos que nesta atividade, um dos principais recursos é a criação de uma estrutura, na qual se constrói um panteon de outros marginalizados com os quais se identificarão de modo contrastivo: mesmo nas situações em que se está muito distanciado das “recomendações” do modelo central da masculinidade, ainda é possível considerar-se hierarquicamente acima das mulheres, dos homossexuais, dos ladrões e dos “maconheiros”.

A princípio, estas questões nos chegaram de modo reticente. Perguntado se estava trabalhando, e como era mantida financeiramente a casa, um de nossos informantes afirmou que era ele e sua esposa: “ela bota pra dentro e eu também”. Imaginamos que fosse aposentado ou recebesse alguma pensão. Na seqüência, ele começou a esclarecer: “Minha mãe me dá. Minha mãe banca eu e meu irmão”. Só assim foi possível entender que sua mãe era empregada doméstica e dizer que também “bota dinheiro pra dentro” de casa, significava um recurso onde este homem buscava alguma autonomia através da mãe. Numa acrobacia lingüística, na qual o jogo das relações de parentesco fazia mãe e filho aproximarem-se e quase serem uma só coisa em oposição à estrangeira esposa (ver FONSECA, 1987). Este homem se via, ao menos naquele momento, desobrigado de dizer que era “sustentado pela mulher”.

Quando recursos desta natureza não são utilizados, a afirmação de que, além de não estar trabalhando, é a esposa quem está sendo responsável pelo sustento da casa, não é feita de forma direta. Uma das justificativas mais comuns é a de se apresentar o contexto atual de desemprego como algo temporário: “esses dias eu tô parado...” ou “o negócio não ta muito bom, quem tá sustentando a casa é a mulher... quando eu não tenho, ela é quem sustenta”. Quando não é esta fala de um tempo modificado (que na maioria das vezes, significa muito tempo), mas seguindo a mesma lógica, muitos apresentam um discurso “moderno”, sinalizando naturalidade para sua posição de dependência: “mas ela sabe que comigo é nenhuma”5; quando eu não tenho, ela tem...”. Frente ao modo de confrontar-se com a realidade, em que não é possível agir de modo compatível com as prerrogativas do modelo, é preferível antes se admitir incapaz, reelaborar o próprio modelo. É sempre possível dar novos sentidos à realidade vivida. É possível contar com um futuro em que haverá possibilidade de estabelecer a ordem perdida. E aqui falamos de um estabelecimento que não é necessariamente o de um tempo vivido. Não importa, ao menos neste caso, perceber se será ou não alcançado este tempo; se o tempo em que “eu não tô podendo”, vai deixar de existir. O mais importante é perceber este redimensionamento do tempo, remetendo-se a um futuro, como uma possibilidade de se conviver com um presente que não é o idealizado ou desejado.

Estas questões remetem ao que havíamos pontuado como sendo os recursos usados quando não se pode vivenciar as prerrogativas do modelo. Nesta população específica, há o fato marcante de muitos homens estarem enfrentando a impossibilidade de serem os provedores de seu lar. Para os pescadores do litoral sul de Pernambuco, as características são bastante diferenciadas em alguns aspectos, e não queremos aprisioná-los às mesmas interpretações. Para além disso, o fato de estes homens estarem também passando por reconfigurações na forma como se relacionam com o trabalho numa interface com a aquisição de novas tecnologias, nos remete a um exercício que pode ser frutífero: como esses homens lidam com a perspectiva de virem a mudar nesses aspectos. Algumas semelhanças, para nós, parecerão interessantes.

Os pescadores, o trabalho, a aquisição de novas tecnologias e as masculinid ades: nos limites do mar

O mar é aquele conhecido por eles. Local de trabalho, lócus de encontros e de construção de relações cotidianas. Um mundo constrói-se: em que o ofício de pescador e o próprio ato de constituir-se enquanto homem faz parte do cenário. O cenário é a praia e o mar, a colônia/associação de pescadores e a família, os amigos e o lazer, o trabalho e a pesca. Neste tópico de nosso trabalho traremos um pouco do relato dos pescadores sobre o universo da pesca e as relações constituídas neste espaço. Além disso, traremos o relato da introdução dos novos aparatos tecnológicos e sua introdução no mundo do trabalho. Enquanto para os homens apresentados acima, o desafio é posto por uma conjuntura em mudança na qual é cada vez mais difícil um trabalho que os coloque na condição de provedores de seus lares, as mudanças ocorridas no universo dos pescadores serão descritas pensando-se na inter-relação entre a constituição de um modelo de masculinidade que busca ser atualizado a partir da vivência no mundo do trabalho sob fortes mudanças.

Todos os pescadores entrevistados são casados, chefes de família e provedores do lar. Todos eles possuem barcos possantes e equipamentos eletrônicos vindos no pacote tecnológico do projeto PEditec, ao qual aderiram, através da associação de pescadores das comunidades na cidade de Ipojuca, litoral sul de Pernambuco. Antes da difusão tecnológica, estes pescadores aprenderam o ofício através do contato com outros pescadores mais velhos, na prática da pescaria. Ser pescador não é, segundo eles, algo a que qualquer homem tenha acesso. Aqueles que conseguem superar os medos do mar em dias de chuva ou tempestade e que não enjoam mais com o balanço das ondas podem começar a iniciar-se. “Para ser pescador é preciso inteligência, saber se orientar no mar, saber os ‘cabeços’ e ‘pesqueiros’ que existem, os tipos de peixes, o tipo de solo...”.

O mundo dos pescadores: trabalho no mar

Os pescadores das comunidades investigadas vivem da pesca artesanal. Isto significa dizer que a pesca é realizada através de tecnologia diversa da que foi introduzida com o projeto PEditec, e o conhecimento do mar é adquirido através da prática concreta da pesca diária acompanhada de outros pescadores mais experientes. A vida em comunidade tem características próprias das colônias de pescadores dos mares pernambucanos em geral. As famílias vivem em torno do trabalho pesqueiro e os filhos ajudam seus pais até a adolescência, quando decidem se querem seguir o ofício de pescador ou não. Muitos não optam pela vida de pescador, que é apontada pelos próprios pais como uma vida muito difícil e sem perspectivas.

As esposas auxiliam na manutenção e venda do pescado, quando ele é trazido do mar. Mulher no mar só encontramos quando realizando pescas ditas inferiores e que não necessitam de força. São as catadoras de mariscos dos mares do litoral norte. Nas duas comunidades estudadas, que localizam-se no litoral sul do Estado, não encontramos essa prática pesqueira, e, por conseguinte, as mulheres trabalham apenas auxiliando os maridos no armazenamento, trato e venda do pescado. O mundo da pesca não é permitido às mulheres, a não ser em funções exercidas em terra. Ao mar só vão os homens. Em algumas comunidades, mulheres chegam a quebrar esse modelo, entretanto, nas comunidades por nós estudadas as mulheres participavam da pescaria tomando conta da colônia na ausência dos homens, tratando os peixes e comercializando-os.

As famílias vivem em torno da pesca, pois os homens vão ao mar, suas esposas trabalham em terra nos afazeres relacionados à pesca (inclusive fazendo a alimentação que será levada em alto-mar); os filhos podem estar aprendendo o ofício de pescador, trabalhando ou estudando, como já mencionado; e as filhas, em sua maioria, ajudam as mães no trato do pescado e demais atividades relacionadas. As famílias dos pescadores montam seus trabalhos de venda, trato e captura do pescado, organizados em torno da colônia de pescadores que é, em alguns casos, a extensão de suas casas. Há apenas uma colônia que trata dos interesses dos pescadores de ambas comunidades. A colônia situa-se no vilarejo maior e os pescadores do outro vilarejo precisam deslocar-se em torno de 10 km até ela. As duas comunidades assemelham-se em organização do trabalho pesqueiro e na forma de lidar comunitariamente com o ofício de pescador. Ou seja, possuem representações bastante aproximadas com relação ao que é o trabalho pesqueiro e como este pode e deve ser desempenhado. Podemos dizer inclusive, que apesar das peculiaridades locais, as comunidades de pescadores do litoral pernambucano como um todo se aproximam e assemelham-se bastante na forma de lidar com o trabalho pesqueiro. Portanto, para efeito de análise, trataremos as duas comunidades escolhidas como uma ‘grande comunidade’, visto que as semelhanças entre elas são bem maiores que as particularidades; entretanto, sem deixar de frisar as possíveis particularidades quando se fizer necessário.

Os pescadores embarcavam rumo ao mar por um a dois dias apenas. Com a chegada dos novos barcos, com motores mais possantes e reservatório de gelo maior, eles passaram a embarcar nas segundas-feiras, retornando às vilas de Porto e Serrambi no final da semana, quando retiram o peixe para ser comercializado. Alguns, entretanto, continuam passando poucos dias no mar, a depender do tipo de pesca a se realizar e da quantidade de peixe que conseguem pescar.

Para os pescadores, o mar é um deserto com algumas ilhas que são denominadas de ‘cabeços’. Nesses locais específicos, a fauna marítima instalase e há vida. Os peixes vão a estes locais, ou moram mesmo neles, pois lá há alimentos. Os pescadores contam que sabem a localização destes cabeços porque eles já foram descobertos por outros pescadores anteriormente, sendo a informação passada de geração em geração. Para marcar os cabeços na memória e não perder esses mapas marítimos de localização dos cardumes, os pescadores utilizam-se de orientações que eles chamam de ‘marcações’. Essas marcações são feitas de acordo com um ponto fixo na terra visto do mar, e de mais um ponto que vai mudar à medida que o barco navega. Esses dois pontos são marcados e cruzam-se no momento em que o barco encontrase no lugar certo para a pesca, ou seja, em um determinado ‘cabeço’. Aos cabeços e às marcações dos mesmos, os pescadores dão nomes específicos que são conhecidos por todos. São como locais fixos onde há certos tipos de peixes e onde se deve, portanto, pescar. Os cabeços podem ser formados por diferentes tipos de solo. De acordo com o tipo de solo – calcáreo, arenoso, pedregoso, etc – os pescadores identificam as espécies de peixes que podem ser encontradas. A profundidade do cabeço também dá muitos indícios de que tipo de pesca pode ser ali praticado: quais instrumentos necessários, se há possibilidade de se pescar no local com os apetrechos (linha, anzol, rede etc.) disponíveis no momento e os tipos de peixe. Também há alguns cardumes itinerantes que podem ser encontrados entre um cabeço e outro, nos espaços ‘desertos’ do mar.

Com o advento da difusão tecnológica, os homens começaram a passar por situações-limites no tocante ao exercício de provimento de seus lares. As mudanças tecnológicas no trabalho pesqueiro trouxeram consigo a ameaça real de perda dos barcos e de dificuldade financeira, visto que o pacote tecnológico deveria ser pago pela colônia através do trabalho de cada pescador. O que colocamos é que esta ameaça real de perda da função de provedor, por causa do endividamento com o Banco do Nordeste, pode ativar outras formas de atualização do modelo de masculinidade central. E este caminho se dá através da relação que os pescadores irão travar uns com os outros em função da posse dos aparelhos eletrônicos e do manuseio dos mesmos. Para entendermos este processo, vejamos como se dá o uso dos aparelhos e as implicações da inserção das novas tecnologias na vida dos pescadores.

De uma forma geral, os pescadores utilizaram os equipamentos de forma semelhante, apesar de haver casos de formas específicas de adesão às nova tecnologias. Esses casos foram percebidos como exemplos de ‘adesão parcial a novos conhecimentos’ , no sentido de que nenhum deles fez uso dos equipamentos da forma prevista pelos técnicos que montaram o processo de introdução das novas tecnologias junto às comunidades. Entre os pescadores havia aqueles que utilizavam o GPS quando seus conhecimentos de localização no mar não podiam ser ativados (dias nublados ou chuvosos, quando não se podia visualizar à distância as marcações por terra, utilizadas tradicionalmente). Estes levavam o GPS consigo, no barco. Outros, apesar de levarem o GPS no barco, não se utilizavam deste, apenas mantinham-no consigo. Havia ainda os que, tal como seu Manuel, guardavam o GPS em casa. Esse pescador, particularmente, é um dos mais experientes da região, é mestre de pesca conhecido e respeitado por toda a comunidade devido a seu trabalho e conhecimento das marcações, dos cabeços, enfim, das técnicas tradicionais de pesca artesanal. O novo conhecimento é tomado por ele como importante, embora efetivamente ele se reconheça bastante frustrado em suas perspectivas de melhorias, que poderiam ser fruto da vinda do pacote tecnológico. Ele acredita, inclusive, que o conhecimento de novas técnicas de pesca seriam uma forma de resolução do problema de ‘pouca pesca’, pesca de poucos peixes. A aparelhagem eletrônica a qual ele dá o nome de ‘apetrechos’ não vem acrescentar melhorias e “não carece de ser compreendida e absorvida”.

Podemos entender estes casos em que os pescadores não desejam descartar os aparelhos, mesmo não fazendo uso dele no mar, como representando um espaço de status advindo de um conhecimento que é delegado a alguns e não a todos os pescadores (apenas aos que participam do projeto) e representante de poder financeiro, já que são aparelhos caros e difíceis de manusear. Aliado a isto, esses aparelhos constituem espaços de conhecimento pertencente a um mundo considerado pelas pessoas da comunidade como sendo ‘moderno e avançado’.

Não há um só pescador que tenha deixado de utilizar-se da técnica artesanal de marcação por terra. Eles alegam que poderiam estar fragilizados sem a técnica antiga. Imaginemos, por exemplo, “se um desses GPS descarrega sua bateria e deixa um desses pescadores à deriva, como saber a orientação senão pelas técnicas antigas?!”. Por outro lado, o GPS também pode ter uma função de grande importância quando a técnica da marcação não puder ser utilizada.

A utilização do GPS deveria trazer consigo modelos tecnológicos que auxiliariam no trabalho pesqueiro de forma mais efetiva. Ou seja, este aparelho deveria modificar a prática cotidiana de pesca, o que não aconteceu. Portanto, quando indagados da importância do GPS, os pescadores falam sempre que este vem preencher as lacunas da antiga técnica da marcação por terra.

Efetivamente, o que deveria acontecer para que o uso do aparelho fosse justificado, seria uma pesca que ultrapassasse os limites da plataforma continental, espaço geográfico que situa-se além dos limites da possibilidade de visualização por olho humano do continente, fator decisivo na marcação por terra. Então, outros cardumes e cabeços poderiam ser localizados e o GPS teria uma função ‘concreta’. Na contramão desses acontecimentos, os pescadores continuam pescando apenas até os limites já conhecidos, onde o GPS não tem um sentido ‘real’ de utilização. O que aconteceu neste processo de intervenção dos técnicos do projeto PEditec, não nos cabe aqui discutir, colocamos, apesar disto, o dissenso entre a forma concreta de organização do conhecimento por parte dos pescadores e o novo conhecimento prático, que não se efetivou a partir das técnicas abstratas postas a seu dispor.

O encontro de expectativas e realidade concreta trouxe aos pescadores o desconforto ao tratarem de um assunto tão dúbio a seu próprio ver. Dúbio porque, de um lado, viam-se com um status adquirido através da posse de equipamentos eletrônicos ‘potentes’ e, muitas vezes ‘complicados’ para seu entendimento (caso do GPS especificamente) e sem uma necessidade que suplantasse as técnicas concretas que eles já utilizavam até então. O status adquirido pode ser visto como um ponto positivo para os pescadores que possuem esses aparelhos. Esse status pode ser visualizado por nós através da comparação entre os discursos daqueles que possuíam e dos que não possuíam os equipamentos eletrônicos na colônia.

Há um deslocamento do conceito de utilização dos instrumentos eletrônicos. Um novo espaço de conhecimento é criado aqui. Passa-se do conceito de utilidade para o de valor, status: “não uso... mas guardo com o maior cuidado em casa... (seu Fred)”. “Eles tem GPS... e nós não... eu não sei mexer, não, mas já vi no barco... (seu Francisco)”.

Seu Fred possui GPS e não o utiliza. Apesar disso, mantém o mesmo bem guardado, além de levá-lo consigo para o mar algumas vezes. Enquanto isso, seu Francisco, contramestre, dono de barco, não foi ‘beneficiado’ com os novos aparelhos eletrônicos e comenta sobre os mesmos com o interesse de quem vê novos incrementos e novas formas de lidar com o trabalho, e com a natureza que impõe saberes diferentes dos que ele possuía até então. Além disso, a inserção de novos elementos ao trabalho pesqueiro significou o aparecimento de novas relações de poder, em que quem detinha os novos equipamentos e sabia manuseá-los minimamente possuía um saber ‘que era de poucos eleitos’.

Além disso, os novos equipamentos eletrônicos passam a significar espaço de status a partir do momento em que se relacionam a espaços de significação onde o saber tecnológico relaciona-se ao ‘saber que vem da cidade grande’. Os valores e representações de que o conhecimento que vem das metrópoles e que os equipamentos que são eletrônicos são melhores e mais potentes, representando avanços por parte de que os possui ou manipula, formam estes espaços mentais de ‘manipulação do sagrado (nesse caso, sobre o GPS e a ecossonda). Entretanto, o GPS, por ser mais dificilmente manipulado, assume o protótipo deste conceito a respeito de quem detém o poder e status.

Apesar dos aparelhos não apresentarem, na prática, mudanças efetivas com relação à pesca e dos pescadores não passarem a pescar mais nem melhores peixes; aliado ao fato de que, agora deviam dinheiro ao banco por essa aparelhagem e pelo barco adquirido, estes aparelhos e os barcos mais possantes vieram ocupar esse espaço de status e poder nas relações de trabalho.

Portanto, acreditamos que os equipamentos eletrônicos, através do status ativado por sua via, vêm suprir a falta ou a impossibilidade eminente desses pescadores em continuarem provendo seus lares. Esses homens parecem estar convivendo com a mudança tecnológica de forma tal que, por um lado, deparam-se com a fragilidade financeira e a desilusão de melhor condição de vida e, por outro, encontram nos aparelhos que não são usados efetivamente, uma utilidade ‘nova’, que é a de resguardar seus espaços de manutenção de um modelo de masculinidade central/hegemônico, ao qual eles têm recorrido em seu mundo do trabalho.

A mudança e a efetivação do que significa para os pescadores exercerem a masculinidade se dá principalmente através do espaço do trabalho, que é onde se travam as relações dos homens uns com os outros. Mesmo que seja claro o contraponto desses homens (trabalhadores do mar) com as mulheres (as que ficam na terra), a noção de que o domínio das relações de poder e trabalho também são igualmente importantes, para pensar as implicações do gênero, ficam igualmente evidentes nesse contexto (CONNELL, 1987).

Com relação ao status adquirido a partir da posse dos aparelhos eletrônicos, paradoxalmente, podemos dizer que os pescadores também constroem espaços de status das antigas técnicas de pesca, a partir da forma com que eles lidam com esses equipamentos eletrônicos. Ou seja, ao verem-se diante de um quadro de mudanças desfavorável economicamente, recorrem a uma exaltação das antigas técnicas de pesca como um espaço de reconhecimento e valorização do que significa ser um bom pescador. E os equipamentos eletrônicos, por conseguinte, passam a não serem utilizados efetivamente, não apenas por apresentarem dificuldades em seu trato, mas também por não serem mais tão eficazes (como os pescadores imaginavam que estes poderiam ser ao auxílio da pesca artesanal, quando entraram no projeto de difusão tecnológica) quanto às antigas técnicas da pesca.

Reflexões finais

Estas questões trazidas à tona por nós apontam para que não é que existam homens que queiram mudar ou que estão vivendo em condições contrárias, ou mais próximas ao modelo central de masculinidade. A idéia é a de que, muitas vezes, são os mesmos homens que estão dominados e dependentes das mulheres financeiramente ou emocionalmente, que apregoam o ideal de homem ‘que manda’ e se perdem em delírios de dominação do mesmo modo que o pescador que se vê ameaçado na sua condição de provedor, recorre ao que mais lhe poderia configurar como homem; frente ao outro que ameaça que tanto pode ser o tão abstrato como o concreto poder do Banco do Nordeste, quanto o pescador mais habilidoso.

Isto demonstra que as masculinidades ditas subordinadas pela literatura corrente não são versões excluídas, mas existem enquanto contidas na dita hegemonia e que a experiência é um diálogo difícil entre a ‘complexidade polimorfa’ dos seus sentimentos e ‘o simplismo dos padrões orientadores’ (VALE DE ALMEIDA, 1996, p. 164).

Procurando manter os laços que os ligam ao modelo da masculinidade conhecida e compartilhada, esses homens buscam, frente às mudanças ocorridas em suas vidas, reorientarem-se a partir da idealização de suas condições de vida no passado. Mesmo que estas condições não tenham sido, na época, melhores que as atuais, eles buscam positivá-las resgatando, no caso dos pescadores, a representação de chefe de família presente nelas.

Sendo assim, apesar das diferenças existentes – homens que trabalham e homens desempregados, homens que ‘sustentam mulheres’e homens que são sustentados’ – encontramos similaridades em ambas as populações no sentido de busca de idealização de um modelo que traz de volta a ‘segurança de sentir-se homem’. Não se trata de afirmar, como assinalamos inicialmente, que os processos se dão da mesma forma nas duas comunidades; por esta razão insistimos em suas diferenças. A importância dessa relação está na possibilidade de pensar como mudanças na forma como as percepções e as vivências da masculinidade estão ocorrendo a partir de transformações no mundo do trabalho, um dos elementos centrais na definição de um certo modelo de “ser homem” que discutimos aqui. Aliado a isso, refletir sobre gênero a partir de relações destes homens entre si e suas hierarquias e não apenas na relação com as mulheres, condiz com o nosso propósito de refletir sobre as dinâmicas do gênero em contextos diversos.

É da observação de como esses vários níveis se cruzam que podemos pensar em que medida estamos diante de sinais de alteração desta ordem, ou se tão somente estaremos visualizando masculinidades que sempre existiram, mas que, por exatamente estarem subordinadas ao modelo, não foram percebidas ou foram vistas como desvios.

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NOTAS

1
Importante reforçar que não estamos querendo forçar uma comparação entre dois grupos tão distintos e com peculiaridades próprias, tampouco colocar que os dois grupos enfrentam o mesmo tipo de questões; mas permitir a reflexão sobre dois contextos diferenciados. Sim, pois, apesar dessas diferenças, os dois grupos podem ser tomados como bons exemplos para permitir a reflexão e lançar questões sobre gênero, mudanças sociais; tomando o devido cuidado para não aprisioná-los em comparações ‘forçadas’.

2
Para o desenvolvimento das pesquisas em Camaragibe, Pedro Nascimento residiu durante três meses na comunidade no primeiro semestre de 1998 para o desenvolvimento de sua dissertação de mestrado em Antropologia Cultural/UFPE. Porém, desde 1997, desenvolve pesquisas nessa área, tendo, no ano de 1999, voltado a fixar residência na mesma comunidade para o desenvolvimento de uma nova pesquisa que fez parte do PRODIR III (terceiro programa de treinamento em pesquisa sobre direitos reprodutivos na América Latina e Caribe), promovido pela Fundação Carlos Chagas, com recursos da Fundação MacArthur. Karla Galvão fez visitas às comunidades entre os meses de dezembro de 1998 e setembro de 1999, onde realizou as entrevistas e fez observações diretas. Parte desses resultados fazem parte de sua dissertação de mestrado em lingüística, “No mar dos sentidos: linguagem, cognição e experiência no contexto da construção do conhecimento social”, defendida em 2000, na Universidade Federal de Pernambuco.

3
Tradução livre.

4
Maconheiro é o termo utilizado para traficantes usuários de drogas, bem como para delinqüentes em geral. Alma sebosa também é usado nesse mesmo sentido, porém não remete necessariamente às drogas.

5
Expressão muito utilizada que equivale a “não tem problema”, “não tem frescura” ou “deixa pra lá”, indicando sentido de normalidade.

 

* Mestre em Lingüística pela Universidade Federal de Pernambuco e dutoranda do Programa de Pós- Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas – DICH/CFH da Universidade Federal de Santa Catarina. Pesquisadora dos núcleos NIGS e Margens – UFSC (kgalvaoadriao@hotmail.com) ** Mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal de Pernambuco e Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social – Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisador do Núcleo Antropologia e Cidadania - NACI/UFRGS (pedrofgn@gmail.com)
 
 
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